10 de julho de 2026
TRANSPARÊNCIA

Igreja: Leão XIV se reúne pela 1ª vez com sobreviventes de abuso

Por | da Rede Sampi
| Tempo de leitura: 3 min
Reprodução/Vatican Media
Grupo internacional ECA Global pediu mais cooperação da Igreja Católica e políticas de “tolerância zero” contra abusos.

Pela primeira vez desde sua eleição, o papa Leão XIV se reuniu com vítimas e ativistas que lutam contra abusos sexuais dentro da Igreja. O encontro foi reealizado nesta segunda-feira (20), no Palácio Apostólico, e foi descrito pelos participantes como “um passo histórico e cheio de esperança em direção a uma cooperação maior”.

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O grupo recebido pertence à ECA Global (Ending Clergy Abuse), associação internacional de direitos humanos que atua em mais de 30 países e defende maior apoio, reparação e justiça para sobreviventes de abusos cometidos por representantes da Igreja Católica. Desde sua criação, em 2018, a entidade cobra que a instituição siga as recomendações da ONU de 2014, que pedem política efetiva de “tolerância zero”.

Participaram da audiência Gemma Hickey (Canadá), Timothy Law (EUA), Evelyn Korkmaz (Canadá, povo originário First Nation), Matthias Katsch (Alemanha), Janet Aguti (Uganda) e Sergio Salinas (Argentina). Todos apresentaram ao papa a “Zero Tolerance Initiative”, destacando a importância de políticas globais e centradas nas vítimas.

“Ele nos ouviu de verdade”

Os seis representantes da ECA relataram satisfação com a postura do pontífice. Segundo Gemma Hickey, sobrevivente de abuso cometido por um padre em Newfoundland e Labrador, no Canadá, o papa “foi muito aberto, acolhedor e até bem-humorado”.

“Cada um de nós pôde falar livremente. O papa ouviu com atenção e humildade”, contou Hickey, descrevendo o diálogo como “profundo e significativo, marcado pelo compromisso comum com justiça, cura e mudança genuína”.

O encontro também abordou o trabalho da Comissão Pontifícia para a Proteção de Menores, que divulgou recentemente seu segundo relatório anual. O papa sugeriu que seja criado um canal de diálogo entre a comissão e a ECA.

Carta virou encontro

A audiência nasceu de uma carta enviada pela ECA ao papa recém-eleito, na qual os integrantes se apresentaram como “construtores de pontes dispostos a caminhar juntos rumo à verdade, justiça e cura”. O texto afirmava que, “em tempos polarizados, o ato mais radical que podemos fazer é sentar e conversar”.

O pontífice respondeu positivamente e aceitou o convite para um diálogo direto e respeitoso. O resultado foi a reunião privada, que durou cerca de uma hora e incluiu depoimentos, propostas e reflexões.

“Viemos não só para expor preocupações, mas para buscar caminhos conjuntos que garantam a proteção de crianças e adultos vulneráveis em todo o mundo”, afirmou Janet Aguti, vice-presidente da ECA.

Esperança por mudanças

A canadense Evelyn Korkmaz, sobrevivente de abusos em escolas residenciais católicas, disse que o encontro representa “mais um passo em direção à verdade e à reconciliação”. Já o alemão Matthias Katsch destacou que o grupo pediu ao papa medidas concretas de justiça, indenização e prevenção.

“Não basta que as vítimas falem,é a sociedade inteira que precisa ouvir”, afirmou.

O advogado norte-americano Tim Law, cofundador da ECA, reforçou que o objetivo da entidade “não é confronto, mas responsabilidade, transparência e disposição para trabalhar juntos”.

Também esteve presente na coletiva de imprensa Francesco Zanardi, membro da ECA e da associação italiana Rete L’Abuso, que anunciou um novo relatório sobre casos de pedofilia clerical na Itália.

“Escuta, compaixão e colaboração”

Ao encerrar a reunião, o grupo destacou a necessidade urgente de diálogo contínuo, empatia e cooperação para construir uma Igreja em que “a segurança, a dignidade e a responsabilização sejam prioridade, e em que as vozes dos sobreviventes sirvam de exemplo para todos”.