11 de julho de 2026
CAPITAL DO CRIME

Crimes no Vale: 'Pegamos meninos de 12, 13 anos roubando por brincadeira', diz delegado

Por Xandu Alves | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 5 min
Reprodução
Criminosos fazem lives após cometerem crimes

Crimes de homicídio solucionados pela Polícia Civil no Vale do Paraíba tiveram uma característica pouco comum: os autores assumiram as mortes em lives na internet ou postagens nas redes sociais.

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A prática do ‘crime ostentação’ seduz jovens criminosos que se vangloriam dos feitos violentos para ganhar respeito na própria gangue e amedrontar o grupo rival.

Os casos aconteceram em Cruzeiro, cidade que enfrenta onda de violência motivada por disputas entre gangues de jovens.

ANÁLISE

Após assumir a Delegacia Seccional de Cruzeiro em fevereiro de 2022, após auge de matanças na cidade – 42 óbitos em 2021, maior número desde 2001 –, o delegado João Paulo de Oliveira Abreu dedicou-se a compreender a natureza da violência na cidade.

Ele percebeu um fenômeno conhecido da criminologia: a subcultura da delinquência, que faz jovens atuarem no crime não em benefício próprio, para obter ganhos materiais, mas para impor respeito, impor uma questão de território e de status.

Em Cruzeiro, a Polícia Civil identificou gangues de bairros que se enfrentavam violentamente. As investigações apontaram que a maioria tinha envolvimento com o tráfico de drogas, mas sem propriamente disputa de territórios entre os bairros.

“Um bairro não vai ao outro invadir o território para tomar aquelas riquezas. Então, quando você tira essa lógica do lucro e do benefício material entram outras lógicas que muitas vezes são até irracionais, fica difícil até exercer uma prevenção”, disse Abreu.

DELINQUÊNCIA

Nessa avaliação sociológica e criminológica, o delegado percebeu três características que explicam a conduta dos jovens envolvidos com o crime em Cruzeiro.

Primeiro os comportamentos não utilitários, que não trazem proveito material nenhum para quem está cometendo, o exato oposto da organização criminosa, cuja lógica de atuação é a do lucro.

“A gente tem jovens em Cruzeiro divididos em bairros e suas gangues locais, muito caracterizadas por tatuagens, estilo de se vestir, de música, estilo de falar e de se comportar. Eles têm rixas com outros bairros”, explicou Abreu.

Nessa lógica, as mortes se sucedem como num dominó macabro, por vingança de homicídios cometidos contra membros da gangue.

“Vê-se desenvolvendo uma cultura da violência. Temos casos nos últimos sete ou oito meses em Cruzeiro de sete homicídios atribuídos a uma guerra entre duas partes de um bairro, porque os jovens entraram numa rixa e começaram a se matar. Aí quando não se encontravam mais, começaram a matar familiares que não tinham absolutamente nada a ver com a rixa entre eles. Mata o pai, depois o irmão e assim sucessivamente”, disse Abreu.

“Há cerca de duas semanas, um rapaz foi preso e ele tinha seis homicídios praticados em Cruzeiro. Então, essa conduta não utilitária é uma característica de Cruzeiro, e é uma característica dessa subcultura da delinquência.”

A segunda característica é o negacionismo, de negar o padrão estabelecido pela sociedade de ascensão social e econômica, um modelo de sucesso e de vida.

“Você tem jovens que olham para isso e que nunca vão alcançar, de ter emprego estável para ganhar tanto e ter aquele padrão de vida. Eles estabelecem um padrão de negar aquela cultura que é estabelecida na sociedade, e eles começam a se contrapor”, afirmou o delegado seccional.

CRIMES ENTRE JOVENS

A terceira característica é a malícia comportamental: fazer um ato com a outra pessoa pelo simples prazer de se mostrar para a comunidade, para ser inserido e ser aceito.

Nesse contexto, os policiais perceberam que jovens que cometeram delitos quando adolescentes e foram detidos e passaram pela Fundação Casa têm maior status no grupo criminoso.

“Nós pegamos um caso de jovens, com 12, 13 anos, assaltando por brincadeira. Uma brincadeira de roubar. Eles abordaram uma idosa na rua e levaram o celular dela. Nós conseguimos pegar esse pessoal e apreendemos o celular, que tinha gravação desses jovens na câmera rindo, dando gargalhada pelo crime. O objetivo não era vender o celular, não era o lucro, mas pura e simplesmente mostrar uma malícia comportamental e depois se vangloriar dentro do próprio seio de comunidade deles.”

Na avaliação de Abreu, tais características impõem um desafio que vai além do trabalho policial, exigindo atuação transversal de vários atores da sociedade, especialmente do poder público municipal.

“Esse é um enfrentamento que a polícia está tendo, inclusive não é de hoje. Mas como estamos falando de aspectos culturais, há necessidade de que outros fatores, outros atores da sociedade, possam também contribuir com o trabalho policial”, disse.

“A polícia continua fazendo seu trabalho, mas nós precisamos que outros atores sociais interajam junto com a polícia para que esse jovem não seja tão facilmente atraído pelo crime, pela ideia do lucro fácil e do dinheiro fácil, daquela cultura da criminalidade mesmo, de achar bonito e legal ser bandido. Então esse é o grande foco do nosso trabalho lá em Cruzeiro.”

PERFIL

A avaliação das vítimas e dos autores dos homicídios revela um perfil semelhante, de pessoas oriundas de famílias desestruturadas, jovens de baixa escolaridade, entre 15 e 25 anos, desempregados, sem perspectiva nenhuma seja cultural ou de emprego.

“Tenho conversado muito com a Prefeitura de Cruzeiro, que é uma grande aliada. O prefeito está muito atento a essa questão sociocultural. Inclusive tenho participado até de reuniões do secretariado”, contou o delegado.

Abreu não nega a influência do crime organizado do Rio de Janeiro nas gangues de Cruzeiro. “Temos os influxos de facções criminosas do Rio de Janeiro, é inegável que temos. Temos principalmente nas divisas”.

A Delegacia Seccional de Cruzeiro faz divisa com cidades do Rio, como Resende, Angra dos Reis e Barra Mansa, que têm a presença muito forte de facções criminosas fluminenses.

No entanto, segundo o delegado, essa presença sempre foi combatida nas divisas, restando aos jovens de Cruzeiro esse fenômeno criminológico característico de “subcultura da delinquência”.

“Tivemos [com a prefeitura] recentemente no Rio de Janeiro conhecendo programas sociais de inclusão social de jovens. Então, tem uma expertise desse lado. Passamos em vários equipamentos do Governo do Estado do Rio de Janeiro que fizeram para tentar atrair os jovens, para tirá-los da criminalidade. Então, eu acho importante esse conhecimento aliado ao trabalho da polícia. Que é o trabalho forte de investigação, o trabalho policial voltado para inteligência.”

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