A dor de uma mãe que perdeu o filho foi traduzida em palavras e imagens nas redes sociais.
Lidiana publicou um texto de despedida e um vídeo do velório de Luan Vitor Silva Santos, de 21 anos, morto com cinco tiros durante uma intervenção policial em Caraguatatuba, no Litoral Norte.
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Nas imagens, ela aparece acariciando o rosto do jovem dentro do caixão, em uma despedida marcada pela emoção.
Na homenagem, a mãe descreveu os sonhos do filho, destacou a trajetória dele e afirmou que Luan havia encontrado motivos para se afastar do crime e construir uma vida diferente.
"Naquele caixão deitado tinha uma criança cheia de sonhos, um menino que sonhava em ter um carro, um homem que, em meio a tantas oportunidades de voltar para o crime, se manteve firme pelo pai que foi", escreveu Lidiana.
Em outro trecho, ela expressou o desejo de que o filho finalmente encontrasse tranquilidade. "O que eu mais espero é que seu coração encontre a paz em meio a tanta dor que tinha dentro dele. Todos nós temos um propósito na terra e o seu foi iluminar a nossa vida, eterno em nossos corações", publicou.
Morte é investigada
A morte de Luan ocorreu no final da tarde de segunda-feira (2), em uma residência no Jardim Olaria. O jovem foi atingido por cinco disparos durante uma intervenção da Polícia Militar.
A corporação instaurou um IPM (Inquérito Policial Militar) para apurar as circunstâncias da ocorrência. Em nota, a PM afirmou que não compactua com excessos ou desvios de conduta e que pune rigorosamente os casos identificados.
As polícias Civil e Militar investigam o episódio, que também é questionado pela família. A mãe acusa os policiais de terem executado o filho e aponta possíveis irregularidades na apreensão de drogas mencionada no boletim de ocorrência.
Segundo a SSP (Secretaria de Segurança Pública de São Paulo), as armas envolvidas na ocorrência foram apreendidas, o imóvel passou por perícia e foram solicitados exames ao IC (Instituto de Criminalística) e ao IML (Instituto Médico Legal).
Mãe contesta versão da PM
Em entrevista a OVALE, Lidiana afirmou que os policiais chegaram à residência atirando e que o filho não disparou contra a equipe. Ela também negou que os entorpecentes mencionados no registro policial estivessem no imóvel.
A família entregou à reportagem um vídeo que, segundo os parentes, mostraria policiais colocando drogas dentro de uma mochila durante a ocorrência. As imagens registram parte da movimentação dos agentes, mas não são conclusivas e, isoladamente, não permitem confirmar a acusação.
Lidiana reconheceu que o filho possuía uma arma de fabricação artesanal. Segundo ela, o jovem teria adquirido o armamento para proteger a esposa diante de ameaças feitas pelo ex-companheiro dela.
A mãe, porém, afirma que Luan não estava armado quando os policiais entraram na residência.
Ela também relatou que, aproximadamente meia hora antes da chegada da PM, o filho teria efetuado um disparo para o alto para intimidar o homem que estaria ameaçando a família. De acordo com Lidiana, o episódio não teve relação com qualquer confronto com os policiais.
"A visão que os policiais têm da rua para dentro da casa é total. Eles já chegaram atirando. Meu filho não atirou, meu filho não atirou!", declarou.
Arma artesanal
A versão registrada pela Polícia Militar apresenta outra sequência para os acontecimentos.
Conforme o boletim de ocorrência, a equipe foi acionada após uma denúncia de disparo de arma de fogo e ameaça, feita por Warllan, ex-companheiro da esposa de Luan.
Segundo o relato dos policiais, ao chegarem ao endereço, os agentes viram o jovem entrar rapidamente na residência. Em seguida, ele teria retirado uma arma de fabricação artesanal de uma mochila e desobedecido às ordens para largar o armamento.
Ainda conforme o registro, os policiais efetuaram cinco disparos contra Luan: três de fuzil e dois de pistola calibre .40. O documento também menciona a possibilidade de o jovem ter atirado contra a equipe, situação que deverá ser esclarecida pela investigação.
Uma cápsula deflagrada foi encontrada no quintal da residência. A perícia deverá analisar o material para identificar sua origem e verificar se tem relação com o disparo relatado antes da chegada da PM ou com a intervenção policial.
Mãe diz que foi algemada
Lidiana contou que estava trabalhando quando recebeu a ligação informando que o filho havia sido baleado. Ao chegar ao endereço, sabia que Luan tinha sido atingido, mas ainda não tinha conhecimento de que ele havia morrido.
Segundo a mãe, ela tentou entrar na residência para saber o que havia acontecido, mas foi impedida pelos policiais. Ao tentar ultrapassar o bloqueio, bateu na viatura e acabou algemada sob a acusação de dano ao patrimônio público.
Ela questiona por que não teve autorização para entrar no imóvel e relata que passou por momentos de humilhação enquanto tentava obter informações sobre o filho.
"Por que eles não socorreram? Por que, quando eu cheguei, eles não permitiram a minha entrada? O próprio delator (...) o ex-marido dela estava lá dentro, por isso não deixaram eu, como mãe, entrar. (...) Muito pelo contrário, o que fizeram foi me algemar, passar a maior vergonha, humilhação, eu tentando saber do meu filho", relatou.
Jovem deixa filho
Emocionada, Lidiana descreveu Luan como um jovem trabalhador e brincalhão, a quem chamou de tesouro da família. O rapaz deixa um filho de dois anos, que é criado pela avó.
A declaração de óbito aponta como causas da morte hemorragia interna aguda, trauma torácico e ferimento por arma de fogo.
A investigação deverá analisar os exames balísticos, a arma artesanal apreendida, o laudo necroscópico e eventuais gravações das câmeras corporais dos policiais, das viaturas e de imóveis próximos.
O material será confrontado com o vídeo encaminhado pela família a OVALE e com os depoimentos dos envolvidos. A análise deverá ajudar a esclarecer a sequência dos disparos, verificar se houve reação armada por parte do jovem e apurar a origem das drogas mencionadas na ocorrência.
O caso foi registrado como morte decorrente de intervenção policial. Até o momento, não há conclusão definitiva sobre a legalidade da ação.
As acusações feitas pela família, incluindo a suspeita de execução e de irregularidades na apreensão de entorpecentes, ainda dependem de apuração. A abertura do IPM representa uma das frentes de investigação sobre a atuação dos policiais.