CRIADAS NO VALE

Símbolo da eleição, urnas têm DNA de SJC e são alvo de fake news

Por Da redação | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 7 min
Paulo Pinto/Agência Brasil

Criadas em São José dos Campos, as urnas eletrônicas completam 30 anos e chegam, neste domingo, a mais uma eleição como símbolo do sistema eleitoral brasileiro, ainda sob ataques e fake news sem provas.

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A tecnologia que mudou a maneira de votar no país teve participação direta de pesquisadores de instituições instaladas na cidade, como o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e o então CTA (Centro Técnico Aeroespacial), atual DCTA (Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial).

O projeto começou a ganhar forma em 1995, quando o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) decidiu avançar na informatização do processo eleitoral. A primeira experiência ocorreu nas eleições municipais de 1996. Quatro anos depois, em 2000, todos os eleitores brasileiros passaram a utilizar a votação eletrônica.

Três décadas depois, a urna continua sendo atualizada. O equipamento que chega às eleições de 2026 mantém a estrutura básica criada nos anos 1990, mas reúne sucessivas gerações de hardware, software e mecanismos de segurança.

Pesquisadores de São José participaram da criação

Antes mesmo da criação da urna, o Inpe já mantinha parceria com a Justiça Eleitoral em projetos relacionados à informatização do cadastro de eleitores e à comunicação de dados.

O pesquisador Antonio Ésio Marcondes Salgado, conhecido como Toné, foi um dos profissionais envolvidos no desenvolvimento. Professor da Unitau (Universidade de Taubaté) e ligado ao Inpe, ele participou do projeto desde os primeiros anos.

Também integraram a equipe pesquisadores como Paulo Seiji Nakaya, Mauro Hissao Hashioka e Oswaldo Catsumi Imamura, entre outros especialistas.

O grupo recebeu, nos bastidores, o apelido de “os ninjas”. A equipe reunia profissionais com experiência em computação, eletrônica, comunicação de dados e segurança da informação.

A participação do Vale ocorreu em um momento em que a Justiça Eleitoral buscava uma alternativa para os problemas da votação e da apuração manual.

Segundo Toné, a informatização já estava em andamento quando Carlos Velloso assumiu a presidência do TSE. Naquele período, problemas na totalização dos votos em grandes centros urbanos ajudaram a acelerar a busca por um equipamento específico para a coleta eletrônica dos votos.

“Convocaram especialistas da Aeronáutica, Marinha, Exército e a equipe do Inpe inteira foi chamada para participar do projeto porque estavam satisfeitos com o trabalho que fazíamos na informatização da Justiça Eleitoral”, contou o pesquisador.

Da cédula de papel à urna eletrônica

A votação em papel fazia parte da rotina brasileira desde a criação da Justiça Eleitoral. A contagem era manual e podia levar dias, especialmente em eleições com milhões de votos.

O sistema também estava sujeito a problemas como rasuras, extravios de documentos e diferentes tipos de fraude eleitoral.

Um dos exemplos conhecidos era a chamada “urna grávida”, expressão utilizada para descrever a colocação de cédulas previamente preenchidas dentro da urna antes do início da votação.

A proposta de informatização pretendia reduzir a interferência humana na contagem e acelerar a divulgação dos resultados.

O primeiro equipamento foi chamado de Coletor Eletrônico de Votos (CEV). Nas eleições municipais de 1996, aproximadamente 32 milhões de eleitores votaram por meio de cerca de 70 mil equipamentos em 57 cidades.

A implantação ocorreu de forma gradual. Em 1998, a votação eletrônica alcançou cerca de 60% do eleitorado brasileiro. Nas eleições municipais de 2000, a urna eletrônica passou a ser utilizada em todo o país.

Como a urna mudou em 30 anos

A aparência externa da urna mudou pouco desde os primeiros modelos, mas o equipamento passou por diversas transformações.

Em 1998, a urna passou a exibir a fotografia dos candidatos. Nos anos seguintes, foram incorporados recursos de acessibilidade e novos mecanismos de segurança.

A biometria começou a ser utilizada de maneira experimental em 2008 e foi ampliada progressivamente nas eleições seguintes.

Em 2022, uma nova geração de urnas passou a ter capacidade de processamento 18 vezes maior que o modelo anterior e incorporou tela sensível ao toque no terminal do mesário.

Para 2026, a Justiça Eleitoral também promoveu mudanças na interface utilizada pelo eleitor.

A tela passou a contar com novos elementos de orientação, como barra de progresso, indicação da quantidade de dígitos esperada para cada cargo e recursos relacionados à acessibilidade, incluindo intérprete de Libras.

A ideia é tornar o processo mais intuitivo sem alterar a lógica fundamental da votação.

Urna é alvo de ataques

Ao longo das últimas três décadas, a urna passou por sucessivos processos de modernização. Atualmente, os sistemas eleitorais possuem cerca de 30 camadas de segurança, incluindo criptografia, assinaturas digitais, rastreabilidade de arquivos e mecanismos físicos e digitais de proteção. Apesar disso, os ataques ao sistema nunca cessaram.

Pesquisa do Projeto Confia, iniciativa do Pacto pela Democracia, revela que mais de 45% dos conteúdos falsos sobre eleições compartilhados nos últimos ciclos eleitorais tinham como alvo o funcionamento das urnas eletrônicas.

“A urna eletrônica é objeto de ataque desde sempre”, afirmou Toné. “Existem dois tipos de ataque: os de pessoas tecnicamente preparadas, e esses são importantes porque ajudam na evolução do sistema, e os ataques de pessoas que não conhecem o contexto completo do sistema eleitoral brasileiro.”

Segundo o pesquisador, a falta de informação sobre os mecanismos de auditoria e fiscalização ajuda a alimentar desconfianças infundadas.

“Seria importante as pessoas conhecerem todas as barreiras existentes para evitar qualquer tipo de fraude. Isso deixaria boa parte delas muito mais tranquila”, disse.

Entre os mecanismos de fiscalização estão o Teste Público de Segurança, realizado periodicamente pelo TSE, o Teste de Integridade das Urnas, a cerimônia de lacração dos sistemas e auditorias acompanhadas por partidos políticos, Ministério Público, Polícia Federal, OAB e universidades.

Debate sobre voto impresso

A discussão sobre a segurança da urna também alimentou propostas para modificar o sistema de votação.

Uma delas é a adoção do voto impresso, com a produção de um registro físico para conferência ou auditoria. A proposta foi objeto de debates no Congresso Nacional e ganhou força no debate político nos últimos anos.

Toné é contrário à adoção do voto impresso como mecanismo de conferência do resultado eletrônico.

Para o pesquisador, a criação de uma segunda forma de registro poderia acrescentar uma etapa de contagem ao processo e não necessariamente representaria uma evolução tecnológica.

“Não dá para contar o voto impresso e usar o voto eletrônico para conferir. Isso seria uma regressão”, afirmou.

A discussão, no entanto, permanece no campo político e legislativo, enquanto o modelo utilizado atualmente continua baseado no registro eletrônico do voto e nos mecanismos de auditoria previstos pela Justiça Eleitoral.

A maior eleição informatizada do mundo

A dimensão alcançada pelo sistema ajuda a explicar a importância da tecnologia criada há três décadas.

Nas eleições municipais de 2024, mais de 153 milhões de eleitores estavam aptos a votar em 5.569 municípios, utilizando aproximadamente 570 mil urnas eletrônicas.

Em 2026, o equipamento volta às seções eleitorais brasileiras em uma nova geração tecnológica, com atualizações de segurança, processamento e acessibilidade.

A escala é muito diferente daquela de 1996, quando pouco mais de 30 milhões de eleitores participaram da primeira experiência.

Um legado tecnológico do Vale

A história da urna eletrônica também é uma história da ciência produzida em São José dos Campos.

A participação de pesquisadores do Inpe e do então CTA levou para a Justiça Eleitoral conhecimentos desenvolvidos em uma região que, desde a segunda metade do século 20, se consolidou como um dos principais polos brasileiros de tecnologia, engenharia e pesquisa.

O projeto reuniu profissionais de diferentes instituições e áreas, mas o Vale teve papel relevante em uma transformação que alcançou todo o território nacional.

Trinta anos depois da primeira eleição com votação eletrônica, a urna continua passando por mudanças. A tecnologia que nasceu para enfrentar os problemas da apuração manual agora precisa lidar também com desafios próprios da era digital, como desinformação, ataques cibernéticos e a necessidade de ampliar a transparência sobre seus mecanismos de segurança.

Neste domingo, quando milhões de brasileiros voltarem a apertar os botões da urna, a tecnologia que ajudou a mudar as eleições brasileiras completará mais um capítulo de uma história que começou -- também -- em São José dos Campos.

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