OVALE ENTREVISTA

Felicio promete cinturão de câmeras e Vale como prioridade

Por Xandu Alves | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 26 min
Antonio Basilio
Vice-governador de São Paulo, Felicio Ramuth, em entrevista a OVALE
Vice-governador de São Paulo, Felicio Ramuth, em entrevista a OVALE

O vice-governador de São Paulo, Felicio Ramuth (MDB), afirmou em entrevista a OVALE que o Vale do Paraíba será prioridade na instalação das câmeras do programa Muralha Paulista. O edital para a implantação do sistema na região foi suspenso em outubro de 2023 e ainda não foi retomado.

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Segundo ele, o edital para a compra de 20 mil equipamentos para todo o estado deve ser publicado, e as primeiras câmeras serão destinadas à região. Felicio atribuiu os atrasos a questionamentos de empresas e decisões envolvendo o TCE (Tribunal de Contas do Estado).

Reeleito ao lado do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), Felicio defendeu o endurecimento das penas para criminosos reincidentes e afirmou que o estado precisa avançar no combate à violência.

O Vale do Paraíba concentra nove das 15 cidades paulistas com as maiores taxas de homicídios. Para o vice-governador, tecnologia, integração policial e melhores ferramentas de investigação são fundamentais para reduzir os índices.

Na entrevista, Felicio também destacou investimentos em São José dos Campos e em outras cidades da região, citando obras viárias, recursos para o Hospital Municipal e projetos de infraestrutura.

Sobre o próximo mandato, disse que pretende continuar atuando em diferentes áreas do governo, sem assumir uma secretaria específica. Ele também comentou a força de candidatos da direita nas eleições, a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL) e os questionamentos sobre seu patrimônio no exterior, afirmando que os recursos são lícitos e declarados.

Confira a entrevista de Felicio Ramuth na íntegra.

Tarcísio de Freitas foi reeleito com 62,65% dos votos válidos no primeiro turno. No Vale do Paraíba, a chapa Tarcísio-Felicio venceu nas 39 cidades e teve um índice ainda maior, de 70%. Qual foi o principal recado das urnas ao governo e quais compromissos o senhor e Tarcísio assumem com o Vale do Paraíba para os próximos quatro anos?

O nosso desafio na campanha era transformar a aprovação do governo em votos. Fomos bem-sucedidos nisso, com um número de votos mais ou menos equivalente ao índice de aprovação da gestão. A gente via nas pesquisas cerca de 65% de aprovação do nosso governo e dos serviços prestados.

Conseguimos explicar ao eleitor tudo aquilo que conquistamos e apontar para o futuro com as propostas da Trilha da Prosperidade, que é o nosso plano de governo. Ali, falamos sobre saúde, educação e segurança pública, e sobre como abordaremos esses temas nos próximos anos. Para mim, que sou do Vale, é uma grande conquista ver que a região está à frente das demais do estado. São José dos Campos também teve um resultado bastante expressivo, acima da média geral do estado.

Tudo isso nos coloca em uma posição ainda melhor de reconhecimento desse trabalho por parte da população. É claro que a eleição trouxe muitos recados. Para nós, o recado é que acertamos mais do que erramos e que a população concorda com isso.

Agora, teremos uma nova oportunidade. Mais uma vez, somos devedores, porque a população investe seu voto e espera colher os frutos ao longo dos próximos quatro anos.

Posso dizer que estamos muito motivados para fazer as mudanças onde devem ser feitas, para avançar em temas importantes nos quais, às vezes, não avançamos tanto quanto gostaríamos. Temos obras de infraestrutura importantíssimas que teremos a oportunidade de entregar no segundo mandato. São obras de médio prazo, por isso estamos bastante otimistas com essa nova etapa.

O governador Tarcísio deve fazer mudanças em parte do secretariado, inclusive após a eleição de Flávio, que esperamos que seja bem-sucedida, porque muitos secretários poderão migrar para Brasília e apoiar também o governo Flávio.

 

O senhor deve assumir alguma secretaria no novo governo?

Não. Na primeira gestão, o governador Tarcísio me pediu que não assumisse nenhuma secretaria e ficasse mais livre para ajudá-lo em vários temas que chamo de transversais.

No mundo político tradicional, isso pode sinalizar desprestígio, porque, tradicionalmente, um vice-governador ocupa uma pasta. Eu não gostaria de assumir uma secretaria, porque fiquei muito à vontade para atuar em várias áreas, graças à liberdade que o governador me deu.

Gostaria de permanecer com missões específicas e variadas, como aconteceu no primeiro mandato. Você acompanhou a votação na região central da cidade de São Paulo. Pela primeira vez, vencemos ali, na Cracolândia. Pude contribuir para esse resultado positivo no Centro, na Santa Ifigênia, onde conquistamos a maioria dos votos pela primeira vez.

Também atuei na questão da desestatização, trabalho que devo continuar, além de outras missões dentro da Trilha da Prosperidade nas quais já vejo possibilidades de ajudar.

É claro que vou conversar com o governador para saber onde ele precisa da minha ajuda nos próximos quatro anos, mas não gostaria de estar à frente de uma pasta. Isso reduziria minha visão e minha atuação. Foi comum, por exemplo, me verem ao longo do primeiro mandato inaugurando uma escola ou um conjunto habitacional como vice-governador ou até como governador em exercício.

Se eu estiver à frente de uma única pasta, não terei a mesma mobilidade para ajudar o governador e estar presente em diferentes lugares do estado de São Paulo, que tem 645 municípios. A política tradicional sempre colocou o vice-governador em uma secretaria. Tarcísio resolveu fazer diferente e, na minha opinião, estava certo. Espero cumprir o novo ciclo com essa mesma mobilidade para ajudar em várias áreas.

 

Qual vai ser a marca do próximo mandato de Tarcísio e Felicio no Palácio dos Bandeirantes?

Temos a expansão do transporte metroferroviário. Em 30 anos, o Metrô chegou a 100 quilômetros. Vamos conseguir entregar mais 50 quilômetros até o final dos próximos quatro anos, considerando o que já entregamos e o que ainda vamos entregar. É um avanço gigantesco.

Também vamos avançar na segurança pública. Esperamos que esse novo ciclo, com uma nova legislação mais rigorosa por parte do Congresso Nacional e com a perspectiva de eleição de Flávio, permita fazer reformas, inclusive em relação às penas e à redução da maioridade penal. Na minha opinião, tudo isso vai ajudar os governos que são eficientes na segurança pública.

Nós somos eficientes na segurança. Estamos tão eficientes que há criminosos que prendemos 30 vezes. É como enxugar gelo.

A população, obviamente, não gosta disso, porque quer tranquilidade para ir e vir. Em São José dos Campos, especificamente, a situação é bem diferente. Temos baixos índices de criminalidade, e a população tem uma sensação positiva de segurança. No estado de São Paulo, essa percepção não se reflete da mesma forma. Ainda temos os melhores indicadores da série histórica, mas a sensação de segurança do cidadão não acompanha esses resultados.

Precisamos avançar com tecnologia e inovação. Na saúde pública, a telemedicina vai nos ajudar a estar mais presentes nos 645 municípios. Na educação, vamos avançar com a consolidação das parcerias público-privadas (PPPs) das escolas, novas construções e o fortalecimento do nosso sistema estadual de ensino.

 

Quais são os principais projetos para a RMVale?

Primeiro, pela própria votação no Vale do Paraíba, percebemos que a população reconheceu a prioridade dada à região. Fico ainda mais feliz porque sou do Vale e também tinha essa missão. Há um olhar especial sobre a região.

Conseguimos reduzir os homicídios aqui no Vale, mas precisamos avançar com a Muralha Paulista, principalmente na instalação de câmeras. O sistema já está integrado com todos os municípios, e o aplicativo está disponível para as guardas municipais.

Avançamos em algumas frentes e agora vamos instalar câmeras da Muralha também no Vale do Paraíba. São José dos Campos teve um volume recorde de investimentos de um governo estadual. Posso citar alguns exemplos da cidade e depois ampliar para o Vale.

 

Em São José, temos R$ 120 milhões para a Linha Verde, R$ 40 milhões para conjuntos habitacionais e R$ 35 milhões para a construção da AME, que atenderá nove cidades. Também são R$ 70 milhões por ano para o Hospital Municipal. O hospital nunca havia recebido recursos do governo do estado. Agora, recebe R$ 6 milhões por mês, o que permite realizar reformas e implementar melhorias.

Há também a nova rotatória do Cajuru. São grandes avanços e um volume recorde de investimentos do Estado de São Paulo. Entregamos ainda uma escola por meio de PPP, com investimento de cerca de R$ 15 milhões.

Ampliando o olhar para o Vale do Paraíba, entregamos os contornos da Tamoios e novas obras de contenção que estavam pendentes havia cinco ou seis anos. A rodovia estava praticamente abandonada.

O Rodoanel também beneficia o Vale. Já entregamos uma parte e vamos concluir o restante. Neste momento, está em projeto a extensão da Carvalho Pinto até Aparecida. Já contratamos o projeto com a própria concessionária.

O governador deve anunciar, nos próximos dias ou meses, quem sabe depois da eleição, a extensão e a duplicação da Caraguatatuba-Ubatuba. O dinheiro já está garantido, e a Tamoios vai assumir a obra por meio de um aditamento contratual.

A concessionária da Tamoios assumirá a obrigação de operar e construir esse trecho, o que dará mais agilidade ao processo. O investimento deve ficar em torno de R$ 4 bilhões, um valor expressivo.

Também temos o trem de Campos do Jordão, que será concedido. A rodovia Floriano Rodrigues Pinheiro está em obras e deverá se tornar a estrada mais moderna do estado de São Paulo e do Brasil, com pontos de carregamento, sistema de Wi-Fi e uma série de inovações.

Caçapava, principalmente, está recebendo um investimento de R$ 60 milhões na estrada de Caçapava a Vargem Grande. O trecho de Caçapava não era asfaltado e agora está em obras.

O Hospital de Cruzeiro também está ampliando os atendimentos por etapas. São muitas realizações, e pretendemos continuar com esse olhar especial para a região. A Muralha Paulista é outra iniciativa que vamos trazer para cá, com a instalação de câmeras.

 

O edital deve sair até o final do ano?

Sim, com certeza. São 20 mil câmeras, e as primeiras a serem instaladas serão as da região do Vale do Paraíba.

 

O primeiro turno das eleições mostrou um “tsunami” de candidatos da direita. Qual é a sua análise sobre esse fenômeno?

Vamos falar especificamente de São Paulo. Não vi um aumento expressivo dos votos da direita de maneira geral. O que vi foi um fenômeno pontual, relacionado a um ou dois candidatos. Um deles foi [Lucas] Pavanato, que teve cerca de 3 milhões de votos e acabou levando consigo candidatos que tiveram votações menores.

A grande maioria teve até menos votos do que na eleição anterior. Não vi uma votação expressiva da chapa inteira, nem um crescimento homogêneo do PL. O que houve foram casos pontuais, como Pavanato e o próprio Renato Bolsonaro, que funcionaram como grandes puxadores de votos e ajudaram a formar uma bancada expressiva. Vejo isso como positivo, mas não considero um fenômeno que tenha atingido todos os candidatos.

O mesmo aconteceu na disputa estadual, com Eduarda Campopiano, que segue uma linha semelhante à de Pavanato e o apoiou, assim como ele a apoiou. O PL conquistou 27 cadeiras na Assembleia Legislativa e 19 na Câmara dos Deputados. De forma geral, porém, os candidatos tiveram redução no número de votos. Em alguns casos, houve manutenção ou até uma votação inferior à da eleição anterior.

Esse foi o cenário que observei na política de maneira geral. Mas também vi outros fenômenos, como a comunicação desses jovens, que precisa ser estudada. Não adianta perguntar como a população pode votar nessas pessoas. A população é soberana em uma eleição. Precisamos entender o que tocou essas pessoas e as levou a escolher esses candidatos. Isso é política: fazer uma leitura do cenário. Todos os partidos precisam fazer esse exercício, e eu também estou fazendo.

Precisamos entender qual foi a forma de comunicação e como as pessoas foram sensibilizadas pelos discursos desses candidatos, que têm uma postura diferente nas redes sociais.

Ao mesmo tempo, vimos a derrocada dos famosos. Nenhum dos nomes conhecidos que disputaram uma vaga conseguiu se eleger em São Paulo. Tivemos casos como os de Rachel Sheherazade, Richard Rasmussen, Caneta Azul e Siqueira Júnior, que tem uma posição ideológica forte. Todos tiveram votações inexpressivas diante do que se esperava.

Foi um ciclo que já vimos acontecer há algumas eleições e que, desta vez, não se repetiu. Na minha opinião, o desafio dos poucos candidatos eleitos com votações recordes é entregar resultados. Quando olho, por exemplo, para a eleição de Cleitinho, fico pensando em como será o governo de Minas Gerais nos próximos quatro anos. Esse é o grande desafio depois da eleição.

Agora vamos ver como será a rotina dos próximos anos, quando esses candidatos terão de entregar serviços à população.

Alguns desses candidatos da direita seguem uma escola que remete a Arthur do Val. Muitos começaram naquele grupo e desenvolveram estratégias de comunicação na internet que, em certos aspectos, são parecidas. Vimos o que aconteceu com Arthur do Val.

Espero que isso não aconteça com eles e que saibam distinguir a conquista do eleitor do dia a dia da gestão pública. Se conseguirem fazer isso, poderão ser bem-sucedidos.

Aqui na região, temos [a deputada estadual] Leticia Aguiar, que foi reconduzida e tem uma postura diferente. [O vereador de São José] Thomaz Henrique faz parte desse grupo e veio do MBL, que chegou a criticar Bolsonaro, mas depois seguiu outros caminhos políticos.

Tenho certeza de que ele pode contribuir muito na Assembleia Legislativa. Eduardo Cury também foi eleito e é um grande quadro para o Congresso Nacional.

Poderíamos ter elegido mais deputados estaduais e federais da região. Muitos votos foram para candidatos de fora. Como político, acho que não fui bem-sucedido em convencer os eleitores da importância de votar preferencialmente em candidatos da própria região.

A imprensa também não foi bem-sucedida. Vi que vocês, por exemplo, fizeram campanhas pela regionalização do voto. Não conseguimos sensibilizar o eleitor como gostaríamos. Sou favorável ao voto distrital e tentamos, na prática, convencer as pessoas a votar regionalmente.

Com o voto distrital, para quem não conhece o sistema, teríamos a oportunidade de eleger aproximadamente quatro ou cinco deputados estaduais e três federais. Saímos desta eleição com apenas um deputado federal e dois estaduais. No voto distrital, o eleitor vota nos candidatos que se apresentam para representar aquela região.

Por isso, na minha opinião, o fenômeno não é propriamente o crescimento da direita, mas o surgimento de candidatos que concentram votações muito altas. Esse fenômeno precisa ser estudado com atenção, porque não aconteceu apenas nas grandes cidades.

Se você for a Mira Estrela, no extremo do estado, na divisa com Mato Grosso, verá que alguns dos mesmos candidatos mais votados aqui também tiveram votação expressiva lá, como Pavanato e Eduarda Campopiano. Precisamos estudar o que eles fizeram e como conseguiram sensibilizar os eleitores, em vez de criticar a população por suas escolhas.

 

O senhor citou Lucas Pavanato e Eduarda Campopiano. Esse jeito deles de fazer campanha e política, mais agressivo e de confronto, veio para ficar? Isso é positivo para a política?

Esse não é o meu estilo de fazer política. Às vezes, considero esse tipo de confronto desrespeitoso.

É importante dizer que existem diferenças entre esses candidatos. Eu citei Arthur do Val, mas hoje a referência é Nikolas Ferreira, que é muito mais respeitoso, inclusive na forma de abordar os assuntos. Ele apresenta pontos de vista, ao contrário do que vimos em situações nas quais candidatos partiram para ofensas pessoais.

Acho que, se esses candidatos migrarem para um estilo mais próximo ao de Nikolas e menos ao de Arthur do Val, será mais adequado, pelo menos na minha opinião. Isso não significa que o eleitor ou o cidadão pense da mesma maneira.

Sou contra esse tipo de comportamento desrespeitoso em alguns casos, especialmente quando se misturam questões pessoais com a atuação pública. Uma coisa é criticar um governo; outra é atacar atributos pessoais. Também considero isso errado.

Espero que eles entreguem gestão e ações para o cidadão. Naturalmente, acredito que isso poderá levá-los a mudar um pouco essa postura, que em alguns casos chega a ser desrespeitosa.

Se você observar alguns vídeos desses candidatos, verá conteúdos muito parecidos, como se tivessem usado o mesmo roteiro para produzir as gravações. Ainda assim, considero que Nikolas tem uma postura diferente.

Nesse aspecto, estou mais próximo do estilo de Nikolas no dia a dia, nas mobilizações e nos conteúdos publicados do que dessa outra linha. Mas eles são muito jovens e ainda podem amadurecer.

 

Flávio Bolsonaro enfrentará Lula no segundo turno presidencial. Quais méritos o senhor destaca em Flávio para vencer Lula? Como será sua participação efetiva na campanha de Flávio em São Paulo e no Vale do Paraíba?

A participação do governador Tarcísio em Minas Gerais já ocorre desde o primeiro turno, quando pediu votos para Flávio Bolsonaro.

Quero destacar um movimento que Flávio está fazendo neste momento. Quando pensamos em um futuro governo, também observamos a campanha. Flávio poderia não ter feito esse movimento, mas fez questão de se aproximar dos candidatos derrotados no primeiro turno e pedir apoio.

É natural que grande parte dos votos desses candidatos migrasse para Flávio. Podemos considerar os eleitores de Augusto Cury, Zema e Ronaldo Caiado. Ao se aproximar deles, Flávio dá um exemplo de que pretende governar para todos, sem uma disputa acirrada e, às vezes, insana, de polarização extrema.

Na prática, está mostrando que pretende fazer um governo para todos. Acho que esse é um bom caminho.

Tenho ouvido muito o governador Tarcísio e acompanhado declarações de pessoas próximas a Flávio. [O senador] Rogério Marinho, por exemplo, disse que o governo não terá ministros radicais. Considero esse um excelente caminho.

Recentemente, em tom de brincadeira, Flávio chegou a corrigir Tarcísio quando o governador falou sobre não desmobilizar os acampamentos. Flávio ponderou que a expressão poderia ser mal interpretada.

Rogério Marinho tem influência nesse processo. Ele participou da elaboração do plano de governo, com contribuição de Eduardo Cury na coordenação.

Flávio está mostrando na campanha que pretende fazer um governo equilibrado e focado na gestão. Ele falou sobre reformas na Constituição, mas se referia a mudanças pontuais, como a redução da maioridade penal e o aumento de penas. Tudo isso precisa passar por uma proposta de emenda à Constituição ou por outras reformas legislativas.

 

Flávio Bolsonaro enfrenta questionamentos sobre valores negociados com Daniel Vorcaro para financiar o filme sobre Jair Bolsonaro. Diante das notícias sobre o caso, o senhor considera que Flávio deu explicações suficientes sobre a relação financeira com o ex-banqueiro? O senhor cobrará esclarecimentos públicos do candidato que apoia?

Explicações nunca são demais. Ao mesmo tempo, em um período eleitoral, toda explicação acaba sendo retomada dentro do processo político.

Entendo esse posicionamento, mas vale lembrar que, enquanto estamos conversando, também surgiram notícias sobre dinheiro para o filme de Lula por meio de ligações com Vorcaro. Isso não significa que as situações sejam equivalentes. Acho que Flávio terá a oportunidade de dar ainda mais explicações no futuro.

Durante o período eleitoral, essa cobrança por explicações tem outro objetivo por parte da oposição. No fim, a oposição nunca ficará satisfeita com qualquer explicação que seja apresentada.

Flávio avançou nos esclarecimentos sobre essa relação privada e tenho certeza de que poderá avançar ainda mais no futuro, inclusive explicando novas dúvidas que possam surgir sobre o tema, sem a contaminação do período eleitoral.

 

O Vale do Paraíba é a região mais violenta de São Paulo e tem a maior taxa de homicídios por 100 mil habitantes. A região tem nove das 15 cidades com as maiores taxas. O que fazer, neste novo governo, para que o Vale deixe o topo do ranking de violência?

Primeiro, reduzimos o número de homicídios em todo o estado de São Paulo, inclusive no Vale, onde houve uma redução expressiva. Isso ainda não tirou a região do topo do ranking, porque, quando uma região deixa a primeira posição, outra passa a ocupá-la. É assim que funciona uma classificação. Precisamos trabalhar para que haja uma redução mais homogênea e consigamos avançar em todas as regiões.

A tecnologia é fundamental. Vale lembrar que fizemos a maior convocação de policiais militares da história. Agora, trouxemos 400 novos delegados, que foram treinados e capacitados e já estão em atividade há aproximadamente um mês.

A inovação é fundamental. Hoje estarei em uma seccional de polícia que atende parte do Vale e tem uma iniciativa muito boa, a Delegacia 4.0. Vou conhecer melhor esse projeto e avaliar a possibilidade de ampliar essa abordagem dentro da Polícia Civil, aproveitando os aspectos positivos da iniciativa. A tecnologia faz parte da Trilha da Prosperidade.

Temos um bom trabalho dos nossos homens e mulheres da investigação, tanto na Polícia Militar quanto na Polícia Civil, mas eles precisam de ferramentas melhores. Em um mundo cada vez mais tecnológico, não podemos ficar para trás. Esse é um caminho importante.

Também precisamos avançar na implantação dos equipamentos da Muralha Paulista, as câmeras. Já temos a integração, mas é necessário ampliar o sistema. Os resultados virão com esse avanço.

Acredito que, com o governo Flávio, teremos a perspectiva de maior rigor nas penas para crimes cometidos por reincidentes. Isso também precisa ser feito. Prendemos um criminoso 30 vezes, e isso cansa a polícia e a população. É preciso ser mais rigoroso com a reincidência, e acho que teremos essa oportunidade.

Tudo isso pode contribuir para avançarmos na segurança como um todo. Também existe a perspectiva de reconhecimento, pelo governo Flávio, das organizações criminosas como organizações terroristas. Considero positiva a possibilidade de intercâmbio de inteligência com países desenvolvidos, que podem trazer inovação e tecnologia. Com isso, os estados que realmente querem combater o crime podem evoluir.

São Paulo já mostrou que quer combater o crime. Há dois indicadores que, na minha avaliação, apontam nessa direção.

O primeiro é que, lamentavelmente, houve ações contra cabos eleitorais que entravam em regiões com lideranças criminosas. Essas pessoas eram impedidas de fazer campanha para Flávio e Tarcísio, mas podiam fazer campanha para Lula. Não estou falando da população ou da comunidade, mas de pessoas que abordavam os cabos eleitorais e os ameaçavam.

O segundo indicador é o próprio voto nos presídios, cuja grande maioria, segundo minha avaliação, foi destinada à esquerda. Isso mostra que o nosso grupo, formado por Flávio, Tarcísio e seus aliados, tem como foco o combate ao crime e, naturalmente, o maior rigor contra o crime organizado.

 

O crime organizado e a disputa por rotas do tráfico são apontados por órgãos de segurança como a principal causa da violência no Vale do Paraíba. Qual foi a falha concreta da inteligência estadual na região até agora e o que vai mudar objetivamente no segundo mandato?

Parte dessa resposta já dei ao falar sobre a importância do combate ao crime organizado. Sobre a existência de falhas na inteligência estadual, minha resposta é não, porque avançamos nos indicadores. Queremos avançar ainda mais.

Isso indica que acertamos, e não que erramos, embora exista uma expectativa legítima de que possamos reduzir a violência ainda mais.

Há outro fator importante na segurança pública: a sensação de segurança. Precisamos ajudar a sociedade a se sentir mais segura.

São José dos Campos é um exemplo. A cidade tem indicadores baixos de criminalidade e a população se sente segura. Em São Paulo, os indicadores também caíram. A taxa de homicídios na capital é de quatro por 100 mil habitantes, mas isso não se traduz necessariamente em sensação de segurança, por causa de crimes de menor potencial ofensivo, como furtos e roubos de celulares, especialmente os crimes contra o patrimônio.

Estamos falando especificamente de celulares, e esse será um foco importante do novo ciclo de gestão. Já fizemos uma grande operação contra receptadores, e essas ações vão continuar. Você já viu algum receptador de celular preso? Se não houver receptadores, não haverá ladrões.

 

São José dos Campos vai ser um modelo para o estado em segurança?

Acho que São José dos Campos já é um modelo pela integração das forças de segurança e pelas iniciativas locais relacionadas à tecnologia.

Vimos o avanço do Smart Sampa, em São Paulo. É uma solução que já existia em São José dos Campos quando eu era prefeito, há muitos anos.

São José já serve de inspiração. O próprio [Guilherme] Derrite falou sobre isso, e recentemente vi até a Tabata Amaral gravar um vídeo na Ponte Estaiada citando a segurança pública de São Paulo e São José dos Campos como exemplo.

Acho que a cidade já é uma inspiração. O que queremos é avançar ainda mais. Cada região tem suas particularidades.

No Pontal do Paranapanema, por exemplo, havia a questão das invasões de terras, que atribuímos à atuação de grupos organizados, como o MST. Conseguimos acabar com esse cenário, e hoje não existe mais o chamado Abril Vermelho no estado de São Paulo. Fomos rigorosos e vamos agir da mesma forma em todas as áreas da segurança pública.

Precisamos atuar em todas as frentes e de legislações mais rigorosas contra criminosos, inclusive os envolvidos em crimes de menor potencial ofensivo, como a receptação.

 

A licitação para a compra de câmeras do programa Muralha Paulista destinadas ao Vale do Paraíba foi suspensa em 2023 e ainda não foi concluída. Por que o processo se arrasta há tanto tempo? Quando os equipamentos estarão efetivamente instalados e funcionando na região?

O problema está no mercado. Há muitas empresas que prestam esse tipo de serviço e questionam os editais.

O último edital, para a compra de 20 mil câmeras, foi publicado pelo governo, mas também ficou parado no Tribunal de Contas.

Fomos ao Tribunal de Contas do Estado para pedir orientações, porque queremos fazer tudo corretamente. Não queremos excluir ninguém nem temos compromisso com qualquer empresa específica.

Existem disputas, e, em uma licitação, você sabe quando o processo começa, mas não sabe quando termina por causa dos questionamentos judiciais. É legítimo que as pessoas recorram quando se sentem prejudicadas, pois isso faz parte do processo. Mas essas medidas atrasam a implementação das políticas públicas.

O Smart Sampa, em São Paulo, por exemplo, ficou um ano parado por causa de uma denúncia do PSOL contra as câmeras. Na época, havia oposição ao uso de câmeras com reconhecimento facial. Hoje, essa política pública é reconhecida como importante, mas houve resistência no início.

Em São José dos Campos, o PT também foi contra quando implementamos o sistema. O edital ficou um ano em análise no Tribunal de Contas, em 2018, antes de conseguirmos colocá-lo em prática.

Esses foram os motivos que fizeram o edital da Muralha Paulista atrasar.

 

E está resolvido agora?

Vamos publicar o edital. A questão ainda depende das etapas seguintes: depois da publicação, começam os questionamentos, e alguém pode conseguir uma liminar. Mas existe vontade política e há recursos para que possamos executar o projeto.

 

O Ministério Público arquivou a investigação sobre o senhor e sua esposa, Vanessa Ramuth, que surgiu após uma denúncia de lavagem de dinheiro em Andorra, envolvendo cerca de US$ 1,6 milhão. O senhor afirma que os recursos são lícitos, foram obtidos antes de sua entrada na vida política e declarados à Receita Federal. As notícias sobre a investigação financeira vieram a público durante o ano eleitoral. O senhor considera que prestou todos os esclarecimentos necessários à população? A quem atribui o dossiê divulgado contra o senhor? Algum desafeto político, antigo ou recente?

Vamos por etapas.

Primeiro, isso aconteceu no momento em que estava sendo definida a vaga de vice-governador. Havia, portanto, um fogo amigo ou inimigo nessa disputa.

Segundo, era algo público que já existia, mas que acabou ganhando maior visibilidade. Terceiro, se houver alguma nova explicação que eu possa dar, estou à disposição. Se houver alguma pergunta além daquelas que já respondi, posso esclarecer sem problema algum.

Não existe nada de ilícito em ter recursos no exterior, desde que sejam declarados. Esses recursos foram integralmente declarados. Quem fez a denúncia não sabia disso e acreditava que o dinheiro não havia sido declarado.

Em Andorra, também foram prestados todos os esclarecimentos. A investigação começou quando assumi o cargo de vice-governador, o que é natural, porque existe uma classificação de pessoa politicamente exposta, conhecida como PEP, no mercado financeiro.

Quando assumi como vice-governador, as instituições identificaram que eu era titular de uma conta e, por serem bastante rigorosas, quiseram descobrir a origem do dinheiro. Apresentamos as explicações, mas a análise demora mais do que eu gostaria. É preciso esperar até que concluam que está tudo correto e comprovado.

Eu e minha esposa fizemos questão de prestar pessoalmente todos os depoimentos e apresentar as declarações e a origem dos recursos.

Se alguém considerar que devo alguma explicação, estou à disposição. No período eleitoral, como acabei de dizer ao responder sobre Flávio, surgem questionamentos e cobranças por mais esclarecimentos. Se alguém precisar de informações adicionais, estou disponível, até porque o período eleitoral já acabou.

Agora fica mais tranquilo explicar cada detalhe das declarações. Durante as eleições, é comum surgirem questionamentos sobre o aumento do patrimônio dos candidatos, porque as declarações de Imposto de Renda são públicas.

Essa denúncia, para você entender, veio de hackers que invadiram o sistema do Imposto de Renda e o sistema de notas fiscais. Diante disso, o que posso fazer?

Mesmo sabendo que essas informações teriam sido obtidas por hackers, fiz questão de responder aos questionamentos relacionados ao Imposto de Renda da minha esposa.

Tenho tranquilidade em relação à minha trajetória pública, como prefeito e vice-governador, que foi marcada pela correção. Costumo dizer que não quero tirar um centavo do poder público para colocar dentro da minha casa. Mas também não posso tirar dinheiro da minha casa, da minha filha e da minha esposa para colocar na gestão pública.

É preciso agir corretamente e esclarecer qualquer dúvida que surja.

Lembro que, quando fui candidato a prefeito em 2016, também surgiu uma denúncia relacionada a Praia Grande. O caso ficou anos em análise e depois foi arquivado. Lamentavelmente, isso faz parte do jogo político.

 

Qual é a origem desse dinheiro?

É fruto da minha atividade empresarial. Tenho uma trajetória como empreendedor. Não comecei minha vida na política. Aliás, só posso exercer a atividade política hoje porque continuo tendo empresas.

Tenho uma pequena central hidrelétrica em Minas Gerais, devidamente declarada no meu Imposto de Renda. Os recursos vêm de toda a minha atividade comercial ao longo da vida como empreendedor.

Posso ser vice-governador hoje sem depender exclusivamente do salário do cargo, que é muito maior do que o que ganha a grande maioria da população de São Paulo e do Brasil, porque tenho atividades empresariais que não têm qualquer relação com o poder público.

Foi isso que me permitiu construir um patrimônio antes de entrar na política e que continuará me permitindo ampliá-lo, sem interferência da minha posição política. Ninguém aponta que eu tenha ligado para alguém para pedir dinheiro ou algum tipo de benefício. Tudo isso está baseado nas declarações de Imposto de Renda, portanto não está escondido de ninguém.

Não há dinheiro escondido em cueca ou em qualquer outro lugar. O patrimônio é fruto da minha trajetória como empreendedor, que vai continuar. Espero que, nos próximos anos, meu patrimônio e o da minha esposa continuem crescendo, porque temos atividades comerciais que não têm relação com o meu dia a dia como vice-governador.

 

O senhor citou o fogo amigo. Seria Gilberto Kassab esse fogo amigo?

Só podemos dar nomes quando temos provas.

Eu nem fui atrás de provas, porque não queria saber disso. O primeiro ponto era deixar claro e explicar à sociedade a origem dos recursos. Também precisava esclarecer a situação aos meus parceiros, entre eles o próprio governador e meus colegas secretários.

Fiz todos esses esclarecimentos, e eles entenderam que se tratava de uma estratégia política para desgastar minha imagem, sem fundamento em qualquer ilícito.

Isso me deu tranquilidade e também tranquilizou o governador, que manteve a chapa mesmo depois do episódio. Vale lembrar que tudo aconteceu antes do registro da candidatura. Havia a convicção de que estava tudo correto.

Agora, falta que a investigação em Andorra também seja arquivada, o que talvez aconteça nos próximos meses. Essa decisão cabe às autoridades de lá.

Estou muito tranquilo e feliz por ser o primeiro vice-governador reeleito depois de 28 anos.

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