O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) foi intimado pela PF (Polícia Federal), nesta segunda-feira (26), a entregar seus passaportes por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal).
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O parlamentar é investigado em dois inquéritos na Corte, que apuram suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo empresas de apostas e possíveis irregularidades no financiamento do filme Dark Horse, sobre a trajetória política de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
A medida ocorre um dia após a derrota de Flávio na disputa presidencial e em meio ao avanço das investigações conduzidas pela Polícia Federal. A apreensão de passaportes é uma medida cautelar que pode ser utilizada para impedir que investigados deixem o país.
O caso ganhou repercussão após o deputado cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) defender que o irmão deixe o Brasil caso não vença a eleição. Em entrevista concedida nos Estados Unidos na sexta-feira (23), Eduardo afirmou que Flávio deveria sair do país em caso de derrota nas urnas e também defendeu que ele contestasse o resultado eleitoral.
Outro aliado da família Bolsonaro, o deputado cassado Alexandre Ramagem (PL-RJ), deixou o Brasil pela fronteira com a Guiana no ano passado, na véspera de ser condenado pelo STF por tentativa de golpe.
Suspeita de lavagem de dinheiro
Uma das investigações contra Flávio Bolsonaro está sob relatoria de Alexandre de Moraes e apura suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo o advogado Willer Tomaz, empresas de apostas e plataformas de pagamento.
O inquérito teve origem em uma apuração da Polícia Federal no Rio Grande do Sul. O caso chegou ao Supremo após os investigadores identificarem referências ao senador, que tem foro por prerrogativa de função.
Na sexta-feira (23), Moraes determinou o bloqueio de até R$ 6 bilhões em bens e valores vinculados a Willer Tomaz, além da quebra dos sigilos bancário, fiscal e cambial do advogado. O ministro também ordenou a suspensão das atividades econômicas, financeiras e empresariais de companhias ligadas a ele e adotou medidas relacionadas aos passaportes do investigado.
As decisões foram tomadas após a PF apontar indícios de movimentações financeiras suspeitas e possíveis mecanismos de ocultação de recursos por meio de empresas do setor de apostas.
Entre os elementos analisados está uma conta bancária vinculada à Alcazar Holdings, empresa ligada a Willer Tomaz, na qual Flávio aparecia com acesso privilegiado, identificado como usuário “master”. A Polícia Federal busca esclarecer a natureza desse vínculo e verificar se houve movimentações financeiras realizadas pelo senador.
Os investigadores também analisam registros de viagens, encontros e relações comerciais entre os envolvidos. Uma das linhas de apuração envolve uma conta que movimentou aproximadamente R$ 130 milhões entre março e maio de 2025.
A defesa de Willer contesta as medidas determinadas pelo Supremo. Os advogados classificam as decisões como uma devassa indiscriminada na vida pessoal e profissional do investigado e afirmam que o bloqueio de até R$ 6 bilhões é desproporcional ao patrimônio dele.
A defesa também nega que Flávio tivesse poderes para movimentar recursos na conta da Alcazar Holdings. Segundo os advogados, os dois mantêm uma relação de amizade, mas nunca movimentaram dinheiro um do outro.
Flávio Bolsonaro nega irregularidades e afirma que sua relação com Willer Tomaz é exclusivamente pessoal.
Investigação sobre o filme Dark Horse
O senador também é alvo de um segundo inquérito no STF, sob responsabilidade do ministro André Mendonça. A investigação apura suspeitas relacionadas à captação de recursos para financiar Dark Horse, produção cinematográfica sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro.
A Polícia Federal investiga a participação de Flávio nas negociações para obter recursos junto ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, para viabilizar o filme.
Mensagens e áudios analisados pelos investigadores indicam que o senador participou de tratativas com Vorcaro sobre o financiamento do projeto. A PF busca esclarecer a origem dos valores, a estrutura das operações e a eventual ocorrência de crimes, como lavagem de dinheiro.
Na semana passada, a corporação pediu a André Mendonça mais 90 dias para concluir o inquérito. O pedido considera a necessidade de aprofundar diligências, realizar análises financeiras e obter informações que dependem de cooperação internacional.
A prorrogação do prazo permitirá à Polícia Federal continuar reunindo provas antes de apresentar um relatório conclusivo.
Flávio nega irregularidades e sustenta que os recursos negociados para a produção do filme tinham natureza privada.
Investigações podem continuar no STF
Apesar da derrota na eleição presidencial, Flávio Bolsonaro continuará no Senado até fevereiro de 2027, quando termina seu mandato.
Mesmo após deixar o Congresso, ele poderá continuar sendo investigado pelo Supremo Tribunal Federal. Em março de 2025, a Corte estabeleceu um novo entendimento sobre o foro por prerrogativa de função, segundo o qual investigações e ações penais relacionadas a crimes supostamente cometidos durante o exercício do cargo e em razão das funções desempenhadas podem permanecer no tribunal após o fim do mandato.
A decisão, tomada por sete votos a quatro, modificou a jurisprudência anterior, que previa, como regra, o envio dos processos à primeira instância quando a autoridade deixava o cargo. O entendimento foi complementado pelo Supremo em maio de 2026.
No caso de Flávio Bolsonaro, a permanência dos inquéritos no STF dependerá da relação entre os fatos investigados e o exercício do mandato parlamentar, conforme os critérios definidos pela Corte.
* Com informações do jornal O Globo e do portal UOL