Um dos jovens baleados na última operação policial realizada na comunidade do Banhado faleceu na tarde de sexta-feira (16). Vinícius Guerra tinha 26 anos, era hemofílico e estava preso no CDP, em São José dos Campos, após ter sido preso por suspeita de tráfico de drogas.
Segundo fontes próximas, ele ficou doente na prisão e teve complicações com as cirurgias após levar um tiro na região abdominal. O advogado de Guerra tentou prisão domiciliar por conta da hemofilia (problema que afeta a coagulação do sangue), mas o benefício não foi concedido.
Ele foi baleado durante uma operação do BAEP (Batalhão de Ações Especiais da Polícia) no Jardim Nova Esperança, no Banhado, no último dia 25 de abril. Na ocasião, ele foi preso por envolvimento com tráfico de drogas.
O rapaz foi atendido pelo Samu e levado para o Hospital Municipal, onde ficou internado por nove dias e depois encaminhado de volta para o CDP. Devido a complicações de saúde, ele voltou ao hospital por mais alguns dias, antes de retornar ao CDP.
E no último dia 13 de maio, Vinícius deu entrada na UTI do Hospital da Vila por infecção no abdômen, após "prematura alta e estadia no CDP", conforme relatou sua defesa. O estado de saúde do rapaz se agravou e a defesa conseguiu autorização para que a família pudesse visitá-lo e se despedir. Vinícius não resistiu e deixou companheira e dois filhos.
Na operação policial de abril, outro jovem de 17 anos foi baleado. Segundo testemunhas, o adolescente também sofreu complicações na parte abdominal. O menor, que era foragido, passou por cirurgia e depois da recuperação foi devolvido à Fundação Casa.
Operação
No processo criminal, consta que Vinícius teria apontado uma arma aos policiais na abordagem e os agentes teriam atirado em legítima defesa. A Promotoria de Justiça pediu arquivamento do inquérito que apurava crimes de lesão corporal supostamente cometidos pelos policiais.
Mas a defesa acredita que a ação policial foi desproporcional ao delito cometido e que o arquivamento foi prematuro. "Nem todos os elementos foram analisados”, disse o advogado Cezar Muniz à reportagem.
A esposa Viviane Guerra, 30 anos, disse a OVALE que viu pela janela de sua casa o momento da chegada da Baep na comunidade. “Não foi dada nenhuma voz de prisão. Eles já chegaram atirando. Por mais que a pessoa estivesse errada no tráfico, tinham que ter dado uma ordem de prisão, não chegar do jeito que chegaram!”, relatou a viúva.
Viviane contou ainda que o socorro demorou por volta de duas horas para chegar e que os policiais teriam se recusado a dar o fator anti-hemofílico a Vinícius na espera pelo atendimento médico. Por conta da hemofilia, Vinícius já era inclusive segurado do INSS. “O tiro foi nas costas e ficou parado no intestino. Foi negligência total o que aconteceu com ele, tanto do hospital quanto da polícia”, relatou a viúva.
Viviane desabafa que achou estranho que Vinícius ficou apenas nove dias internado no hospital depois da cirurgia e que foi transferido de volta para o CDP pelo Baep e não por uma equipe médica.
“Questionamos a alta dele. O cirurgião-geral tinha garantido que ele não poderia sair do hospital sem evacuar e que seria muita responsabilidade se ele voltasse para o hospital com alguma infecção. Mas, no dia 4 de maio, o Vinícius saiu sem evacuar, estava com dreno e com um colete na coluna”, contou.
Alguns dias depois, quando Vinícius voltou ao hospital, ele passou por nova cirurgia e precisou tirar o baço, órgão que não teria sido afetado inicialmente pelo tiro. A família suspeita que o rapaz tenha sofrido algum tipo de agressão durante a transferência ao CDP.
“Tanto que quando chegou no IML ele não conseguiu descer da viatura, ele foi levado como preso no porta mala do carro da polícia, não foi levado em maca”, contou Viviane sobre o dia da transferência, última vez em que falou com o esposo.
A família quer averiguação dos fatos. “O Vinícius era uma boa pessoa, não merecia essa injustiça. Nem passagem policial ele tinha antes, ele era réu primário. Acho que foi muita injustiça o que fizeram com ele”, concluiu Viviane.