PATRIMÔNIO

Prédio histórico de Taubaté preserva mais de um século de memória

Por Profa. Dra. Rachel Duarte Abdala e Felipe Arneiro de Almeida Pedroso | Taubaté
| Tempo de leitura: 4 min
Rachel Duarte Abdala/Unitau
Prédio histórico de Taubaté preserva mais de um século de memória
Prédio histórico de Taubaté preserva mais de um século de memória

A história de Taubaté pode ser contada por meio de seus edifícios. Fundada em 1645 por Jacques Félix, a cidade é uma das mais antigas do Vale do Paraíba e participou de importantes transformações políticas, econômicas e sociais do Brasil. Do período colonial à industrialização republicana, suas construções guardam marcas de diferentes épocas e ajudam a compreender a formação da cidade e de sua população.

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Esse patrimônio reúne desde antigos templos religiosos, como a Igreja de São Francisco das Chagas, até exemplares da arquitetura industrial, como os complexos fabris da CTI (Companhia Taubaté Industrial), da FITEJUTA e da Corozita. Entre essas construções, destaca-se o prédio erguido no início do século 20 para abrigar a Associação Artística e Literária de Taubaté, fundada em 1895.

Inicialmente instalada no antigo Teatro São João, a associação construiu sua sede própria na Rua Visconde do Rio Branco. O edifício, registrado em fotografia de Remedica Falco, em 1906, foi construído em etapas: a primeira, em 1900; a segunda, em 1903; e o Salão Pio 10, em 1914. Na década de 1970, o imóvel passou por uma ampliação que se estendeu até a Rua Souza Alves, paralela à sua localização original.

O reconhecimento de seu valor histórico e de sua importância social está relacionado à preservação do patrimônio arquitetônico e cultural da cidade. Em 1927, quando a Associação Artística e Literária encerrou suas atividades, o prédio foi doado à Prefeitura de Taubaté, com uma condição: o espaço deveria ser destinado exclusivamente a atividades educacionais.

A partir de então, o edifício consolidou sua vocação para o ensino. Entre 1932 e 1957, abrigou o Ginásio Estadual, posteriormente denominado Colégio Estadual Monteiro Lobato, que deixou o imóvel após a construção de sua sede própria.

Em 1957, o prédio passou a receber os primeiros cursos superiores do Vale do Paraíba: História, Letras e Pedagogia. As três graduações deram origem à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras e continuam em funcionamento no mesmo edifício, hoje pertencente à Universidade de Taubaté (UNITAU). Não por acaso, muitos moradores ainda se referem ao local como Faculdade de Filosofia.

Mas a importância desse prédio ultrapassa sua trajetória educacional. Suas salas também fazem parte da história política de Taubaté, por abrigarem seções eleitorais e receberem gerações de cidadãos que ali exerceram o direito ao voto.

Para compreender essa dimensão, é preciso recordar as transformações do sistema eleitoral brasileiro. Em 1894, na primeira eleição presidencial direta da República, o direito ao voto era restrito a uma pequena parcela da população. Mulheres e analfabetos estavam excluídos, assim como outros grupos impedidos pela legislação da época. Embora não houvesse uma proibição racial expressa, as desigualdades sociais e educacionais também restringiam profundamente a participação da população negra, recém-saída do regime escravista.

Naquele período, o voto não era obrigatório e a abstenção era elevada. Mais da metade dos eleitores inscritos não compareceu às urnas em 1894. Além disso, o sistema político era fortemente controlado pelas elites, o que limitava a participação popular nas decisões sobre os rumos do país.

A criação da Justiça Eleitoral, em 1932, representou uma mudança significativa nesse cenário, ao estabelecer uma estrutura própria para a organização e a fiscalização das eleições brasileiras. Ao longo das décadas seguintes, a ampliação dos direitos políticos transformou progressivamente a relação entre a população e o processo eleitoral.

Em Taubaté, o edifício da antiga Associação Artística e Literária tornou-se uma referência dessa trajetória. Identificado como um dos primeiros espaços de votação da cidade, abriga até hoje as 13 primeiras seções eleitorais, além de outras incorporadas posteriormente, como as de números 120, 121, 122 e 264.

Mais de um século depois de sua construção, o prédio continua a reunir duas dimensões fundamentais da vida em sociedade: a educação e o exercício da cidadania. Suas salas, que já receberam associações culturais, estudantes do ensino básico e gerações de universitários, também acolhem eleitores que participam das decisões políticas do país.

Preservar sua história é, portanto, reconhecer não apenas o valor arquitetônico de um edifício centenário, mas também sua contribuição para a formação educacional e democrática de Taubaté. Entre livros, salas de aula e urnas, o prédio permanece como testemunha das transformações da cidade e da construção da cidadania brasileira.

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