A cidade de Cruzeiro tornou-se um desafio para a segurança pública no Vale do Paraíba com o aumento de mortes em homicídios. Das 33 vítimas em 2020, o município saltou para 42 em 2021 e tem 26 de janeiro a outubro de 2022, segundo dados da SSP (Secretaria de Estado da Segurança Pública).
No período de dois anos e 10 meses, a cidade de 83 mil habitantes acumula 101 vítimas em homicídios. Com mais de 730 mil moradores, São José dos Campos tem 123 mortes nesse mesmo período.
Diante do desafio de reduzir a criminalidade, o governo estadual trocou o comando da Delegacia Seccional de Cruzeiro em fevereiro deste ano, nomeando o delegado João Paulo de Oliveira Abreu para o cargo.
Neste ano, de janeiro a outubro, Cruzeiro reduziu em 13% o número de vítimas de homicídio, com 26 mortes contra 30 no mesmo período de 2021.
Em toda a área da seccional, segundo Abreu, foram registrados 37 mortes em homicídio doloso em 2022 (contando parcialmente dezembro) contra 43 no ano passado. De janeiro a novembro, entre os dois anos, o roubo caiu 14%, o furto de veículos recuou 31% e o roubo de veículos diminuiu 46%. Apenas o furto subiu 32%.
Para Abreu, no entanto, reduzir a criminalidade faz parte de um trabalho que envolve muito mais do que apenas o trabalho policial. Nesta entrevista, ele fala sobre a complexidade desse combate.
Leia mais: De ‘Cidades Mortas’ de Lobato aos ‘mortos nas cidades’: violência no Vale desafia SP
Como reduzir as práticas criminosas no Vale Histórico e em especial em Cruzeiro?
Não é uma reposta simples. Existem fatores importantes para a redução da criminalidade que vão muito além da atividade policial pura e simplesmente. Fatores sociais, educacionais, culturais, profissionais, religiosos, familiares etc. Fato é que a polícia não vencerá essa guerra sozinha. É necessário que outros atores da sociedade também contribuam.
Posso afirmar que grande parte dos jovens que matam e morrem hoje possuem muitas características em comum: jovens, inclusive inúmeros adolescentes, baixa escolaridade, estrutura familiar desequilibrada, sem nenhuma formação profissional, muitos usuários de drogas e, lamentavelmente, permeados por uma cultura da criminalidade largamente disseminada entre seus grupos.
Para corroborar a ideia do raciocínio acima, as estatísticas prisionais da Seccional de Cruzeiro mostram que, de janeiro a novembro de 2022, as polícias Civil e Militar, juntas, efetuaram a prisão de 490 pessoas -- contabilizando prisões em flagrante e cumprimento de mandados de prisão.
Ou seja, uma média de 44,5 pessoas presas por mês. Como se vê, a polícia tem trabalhado e muito. Mas, então, por qual motivo o crime não cessa? São diversos os fatores sociais envolvidos, que merecem um estudo bem mais aprofundado.
Novamente falando em números, relativamente às estatísticas de homicídio, neste ano de 2022 até a presente data, foram registrados 31 homicídios sem autoria conhecida, isto é, casos que demandam a investigação pela delegacia especializada de homicídios, que no caso de Cruzeiro é a DIG.
Destes 31 homicídios sem autoria, foram cabalmente esclarecidos 21 casos, com indiciamento e representação por prisão dos envolvidos. A média de esclarecimentos, portanto, é de 67,7 por cento dos casos, o que de fato comprova a eficiência do trabalho investigativo. Comparando-se com a atuação de outros órgãos, a média é altíssima. Mas mesmo assim os jovens continuam se matando.
O que foi feito nesses últimos anos para reduzir o número de vítimas de homicídio na RMVale, que ainda lidera no interior do estado?
Relativamente à estratégia da atual gestão do Departamento, a ideia foi robustecer o trabalho de inteligência, o que de fato irá acarretar em mais prisões “de qualidade”, isto é, aquela que vai realmente retirar da rua os delinquentes habituais e, principalmente, acarretar em condenações ao fim do processo.
A chegada de mais delegados possibilitou o aumento do número de operações, representações por prisões, representações por busca e apreensão, interceptações telefônicas, quebra de sigilos telemáticos, sigilo em nuvem, sigilos financeiros, bancários, isto é, robusteceu o trabalho de inteligência, que, diga-se, é a alma da polícia civil.
Obviamente a solução não virá da noite para o dia, mas a consistência do trabalho e o tempo necessário farão com que os números diminuam. Conforme quadro comparativo dos anos de 2021 e de 2022 da Seccional de Cruzeiro, já é possível notar uma sensível melhora, notadamente dos casos de homicídio.
Há perspectiva de aumento de efetivo na RMVale?
Os últimos três anos foram de muito investimento. Muitos concursos foram autorizados, investimento em tecnologia da informação, modernização de todo o armamento da policia, equipamentos etc. Para o ano de 2023, com os concursos regionalizados por áreas do estado, a perspectiva é que muitos novos policiais cheguem ao Deinter-1.