EDUCAÇÃO

Professora, eu? Jamais!

Por Profa. Dra. Leticia Maria | Reitora da Unitau
| Tempo de leitura: 4 min
Leonardo Oliveira / ACOM UNITAU
Profa. Dra. Leticia Maria, reitora da Unitau
Profa. Dra. Leticia Maria, reitora da Unitau

Quando eu tinha entre 15 e 16 anos, tivemos, eu e minhas amigas, de fazer uma escolha: cursar o magistério ou o que chamavam de “Inciso III”.

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Nós apenas repetíamos a expressão, sem a mínima ideia do que significava o tal Inciso III. Achava chique até. Dei uma pesquisada nos nossos oráculos digitais — ah, meu sonho, desde aquela idade, era ter um lugar onde encontrar todas as respostas — e continuo sem saber exatamente a qual legislação ele se referia. Mas, a esta altura da vida, pouco importa conhecer o ipsis litteris.

Traduzindo em miúdos: fazíamos o primeiro ano do científico... colegial... segundo grau... ou seja, para encurtar a história, o que hoje chamamos de ensino médio. Depois, optávamos: ou seguiríamos o magistério, estudando mais três anos para nos tornarmos professoras, ou cursaríamos mais dois anos, concluindo a etapa que nos permitiria ingressar numa universidade e escolher uma profissão: dentista, jornalista, advogada, psicóloga... Professora, jamais!

Acredito que, para grande parte da minha geração, ser professora era algo a menos. Uma espécie de prêmio de consolação, especialmente para as mulheres. A explicação era simples: “Se nada der certo, você já tem uma profissão garantida”.

Que discurso derrotista! Hoje, pensando bem, era o que sempre quis evitar a qualquer custo. Imagine o quanto desse pensamento fez também estragos na formação de homens para a docência...

Bom, o fato era que, na minha visão de adolescente, jamais aceitaria que alguém decidisse meu destino, mesmo que tivesse razão. Essa prerrogativa deveria ser minha — e continuo acreditando nisso: nossos caminhos podem ser orientados, mas jamais determinados por quem acredita saber mais do que nós mesmos sobre as nossas vidas (mesmo que saiba).

E lá fui eu, como a maioria das minhas amigas, em busca de uma profissão que, aos nossos olhos, representasse uma conquista maior. Apenas duas, Paula e Cristiane, não seguiram essa máxima, que dizia muito sobre o lugar reservado às mulheres naquela época.

Seguimos caminhos diferentes: Marisa, Odontologia. Claudia e Jocimara, Direito. Marcia, Letras. Helenice, Publicidade & Propaganda. Eu, Jornalismo. Importante registrar: todas, sem exceção, são bem-sucedidas nas profissões que escolheram, mesmo que em carreiras diferentes, como o destino reservou.

O fato é que os bancos da universidade, mais precisamente da UNITAU, me fizeram tão bem, e tive mestres tão extraordinários, que, por mais que estivesse mergulhada nas oportunidades que o mercado me descortinava, não conseguia me desvencilhar da vida acadêmica.

Mantinha um pé no mundo profissional e outro na universidade. Fiz uma pós-graduação lato sensu, comecei a ministrar, logo na sequência, palestras para compartilhar minhas experiências e, um dia, fui convidada pelo professor Felicio a me atirar de vez na sala de aula, conduzindo aqueles que haviam escolhido o mesmo caminho que eu. Me sentia em casa e muito à vontade para inspirar os futuros jornalistas.

Mergulhei de cabeça. Emendei o mestrado e o doutorado. Finquei definitivamente minhas energias aqui, na minha universidade. Minha trajetória ganhou ainda outra dimensão quando passei a integrar o corpo docente do Programa de Pós-graduação em Educação.

Ali aprendi tanto! Com meus colegas professores, conheci novas metodologias, descobri as tecnologias assistivas, entendi que o modelo da sala de aula convencional estava com os dias contados e, mais, compreendi também, na teoria, o que antes sabia apenas intuitivamente: que ensinar exige disposição permanente para aprender.

Veja só! Precisei percorrer outros caminhos para compreender o que aqueles mestres extraordinários, que tanto me marcaram, já haviam me ensinado: ser professora não é uma escolha menor, independentemente do nível da docência. É participar da formação de outras pessoas, sabendo que, nesse processo, também somos transformados por elas. Sim, porque a Educação transforma o mundo, e somos nós, professores, que estamos todos os dias diante de uma sala de aula, fazendo essa transformação acontecer.

Foi nesse caminhar, transformando-me o tempo todo, que fui absorvendo e entendendo, na prática, que, no fundo, eu sempre fui professora. E que ser professora não era ter uma profissão a menos. Era ter uma responsabilidade a mais. A de compreender que o conhecimento não nos pertence e que ensinar é, antes de tudo, um exercício de humildade, de generosidade, de escuta e de compromisso com o outro.

Talvez por isso, hoje, como reitora, tenho trabalhado, juntamente com nossa equipe, para implementar um programa de valorização dos nossos docentes. Não apenas para se ter uma remuneração condizente com cada titulação — um desafio e tanto para uma instituição pública —, mas também com oportunidades permanentes de formação, porque esse mundo novo que nos bate à porta exige muito de quem tem o ofício de preparar os outros para recebê-lo.

E pensar que tudo começou com uma menina que dizia, cheia de convicção, que jamais seria professora! A vida, como se vê, tem lá suas ironias...

Neste Dia dos Professores, deixo meu abraço afetuoso a todos os que escolheram essa bela profissão e também aos que, como eu, foram escolhidos por ela.

De um lado ou de outro, tenho a convicção de que, ao sermos professores, abraçamos o nosso País. Que nunca nos falte, portanto, o orgulho pela docência e a certeza de que o futuro e a construção de um mundo melhor passam e passarão sempre pelas nossas mãos.

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