FRAN GALVÃO

A política mora no seu guarda-roupa

Por Fran Galvão | Consultora de imagem e estilo
| Tempo de leitura: 4 min
Reprodução
A política mora no seu guarda-roupa
A política mora no seu guarda-roupa

Você pode nunca ter participado de uma manifestação, jamais ter estampado o nome de um candidato na camiseta e até acreditar que política e moda são assuntos que não se misturam. Mas basta escolher uma roupa para sair de casa para entrar em um universo de códigos, valores, símbolos e significados.

Clique aqui para fazer parte da comunidade de OVALE no WhatsApp e receber notícias em primeira mão. E clique aqui para participar também do canal de OVALE no WhatsApp

A roupa nunca foi apenas tecido cobrindo o corpo. Ao longo de nossa história, a roupa distinguiu classes sociais, estabeleceu hierarquias, desafiou convenções, quebrou protocolos e ajudou a construir identidades coletivas. As mulheres que conquistaram espaço usando calças, por exemplo, não estavam apenas propondo uma nova silhueta. Estavam conquistando espaço, questionando limites impostos ao seu comportamento e à sua liberdade. Quando Yves Saint Laurent levou o smoking ao guarda-roupa feminino, em 1966, a alfaiataria também se tornou símbolo de poder, gênero e autonomia. Ou Coco Chanel que libertou as mulheres dos espartilhos e das roupas que restringiam seus movimentos, mudando com isso o que se esperava de uma mulher - elas poderiam caminhar, trabalhar, viajar e viver com mais autonomia, sem precisar sacrificar o conforto em nome de um ideal de elegância.

Trazendo para os dias atuais, no Brasil, essa relação entre moda e política ganhou contornos polêmicos quando a camisa da Seleção Brasileira, símbolo de identidade nacional, passou a ser associada mais intensamente a determinados grupos políticos. Uma peça que deveria representar milhões de brasileiros começou a gerar interpretações ideológicas sobre quem a veste. O verde e o amarelo continuam o mesmo, continuam sendo cores análogas no círculo cromático, mas o contexto mudou.

E olha um outro exemplo que interessante (para não dizer preocupante), eu havia escrito uma coluna que resolvi não enviar para a redação, segura-la para após as eleições. Tratava-se do “ponto vermelho de atenção nos looks”, uma teoria que já cheguei a fazer reels nas minhas redes e pude confirmar neste último mês que passei em Nova York. Não é sobre uma invasão de looks inteiros vermelhos, nem uma vitrine toda a la Ferrari. Aliás é mais interessante do que se assim fosse. O vermelho aparece aqui e ali, em uma bolsa, um sapato, lenço, em uma blusa ou em um detalhe da estampa, em uma luva (achei chiquíssimo). Enfim, um detalhe da produção, criando um efeito visual e fashion interessante, mas neste momento criaria muito mais que isso. Pois tanto o vermelho como o verde e o amarelo atualmente são lidos de forma mais ampla e falar de uma ou de outra pode gerar interpretações equivocadas.

E aí vale pensar em uma frase que li recentemente: “quando um símbolo nacional ou uma cor passa a ser percebido como propriedade de um grupo, quem perde? Com certeza todos nós, que deixamos de reconhecer aquilo que compartilhamos porque passamos a enxergar primeiro aquilo que nos divide.” E isso só reforça o que eu sempre digo, a roupa comunica.

Um terno pode sugerir autoridade, um uniforme pode representar pertencimento, uma camiseta pode ser um manifesto.

Logico que isso não significa que toda escolha estética seja uma declaração partidária, isso seria transformar nosso ato diário de abrir o guarda-roupa em um movimento político. Mas significa compreender que nossas escolhas acontecem dentro de um contexto econômico, cultural e social. O que consumimos, quais marcas apoiamos, como nos apresentamos e como julgamos a aparência alheia diz muito sobre quem somos, nossos valores e crenças.

A ideia não é te incentivar a transformar seu vestir em militância (longe de mim), mas te fazer perceber que a moda nunca foi tão superficial quanto alguns insistem em dizer. Ela movimenta economias, reflete transformações culturais, reproduz padrões e, em determinadas circunstâncias, desafia estruturas de poder.

Aliás, talvez a pergunta nem seja se a moda é política, já sabemos que é. A pergunta é: temos consciência do que comunicamos, do que reproduzimos e do que escolhemos representar?

Política não acontece apenas diante de uma urna, a cada quatro anos. Ela está principalmente na maneira como convivemos, consumimos, respeitamos as diferenças e participamos da vida coletiva.

Porque no fim, imagem é comunicação, e comunicar exige responsabilidade. Você pode escolher a roupa, a mensagem ou até tentar o silêncio (mas já adianto que essa terceira opção não existe, mesmo não querendo comunicar, você comunica). Você só não será capaz de controlar completamente a interpretação que o outro fará de você – e tudo bem, afinal liberdade de expressão é quando respeitamos e não dependemos de concordarmos com quem fala.

Moda é expressão, e coerência continua sendo um dos acessórios mais difíceis de encontrar infelizmente em muitos “guarda-roupa”.

Comentários

Comentários