Não sou a favor das listas de boicote. Mas precisamos conversar sobre escolhas, reputação e as consequências daquilo que comunicamos.
As listas de boicote que tomaram conta das redes sociais depois das eleições levantam uma discussão que vai muito além da política. Elas nos colocam diante de uma questão que, como consultora de imagem, considero fundamental: até que ponto entendemos que a nossa imagem é construída não apenas pelo que vestimos, mas também pelo que pensamos, falamos, defendemos e fazemos?
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Começo deixando uma coisa muito clara: não sou a favor de listas de boicote, da exposição pública como instrumento de intimidação ou da cultura de apontar dedos. Não acredito que o constrangimento coletivo seja um caminho saudável para o diálogo. Tampouco considero aceitável que divergências políticas sejam usadas como justificativa para ameaças, humilhações ou ataques pessoais. Isso pra mim acaba virando um paredão de fuzilamento.
Mas ser contra esse tipo de prática não significa ignorar uma realidade: nossas escolhas têm consequências, e a imagem que construímos participa delas.
Existe uma ideia bastante equivocada de que imagem pessoal é sinônimo de aparência. Roupa, cabelo, maquiagem e postura são apenas uma parte do processo. Nossa comunicação, nosso comportamento, nossos valores, nossas opiniões e até nossas pegadas digitais também fazem parte da percepção que os outros constroem a nosso respeito.
Imagem é mensagem e essa não depende exclusivamente da nossa intenção, mas também da maneira como é recebida e interpretada.
Somos seres sociais e julgadores, avaliamos pessoas o tempo inteiro, muitas vezes até de maneira inconsciente. Escolhemos com quem nos relacionamos, de quem compramos, em quem confiamos, quem convidamos para perto e com quem preferimos manter distância. Fazemos isso nas amizades, nos relacionamentos amorosos e claro que nas relações comerciais.
Às vezes, deixamos de consumir de determinada pessoa porque não gostamos da maneira como ela se comunica. Porque a consideramos arrogante, inconveniente ou simplesmente chata. E ninguém precisa organizar uma lista pública para exercer essa escolha.
Então, por que o espanto que as convicções políticas de alguém também influenciassem a decisão de outra pessoa sobre consumir ou não o que ela oferece?
Isso não significa que toda discordância justifique um boicote, nem que alguém deva ser reduzido a um voto. Significa reconhecer que o consumidor tem autonomia para escolher com quem se relaciona comercialmente, inclusive por razões que vão além do preço, da qualidade ou da entrega de um produto.
O mesmo debate chega ao ambiente corporativo, onde a questão exige ainda mais cuidado. Uma manifestação pessoal pode repercutir sobre a reputação de uma empresa, mas é preciso distinguir uma discordância política de uma conduta que comprometa efetivamente a imagem da empresa, viole regras ou prejudique outras pessoas. Demissões motivadas por posicionamentos políticos levantam questões sérias sobre liberdade de expressão edireitos trabalhistas - não existe uma resposta única para todos os casos – mas quando a imagem do funcionário respinga negativamente na imagem da empresa é preciso tomar medidas para que isso não prejudique o todo.
Lembro de uma situação em que uma pessoa abaixou as calças durante uma passeata e outra que foi filmada destruindo um metro e ambas viralizaram nas redes. Imagine que essa pessoa trabalhe em uma empresa, como não discutir se aquele episódio pode repercutir sobre a reputação da organização? Da mesma forma, durante os anos em que trabalhei em empresas, eu sabia que a imagem delas também se refletia sobre mim. Essa relação existe, ainda que seus limites precisem ser avaliados caso a caso.
As eleições foram acaloradas, pessoas postaram, disseram e se posicionaram como entenderam que cabia naquele momento. Isso não autoriza julgamentos precipitados, mas também não torna irrelevante o impacto do comportamento individual – não dá para deixar pra lá.
Escrevo sobre isso também a partir da minha própria experiência. Ao comentar um fato relacionado ao meu voto, fui alvo de desrespeito nas redes sociais. Meu trabalho foi colocado em xeque, minha inteligência foi questionada e cheguei a receber uma ameaças. Uma manifestação política, em vez de abrir espaço para uma conversa, tornou-se pretexto para tentativas de desqualificação pessoal e profissional, além de intimidação. E aí eu te pergunto, eu consumiria, ou estabeleceria qualquer tipo de relação com alguma dessas pessoas? Provavelmente não. Eu as contrataria? Provavelmente não também.
Mas escolher não consumir de alguém é diferente de organizar uma campanha para intimidá-lo. Assim como criticar uma ideia é diferente de atacar a inteligência, a dignidade ou a segurança de quem a expressa.
No fim, a imagem pessoal não é apenas aquilo que queremos mostrar ao mundo. É também aquele amontoado de sinais que emitimos e das relações que construímos a partir deles. Não controlamos todas as interpretações, nem precisamos agradar a todos. Mas temos responsabilidade sobre aquilo que colocamos no mundo.Ter posicionamento é um direito, fazer escolhas e arcar com as consequências também.