FRAN GALVÃO

Moda não é só aquilo que você veste

Por Fran Galvão | Consultora de imagem e estilo
| Tempo de leitura: 4 min
Divulgação
Moda não é só aquilo que você veste
Moda não é só aquilo que você veste

Você já entrou em uma loja, olhou uma arara inteira e, sem saber exatamente explicar por que, sentiu que aquela coleção era interessante? Ou viu uma roupa no Instagram e pensou: “Não é para mim, mas tem alguma coisa aqui”?

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Pois essa “alguma coisa” não aparece por acaso. 

Existe uma construção por trás daquilo que prende seu olhar. A cor, a proporção, o tecido, a combinação das peças, a forma como a roupa é apresentada, a imagem que aquela produção transmite. E você não precisa ser estilista, consultora de imagem, trabalhar com moda ou entender de Fashion Week para perceber isso.

Você só precisa começar a treinar o olhar.

É justamente por isso que gosto tanto de observar um desfile de moda. Não apenas para descobrir o que estará nas vitrines na próxima temporada, mas para entender como a moda constrói uma mensagem. Aliás este foi meu principal foco neste último mês aqui em Nova York. Mais do a NYFW, as visitas, atendimentos e andanças por aqui, aproveitei para calibrar meu olhar e expandi-lo.

Porque, nessas oportunidades da indústria da moda, um desfile, por exemplo, tudo comunica antes mesmo de a primeira peça aparecer. O cenário, a música, a iluminação, a escolha do casting, a ordem dos looks, a beleza, os movimentos. Nada disso está ali por acaso - desfile não é catálogo em movimento. É uma conversa entre a marca e o seu tempo. E essa conversa pode passar pela história daquela grife, pela arte, pela arquitetura, pela música, pelo comportamento, pela política, pela tecnologia, pelo manifesto e, principalmente, pela maneira como aquela marca enxerga o corpo e a mulher que imagina vestindo suas roupas.

E sabe o que é mais interessante? Você pode fazer a mesma leitura na sua vida real e vou te dar algumas dicas:
Comece pelo caimento e pela silhueta: a roupa tem estrutura? Foi construída para criar determinada forma ou simplesmente acompanha o corpo? Ela cria volume, alonga, comprime, revela ou esconde? Essas escolhas dizem muito.

Uma alfaiataria extremamente estruturada, por exemplo, pode construir uma imagem de força e presença. Uma modelagem ampla pode propor liberdade e movimento. Uma silhueta marcada pode trazer outra ideia de feminilidade.

Não existe uma mensagem única. Existe intenção.

Depois, observe os materiais e as cores: couro, seda, linho, veludo, tricô, renda. Cada material produz uma leitura visual e tátil diferente. O couro pode trazer atitude. O linho, naturalidade e leveza. O veludo, sofisticação e sensualidade.

E a cor? Ah, essa tem até psicologia envolvida: uma coleção quase toda monocromática cria uma atmosfera completamente diferente de uma coleção construída a partir de contrastes intensos.

Então, em vez de perguntar apenas “gostei?”, experimente perguntar: “O que isso está me fazendo sentir?”

Essa pergunta muda tudo e aí chegamos à parte que mais gosto: as referências.

Porque moda não nasce do nada. Um estilista pode buscar inspiração em uma década, uma obra de arte, um movimento cultural, uma cidade, uma construção, um filme, uma mudança de comportamento, um cenário político atual. Aliás sobre referências é muito legal perceber que as vezes ela está escancarada, as vezes aparece apenas em uma proporção, uma textura, uma cor ou no jeito de combinar as peças. E é aí que entra o repertório. E este, como eu sempre digo, não é dom. É construção. Acredite, você pode construir o seu.

Quanto mais você observa, mais começa a reconhecer. Quanto mais reconhece, mais consegue fazer conexões. E quanto mais conexões você faz, menos dependente fica do famoso “está na moda”.

Mas calma que ainda não acabou...ainda existe uma pergunta fundamental: Isso tudo funciona junto?

Uma coleção pode ter peças lindas individualmente e, ainda assim, não construir uma narrativa coerente. As peças conversam entre si? Existe uma linguagem? A proposta saiu da passarela e chegou à roupa de verdade? Porque ter uma ideia boa é uma coisa, conseguir transformar essa ideia em moda é outra.

O que me faz lembrar de uma provocação eterna: gostar de consumir moda é uma coisa, saber olhar para a moda é outra.
Você pode não querer usar absolutamente nada de uma coleção e, ainda assim, entender o que ela está dizendo. Isso é olhar treinado.
E com essas dicas você pode começar agora - na próxima vez que entrar em uma loja, abrir o Instagram ou olhar uma vitrine, experimente trocar a pergunta “eu gostei?” por: O que essa peça está comunicando? / Por que essa cor? / Por que essa proporção? / Por que esse tecido? / Que referência existe aqui? /Isso conversa comigo ou simplesmente chamou minha atenção?

Parece trabalhoso, profundo? E é, mas é justamente assim que se constrói repertório e aprende a ler moda, deixando de consumi-la no piloto automático e começando a desenvolver o verdadeiro estilo.

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