11 de março de 2026
CASO GISELE

PM Gisele: polícia cogita pedir prisão de tenente-coronel do Vale

Por Da redação | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 7 min
Reprodução

A Polícia Civil avalia pedir a prisão do tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos, no inquérito que investiga a morte da esposa dele, a soldado da PM Gisele Alves Santana, de 32 anos. Caso o pedido seja formalizado, caberá ao Ministério Público analisar e decidir se solicita a medida à Justiça.

Com carreira marcada por atuação no Vale do Paraíba, o oficial é nascido em Taubaté e tem um apartamento em São José dos Campos.

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Gisele foi encontrada morta com um tiro na cabeça no apartamento onde o casal morava, na zona sul de São Paulo, na manhã de 18 de fevereiro. Inicialmente, o caso foi registrado como suicídio, mas passou a ser investigado como morte suspeita após novas informações surgirem no decorrer do inquérito.

No entanto, após a família da vítima denunciar o comportamento abusivo do oficial e novas informações terem colocado em xeque a versão do marido, o caso agora é tratado como morte suspeita.

O tenente-coronel viajou para São José após a morte da esposa. A informação obtida por OVALE consta em depoimento prestado à Polícia Civil pela inspetora de condomínio Fabiana Capinan de Carvalho Pereira, que trabalhava no prédio e acompanhou parte da movimentação após o disparo.

Segundo a testemunha, o oficial permaneceu no corredor do prédio após o atendimento inicial e retornou ao apartamento para buscar pertences antes de seguir para o Vale do Paraíba.

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Novas pistas

Novas informações obtidas pela Polícia Civil e depoimentos de testemunhas implicam cada vez mais o tenente-coronel .

A Polícia Civil pediu a exumação do corpo da policial, o que foi feito na sexta-feira (6). No procedimento, peritos identificaram lesões no rosto e no pescoço de Gisele. Segundo peritos, há sinais de que ela desmaiou antes de ser baleada na cabeça e que não apresentou defesa.

O documento diz que essas lesões eram "contundentes" e feitas "por meio de pressão digital e escoriação compatível com estigma ungueal" (marcas de unha).

Com a constatação das marcas, investigadores solicitaram exames complementares para verificar se houve compressão na região cervical antes do disparo. No sábado (7), médicos do IML (Instituto Médico-Legal) Central fizeram exames de imagem, incluindo tomografia, para analisar a lesão.

Arma na mão e Neto ‘seco’

O depoimento de um socorrista com 15 anos de experiência também compromete a posição de Neto no caso. O profissional afirmou à polícia que desconfiou da cena ao notar a arma “bem encaixada” na mão da vítima, situação que considerou incomum em casos de suicídio. Ele decidiu fotografar o local.

O socorrista disse também que o tenente-coronel da PM estava completamente seco, sem sinais de que tinha saído do banho, contradizendo o depoimento de Neto de que a esposa teria se matado enquanto ele tomava banho. Além disso, ele não tinha marcas de sangue, o que sugere que não prestou socorro.

O profissional ainda notou que o chuveiro do banheiro do corredor estava ligado, mas não havia poças de água no chão ou no corredor.

Neto também não demonstrou desespero com a perda e estava falando ao telefone de forma calma. O socorrista afirmou que dificilmente mães com criança pequena tiram a própria vida, e os meios costumam ser outros, como ingestão de remédios.

Outra informação é que o quarto da suíte estava desarrumado, com vários itens no chão, o que sugere que pode ter havido algum tipo de embate.

Dinâmica do caso

Depoimentos de socorristas e de testemunhas também levantaram a questionamentos sobre a dinâmica apresentada pelo tenente-coronel.

Uma vizinha afirmou ter ouvido um estampido às 7h28. A primeira ligação do oficial à PM ocorreu às 7h57, quando disse que a esposa havia atirado contra a própria cabeça. Às 8h05, ele acionou o Corpo de Bombeiros, informando que ela ainda respirava. As equipes chegaram às 8h13.

Entre os contatos feitos por Neto na manhã da ocorrência, um deles chamou a atenção da família de Gisele: a ligação para o desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, do TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo).

Ele chegou ao prédio às 9h07 e subiu para o apartamento com o tenente-coronel, deixando o local às 9h18. Cerca de 11 minutos depois, o oficial saiu com outra roupa. Policiais relataram que ele apresentava cheiro forte de produto químico.

O advogado da família de Gisele, José Miguel da Silva Junior, questiona a presença do magistrado no local. “Ele vai ter que explicar por que estava lá. Pelo relato que temos, o desembargador foi a primeira pessoa acionada após o disparo”, disse o defensor.

Apartamento

Laudos da Polícia Científica apontaram que a cena não foi preservada adequadamente, o que comprometeu parte da perícia inicial.

Em depoimento à Polícia Civil, a inspetora de condomínio Fabiana Pereira disse que três policiais militares femininas entraram no apartamento onde Gisele foi baleada para realizar a limpeza do imóvel, horas após a ocorrência.

Segundo a testemunha, as policiais — duas soldados e uma cabo — acessaram o imóvel às 17h48 do mesmo dia do disparo, no bairro do Brás, região central de São Paulo. Ela afirmou ter acompanhado a entrada do grupo. De acordo com o relato, o local ainda apresentava as mesmas condições do atendimento inicial, com sangue espalhado na sala após as manobras de reanimação feitas pelos socorristas.

A inspetora também declarou que outras pessoas entraram no apartamento ao longo do dia. O marido da vítima teria retornado ao imóvel para buscar pertences antes de seguir para São José dos Campos.

‘Não vai sobreviver’

A inspetora disse ainda que ouviu o tenente-coronel dizer que a esposa “não vai sobreviver” após ela ser encontrada baleada na cabeça dentro do apartamento. A fala teria sido feita enquanto socorristas ainda tentavam salvar a policial, que apresentava sinais de vida.

Fabiana disse que ao chegar ao andar do apartamento, após perceber a movimentação de equipes de resgate no prédio, encontrou o oficial caminhando de um lado para o outro no corredor.

Ela contou que o tenente-coronel estava sem camisa e não apresentava manchas de sangue nas mãos ou no corpo. Ele teria dito que a esposa “se deu um tiro”.

Ao se aproximar da porta do apartamento, a inspetora afirmou ter visto a policial caída no chão e cercada por grande quantidade de sangue, enquanto socorristas realizavam manobras de reanimação.

Ainda no corredor, a testemunha disse que o coronel falava ao telefone com uma pessoa a quem se referia como “excelência”. Tratava-se desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan.

Durante a ligação, segundo o depoimento, o militar repetia que estava no banho quando ouviu um barulho e, ao sair do banheiro, encontrou a esposa ferida.

Minutos depois, uma policial informou ao coronel que Gisele ainda estava viva e recebia atendimento médico dentro do apartamento. Foi nesse momento que, de acordo com a inspetora, ele reagiu afirmando: “Com o tiro que ela levou, não vai sobreviver”.

Investigação

O caso, inicialmente tratado como possível suicídio, passou a ser investigado como morte suspeita pela Polícia Civil. A Corregedoria da PM também instaurou procedimento para apurar eventuais responsabilidades administrativas.

A família de Gisele contesta a versão inicial e pede que o caso seja apurado como feminicídio.

À polícia, a mãe da vítima afirmou que o relacionamento do casal era extremamente conturbado e que o tenente-coronel era uma pessoa abusiva e muito violenta. Ela afirmou que Neto proibia a esposa de usar batom, salto alto e perfume, além de cobrá-la rigorosamente para realizar várias tarefas domésticas.

Outro lado

A defesa do tenente-coronel afirmou que ele não é investigado, suspeito ou indiciado e que tem colaborado com as autoridades. A defesa do desembargador informou que ele foi ao local como amigo e que prestará esclarecimentos à polícia.

Em nota, a Polícia Militar informou que acompanha as investigações conduzidas pela Polícia Civil e pela Corregedoria e que adotará as medidas cabíveis caso sejam constatadas irregularidades.

A SSP (Secretaria da Segurança Pública de São Paulo) informou que "todas as circunstâncias relacionadas à morte da Sd. PM Gisele Alves Santana são apuradas por meio de inquéritos instaurados pela Polícia Civil e pela Corregedoria da Polícia Militar".

Acrescentou ainda que "a instituição não compactua com irregularidades ou desvios de conduta e ressalta que, caso seja constatada qualquer ilegalidade, as medidas cabíveis serão adotadas".