O endividamento das famílias brasileiras atingiu 80,9% em abril, maior nível da série histórica da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), mesmo no cenário de desemprego em baixa e aumento da renda média no país.
A inadimplência também continua elevada e alcança 29,6% das famílias. O cenário persiste apesar da taxa de desemprego de 6,1% no trimestre encerrado em março, a menor para o período, e do rendimento médio mensal acima de R$ 3,7 mil, segundo o IBGE.
Especialistas apontam que o aumento do custo de vida, os juros altos e a dependência do crédito ajudam a explicar o aperto financeiro. Dados do Banco Central mostram que o comprometimento da renda das famílias com dívidas bancárias chegou a 29,3% em janeiro deste ano, maior patamar da série histórica.
Após a pandemia, a taxa Selic caiu para 2% ao ano em 2020 para estimular a economia. Nos anos seguintes, com a alta da inflação, o Banco Central elevou os juros, que atingiram 13,75% em 2022 e chegaram a 15% ao ano em junho de 2025.
Segundo o economista Flávio Ataliba, da FGV Ibre, ouvido pelo G1, a melhora do mercado de trabalho não foi suficiente para aliviar o orçamento das famílias. “É perfeitamente possível ter um mercado de trabalho aquecido e, ao mesmo tempo, famílias mais endividadas”, afirmou.
A inflação dos alimentos também pressiona o orçamento. Dados do IPCA mostram que a alta acumulada dos alimentos passou de 5,54% em maio de 2023 para 7,81% em abril de 2025. Carnes, arroz, feijão e leite registraram aumentos expressivos nos últimos anos.
Em março deste ano, os gastos com despesas essenciais consumiam 41,8% da renda das famílias, segundo levantamento da Tendências Consultoria com base em dados do IBGE.
A economista Olívia Resende explicou ao G1 que o uso frequente do crédito e a falta de educação financeira contribuem para o problema. “As pessoas não olham a taxa de juros nem o custo total da dívida, apenas se a prestação cabe no bolso naquele mês”, disse.
Segundo a CNC, o cartão de crédito segue como principal modalidade de dívida para 84,9% dos consumidores endividados.
O governo federal lançou nesta semana uma nova edição do programa Desenrola Brasil, com expectativa de renegociar até R$ 58 bilhões em dívidas e atender cerca de 20 milhões de pessoas.
Com informações do g1