OPINIÃO

Representação política precisa recuperar seus vínculos

Por José Dirceu |
| Tempo de leitura: 3 min
Candidato a deputado federal por São Paulo e foi ministro-chefe da Casa Civil da Presidência da República (2003-2005), no primeiro governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva
Divulgação

A política brasileira mudou profundamente nas últimas décadas. Mudaram o Congresso, os partidos, a sociedade e a maneira como o cidadão se informa e participa. Mas há um fundamento da democracia representativa que não pode mudar: quem recebe um mandato precisa saber quem representa, defender um projeto político e prestar contas à sociedade.

É por isso que a reforma política no Brasil não pode continuar sendo adiada. Precisamos fortalecer a representação proporcional e a fidelidade partidária e discutir o voto em lista como instrumento para valorizar os partidos, seus programas e projetos coletivos. Não existe democracia representativa forte sem partidos fortes. O eleitor precisa saber não apenas em quem votar, mas qual programa, qual projeto político e quais compromissos está ajudando a levar ao Parlamento.

O vínculo do eleitor com seus representantes foi se enfraquecendo. Pesquisa Real Time Big Data de maio de 2026 mostra que 62% dos brasileiros não confiam no Congresso Nacional. Parte dessa descrença nasce da distância entre representantes e representados. Quando o cidadão não se reconhece nas instituições, a democracia perde força.

Depois de décadas de vida política, continuo convencido de que representação exige vínculo, presença e compromisso. Não acredito em mandato exercido apenas entre o gabinete e o plenário. Um deputado deve conhecer o território, dialogar com a sociedade e transformar suas demandas em ação política.

Isso é particularmente importante em São Paulo. São 645 municípios e realidades econômicas e sociais profundamente diferentes. O estado reúne 34,1 milhões de eleitores e elege 70 dos 513 deputados federais. Suas regiões possuem vocações e desafios próprios.

São Paulo não pode ser compreendido apenas a partir da capital, muito menos pelo olhar de Brasília. Conhecer este estado exige conversar com trabalhadores, empresários, sindicatos, universidades, movimentos sociais, prefeitos, produtores rurais, pequenos empreendedores e a juventude. Exige também ouvir quem pensa diferente. A democracia existe para organizar interesses distintos e construir maiorias.

O Congresso também mudou. O Legislativo ampliou seu poder sobre o Orçamento da União. As emendas parlamentares passaram a movimentar cerca de R$ 61 bilhões no Orçamento de 2026, dos quais R$ 37,8 bilhões são impositivos.

Quanto maior o poder, maior deve ser a responsabilidade diante da sociedade. Defendo transparência, fiscalização e controle social sobre esses recursos. As emendas precisam estar articuladas ao planejamento público e às prioridades nacionais. Não podem substituir políticas estruturantes nem uma estratégia de desenvolvimento.

O parlamentar deve prestar contas de como vota, das posições que assume e também de como exerce sua influência sobre o dinheiro público.

A reforma política precisa enfrentar também as distorções do financiamento eleitoral e reconstruir a relação entre eleitores, partidos e representantes. Não se trata apenas de mudar regras eleitorais. Trata-se de fortalecer instituições capazes de representar projetos políticos e responder à sociedade pelos compromissos assumidos nas urnas.

Não se trata de enfraquecer o Congresso. O Brasil precisa de um Legislativo forte e representativo, com responsabilidade pública e compromisso democrático.

Também precisamos recuperar a participação popular como dimensão permanente da democracia. O voto é soberano, mas a democracia não pode funcionar como uma procuração entregue ao parlamentar por quatro anos. Entre uma eleição e outra, a sociedade precisa participar, discutir prioridades, acompanhar decisões e cobrar resultados.

É nos territórios que as grandes questões nacionais chegam à vida concreta. Reindustrialização significa investimento, inovação, emprego qualificado e soberania. Desenvolvimento significa oportunidades e melhores salários. Educação pública significa escola de qualidade e professores valorizados. Infraestrutura significa transporte, saneamento, energia, moradia e conectividade.

Por isso, defendo um mandato que tenha São Paulo como referência permanente e Brasília como espaço de decisão. Um mandato capaz de levar as demandas dos municípios ao Congresso, sem perder de vista um projeto de desenvolvimento para São Paulo e para o Brasil.

Representar não é apenas ouvir. É transformar demandas em força política, definir prioridades, negociar, construir maiorias e tomar decisões. É obrigação do representante explicar suas escolhas e prestar contas delas.

A resposta à crise da representação não é menos política. É mais democracia, mais participação e uma política melhor.

José Dirceu é candidato a deputado federal por São Paulo e foi ministro-chefe da Casa Civil da Presidência da República (2003–2005), no primeiro governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

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