ALERTA

37% das cidades do país não têm plano contra desastres climáticos

Por Agência Fapesp | São Paulo
| Tempo de leitura: 5 min
Reprodução/Agência Fapesp/Shutterstock
Carro 'engolido' por enchente
Carro 'engolido' por enchente

Pelo menos três em cada dez municípios brasileiros não têm plano de contingência para enfrentar desastres climáticos, como enchentes, secas severas e tempestades. Além disso, 37% das cidades não contam com um sistema próprio de alerta para situações de risco.

Clique aqui para fazer parte da comunidade de OVALE no WhatsApp e receber notícias em primeira mão. E clique aqui para participar também do canal de OVALE no WhatsApp

Os dados fazem parte de um estudo publicado na revista científica Disaster Risk Science, que aponta falhas na preparação das administrações municipais para enfrentar eventos extremos.

O levantamento também revelou que menos de 8% dos municípios possuem planos de contingência específicos para ondas de calor. O cenário preocupa diante das projeções para o El Niño de 2026 e 2027, fenômeno climático que pode intensificar as chuvas no Sul do Brasil, agravar a seca no Norte e no Nordeste e elevar as temperaturas em diferentes regiões do país.

A pesquisa foi desenvolvida no âmbito do projeto Cope (Capacidades Organizacionais de Preparação para Eventos Extremos), financiado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Os pesquisadores analisaram as respostas de 2.289 municípios, o equivalente a 41% das 5.570 cidades brasileiras, em um questionário aplicado em 2025.

O trabalho foi coordenado pelo sociólogo Victor Marchezini, pesquisador do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais). Segundo ele, os municípios precisam desenvolver mecanismos próprios de comunicação com os moradores, considerando as características de cada território e as necessidades das comunidades expostas a riscos.

“Às vezes, as pessoas recebem um alerta emitido pelo estado para procurar um lugar seguro e não sabem qual é. Para ser efetivo, esse sistema tem de fazer sentido para as populações afetadas”, afirmou o pesquisador à Agência Fapesp.

Defesas Civis

Um dos principais obstáculos identificados pelo estudo é a falta de equipes suficientes para organizar ações preventivas. Entre os municípios participantes, foram contabilizados pouco mais de 13,5 mil agentes de Defesa Civil.

A estrutura dos órgãos municipais, no entanto, é bastante desigual. Em 22% das cidades analisadas, a Defesa Civil tem apenas um agente. Em outros 16%, são dois profissionais, enquanto 35% contam com equipes de três a cinco integrantes. Além disso, um quarto dos municípios informou que seus agentes tinham menos de um ano de experiência na área.

A falta de recursos financeiros também compromete a preparação. Com equipes reduzidas e múltiplas responsabilidades, os profissionais precisam dividir o tempo entre o mapeamento de áreas de risco, a elaboração de alertas e o trabalho de orientação da população.

Para Marchezini, o país ainda prioriza a resposta às emergências, em vez de investir de forma contínua na prevenção.

O estudo também identificou limitações no planejamento urbano. Embora a legislação nacional atribua aos municípios responsabilidades relacionadas à identificação de áreas de risco, 25% das cidades pesquisadas não possuem esse tipo de mapeamento. Entre as que responderam ao levantamento, 57% afirmaram utilizar mapas de risco.

Outra ferramenta preventiva, as cartas geotécnicas de aptidão à urbanização, que ajudam a identificar áreas adequadas ou inadequadas para construções, é utilizada por apenas 14% dos municípios.

Desastres

A falta de preparação ocorre em um cenário de recorrência de eventos climáticos extremos. Segundo o Atlas Digital de Desastres no Brasil, o país registrou aproximadamente 8,9 mil ocorrências de desastres em 2024 e 2025.

Entre os registros, cerca de 2,7 mil foram relacionados a estiagens e secas, enquanto outros 2,4 mil envolveram chuvas intensas. No período, pelo menos 24,7 milhões de pessoas foram afetadas, e mais de 1,5 milhão precisaram deixar suas casas, temporária ou permanentemente, na condição de desalojadas ou desabrigadas.

Outro dado preocupante é que quase um quarto dos municípios pesquisados não adota nenhuma medida de apoio às famílias que vivem em áreas de maior risco.

Mesmo nas cidades que promovem atividades com essas comunidades, as ações ainda são pouco frequentes. Apenas 11% dos municípios informaram realizar esse trabalho regularmente, enquanto 28% disseram promovê-lo raramente.

A participação dos moradores nas iniciativas de Defesa Civil também é limitada: somente 6,4% das cidades relataram envolvimento frequente da população nessas atividades.

Comunicação

A pesquisa identificou uma diferença entre a percepção dos gestores e a estrutura efetivamente disponível. Embora 69% dos municípios tenham classificado como média ou alta sua capacidade de emitir avisos à população, apenas 32% afirmaram utilizar um sistema de alerta.

Segundo os pesquisadores, parte das cidades pode recorrer a canais informais, como redes sociais, grupos de WhatsApp e emissoras de rádio, sem contar com uma estrutura oficial integrada de comunicação.

O Brasil possui a Idap (Interface de Divulgação de Alertas Públicos), ferramenta que permite às Defesas Civis estaduais e municipais enviar avisos por diferentes canais, incluindo SMS e TV por assinatura, após o cadastramento no sistema.

Para os especialistas, porém, a existência de ferramentas de comunicação não é suficiente. É necessário garantir que os avisos cheguem às pessoas em risco, sejam compreendidos e indiquem claramente quais medidas devem ser tomadas.

A comunicação também precisa considerar as necessidades de idosos, pessoas com deficiência e moradores com dificuldades de leitura, além das características de cada comunidade.

Política pública

Na avaliação de Marchezini, o fortalecimento dos sistemas municipais de alerta depende de investimentos permanentes em monitoramento, planejamento urbano, identificação de riscos e comunicação com a sociedade.

A proposta é integrar diferentes setores do poder público e ampliar a participação dos moradores nas ações de prevenção, para que a população saiba como agir antes, durante e depois de um desastre.

A equipe responsável pelo estudo pretende aprofundar os resultados por região do país e pelo porte dos municípios. A iniciativa deve permitir a troca de experiências com as administrações locais e a elaboração conjunta de propostas para melhorar a preparação diante de eventos extremos.

Os pesquisadores também planejam reaplicar a metodologia ao longo do tempo para acompanhar a evolução das estruturas municipais e verificar se as medidas adotadas estão ampliando a capacidade de prevenção e resposta a desastres climáticos.

Comentários

Comentários