11 de março de 2026
INVESTIGAÇÃO

Caso Gisele: novas pistas implicam PM do Vale por morte da esposa

Por Da redação | São Paulo
| Tempo de leitura: 6 min
Reprodução
Tenente-coronel Geraldo Neto e a soldado Gisele Alves Santana

Novas informações obtidas pela Polícia Civil e depoimentos de testemunhas implicam cada vez mais o tenente-coronel da Polícia Militar, Geraldo Leite Rosa Neto, 53 anos, no caso da morte da esposa dele, a soldado da PM Gisele Alves Santana, 32 anos.

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Gisele foi encontrada morta com um tiro na cabeça no apartamento onde morava o casal, na Zona Sul de São Paulo, na manhã de 18 de fevereiro. O caso foi inicialmente registrado como suicídio, mas passou a ser tratado como morte suspeita.

Neto afirmou à polícia que entrou no banheiro para tomar banho, por volta das 7h. Cerca de um minuto depois, disse ter ouvido um barulho que pensou ser de uma porta batendo. Ao sair do banheiro, afirmou ter encontrado Gisele caída na sala.

A Polícia Civil pediu a exumação do corpo da policial, o que foi feito na sexta-feira (6). No procedimento, peritos identificaram lesões no rosto e no pescoço de Gisele. Segundo peritos, há sinais de que ela desmaiou antes de ser baleada na cabeça e que não apresentou defesa.

O documento diz que essas lesões eram "contundentes" e feitas "por meio de pressão digital e escoriação compatível com estigma ungueal" (marcas de unha).

Com a constatação das marcas, investigadores solicitaram exames complementares para verificar se houve compressão na região cervical antes do disparo. No sábado (7), médicos do IML (Instituto Médico-Legal) Central fizeram exames de imagem, incluindo tomografia, para analisar a lesão.

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Arma na mão e Neto ‘seco’

O depoimento de um socorrista com 15 anos de experiência também compromete a posição de Neto no caso. O profissional afirmou à polícia que desconfiou da cena ao notar a arma “bem encaixada” na mão da vítima, situação que considerou incomum em casos de suicídio. Ele decidiu fotografar o local.

O socorrista disse também que o tenente-coronel da PM estava completamente seco, sem sinais de que tinha saído do banho, contradizendo o depoimento de Neto de que a esposa teria se matado enquanto ele tomava banho. Além disso, ele não tinha marcas de sangue, o que sugere que não prestou socorro.

O profissional ainda notou que o chuveiro do banheiro do corredor estava ligado, mas não havia poças de água no chão ou no corredor.

Neto também não demonstrou desespero com a perda e estava falando ao telefone de forma calma. O socorrista afirmou que dificilmente mães com criança pequena tiram a própria vida, e os meios costumam ser outros, como ingestão de remédios.

Outra informação é que o quarto da suíte estava desarrumado, com vários itens no chão, o que sugere que pode ter havido algum tipo de embate.

Dinâmica do caso

Depoimentos de socorristas e de testemunhas também levantaram a questionamentos sobre a dinâmica apresentada pelo tenente-coronel.

Uma vizinha afirmou ter ouvido um estampido às 7h28. A primeira ligação do oficial à PM ocorreu às 7h57, quando disse que a esposa havia atirado contra a própria cabeça. Às 8h05, ele acionou o Corpo de Bombeiros, informando que ela ainda respirava. As equipes chegaram às 8h13.

Entre os contatos feitos por Neto na manhã da ocorrência, um deles chamou a atenção da família de Gisele: a ligação para o desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, do TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo).

Ele chegou ao prédio às 9h07 e subiu para o apartamento com o tenente-coronel, deixando o local às 9h18. Cerca de 11 minutos depois, o oficial saiu com outra roupa. Policiais relataram que ele apresentava cheiro forte de produto químico.

O advogado da família de Gisele, José Miguel da Silva Junior, questiona a presença do magistrado no local. “Ele vai ter que explicar por que estava lá. Pelo relato que temos, o desembargador foi a primeira pessoa acionada após o disparo”, disse o defensor.

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Apartamento

Laudos da Polícia Científica apontaram que a cena não foi preservada adequadamente, o que comprometeu parte da perícia inicial.

Em depoimento à Polícia Civil, a inspetora de condomínio Fabiana Pereira disse que três policiais militares femininas entraram no apartamento onde Gisele foi baleada para realizar a limpeza do imóvel, horas após a ocorrência.

Segundo a testemunha, as policiais — duas soldados e uma cabo — acessaram o imóvel às 17h48 do mesmo dia do disparo, no bairro do Brás, região central de São Paulo. Ela afirmou ter acompanhado a entrada do grupo. De acordo com o relato, o local ainda apresentava as mesmas condições do atendimento inicial, com sangue espalhado na sala após as manobras de reanimação feitas pelos socorristas.

A inspetora também declarou que outras pessoas entraram no apartamento ao longo do dia. O marido da vítima teria retornado ao imóvel para buscar pertences antes de seguir para São José dos Campos.

‘Não vai sobreviver’

A inspetora disse ainda que ouviu o tenente-coronel dizer que a esposa “não vai sobreviver” após ela ser encontrada baleada na cabeça dentro do apartamento. A fala teria sido feita enquanto socorristas ainda tentavam salvar a policial, que apresentava sinais de vida.

Fabiana disse que ao chegar ao andar do apartamento, após perceber a movimentação de equipes de resgate no prédio, encontrou o oficial caminhando de um lado para o outro no corredor.

Ela contou que o tenente-coronel estava sem camisa e não apresentava manchas de sangue nas mãos ou no corpo. Ele teria dito que a esposa “se deu um tiro”.

Ao se aproximar da porta do apartamento, a inspetora afirmou ter visto a policial caída no chão e cercada por grande quantidade de sangue, enquanto socorristas realizavam manobras de reanimação.

Ainda no corredor, a testemunha disse que o coronel falava ao telefone com uma pessoa a quem se referia como “excelência”. Tratava-se desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan.

Durante a ligação, segundo o depoimento, o militar repetia que estava no banho quando ouviu um barulho e, ao sair do banheiro, encontrou a esposa ferida.

Minutos depois, uma policial informou ao coronel que Gisele ainda estava viva e recebia atendimento médico dentro do apartamento. Foi nesse momento que, de acordo com a inspetora, ele reagiu afirmando: “Com o tiro que ela levou, não vai sobreviver”.

Investigação

O caso, inicialmente tratado como possível suicídio, passou a ser investigado como morte suspeita pela Polícia Civil. A Corregedoria da PM também instaurou procedimento para apurar eventuais responsabilidades administrativas.

A família de Gisele contesta a versão inicial e pede que o caso seja apurado como feminicídio.

À polícia, a mãe da vítima afirmou que o relacionamento do casal era extremamente conturbado e que o tenente-coronel era uma pessoa abusiva e muito violenta. Ela afirmou que Neto proibia a esposa de usar batom, salto alto e perfume, além de cobrá-la rigorosamente para realizar várias tarefas domésticas.

Outro lado

A defesa do tenente-coronel afirmou que ele não é investigado, suspeito ou indiciado e que tem colaborado com as autoridades. A defesa do desembargador informou que ele foi ao local como amigo e que prestará esclarecimentos à polícia.

Em nota, a Polícia Militar informou que acompanha as investigações conduzidas pela Polícia Civil e pela Corregedoria e que adotará as medidas cabíveis caso sejam constatadas irregularidades.

A SSP (Secretaria da Segurança Pública de São Paulo) informou que "todas as circunstâncias relacionadas à morte da Sd. PM Gisele Alves Santana são apuradas por meio de inquéritos instaurados pela Polícia Civil e pela Corregedoria da Polícia Militar".

Acrescentou ainda que "a instituição não compactua com irregularidades ou desvios de conduta e ressalta que, caso seja constatada qualquer ilegalidade, as medidas cabíveis serão adotadas".