O presidente do Paraguai, Santiago Peña, foi destituído do cargo nesta sexta-feira (6), após o Senado aprovar seu impeachment em meio a uma crise financeira envolvendo o Ueno Bank, uma das principais instituições bancárias do país. Horas depois da decisão do Congresso, o Ministério Público determinou a prisão do ex-presidente, investigado por suspeitas de irregularidades relacionadas ao banco.
Segundo informações divulgadas pela imprensa internacional, Peña foi colocado em prisão domiciliar. A investigação apura possíveis crimes de lesão de confiança e outras irregularidades financeiras. O ex-presidente nega ter cometido ilegalidades.
A destituição ocorreu após uma semana de forte instabilidade política e econômica. O escândalo começou na terça-feira (3), quando o Banco Central do Paraguai interveio no Ueno Bank e suspendeu suas operações, diante de problemas de solvência e suspeitas de irregularidades.
A medida afetou aproximadamente 2,9 milhões de clientes, em um país com cerca de 7 milhões de habitantes. Com as contas congeladas, correntistas ficaram temporariamente sem acesso às economias, enquanto cartões e operações financeiras também foram prejudicados. O episódio provocou protestos em frente às agências bancárias e aumentou a pressão sobre o governo.
Relação de Peña com o banco
A investigação atingiu diretamente o presidente porque ele teve participação societária em empresas do grupo controlador do Ueno Bank até 2025.
A oposição acusa Peña de favorecer a instituição financeira durante seu governo, inclusive por meio da concentração de recursos públicos e previdenciários no banco. O Ueno administrava mais de US$ 800 milhões em recursos públicos.
Outro ponto questionado foi a nomeação de Carlos Carvallo, ex-executivo ligado ao grupo empresarial controlador do banco, para a presidência do Banco Central paraguaio. Carvallo deixou o cargo durante a crise.
As denúncias também envolvem suspeitas de operações financeiras irregulares, concessão de empréstimos sem garantias suficientes e movimentações entre empresas relacionadas ao grupo controlador. Ao todo, 27 pessoas ligadas à instituição e ao conglomerado empresarial são investigadas.
Renúncia e impeachment
Diante do avanço das denúncias e da perda de apoio político, Peña anunciou sua renúncia na quinta-feira (5). A decisão, porém, não foi formalizada pelo Congresso, que optou por dar continuidade ao processo de impeachment.
A Câmara dos Deputados aprovou a abertura do julgamento político por 78 votos favoráveis. No Senado, o processo foi concluído nesta sexta-feira, com a aprovação da destituição por 44 votos.
A estratégia de manter o impeachment teve consequências para a situação jurídica do ex-presidente. Caso sua renúncia tivesse sido aceita, ele poderia assumir a condição de senador vitalício, prevista na Constituição paraguaia para ex-presidentes, com imunidade parlamentar. Com a destituição, perdeu essa prerrogativa e ficou sujeito à responsabilização pela Justiça comum.
Peña não compareceu pessoalmente ao julgamento no Senado e foi representado por advogados. Antes da sessão, havia solicitado mais 72 horas para preparar sua defesa, mas o pedido foi rejeitado pelos parlamentares.
Novo presidente
Com a saída de Peña, o vice-presidente Pedro Alliana assumiu a Presidência do Paraguai e deverá concluir o mandato, previsto até agosto de 2028.
A crise também provocou uma ruptura dentro do Partido Colorado, legenda que domina a política paraguaia há décadas. Parlamentares da própria base governista apoiaram o afastamento de Peña, em uma demonstração da perda de sustentação política do presidente.
O episódio representa uma das maiores crises institucionais do Paraguai desde o fim da ditadura de Alfredo Stroessner, em 1989. Peña é o terceiro presidente do país a deixar o cargo antes do término do mandato nesse período. O antecessor Fernando Lugo também foi destituído por impeachment, em 2012.