TOSSE COMPRIDA

Com aumento de casos, Jundiaí também tem registro de coqueluche

Por Nathália Sousa |
| Tempo de leitura: 5 min
CDC/Unsplash
A coqueluche é causada por uma bactéria que é transmitida pelo ar
A coqueluche é causada por uma bactéria que é transmitida pelo ar

Uma tosse seca que não passa e chega a ser incapacitante, impedindo alimentação, hidratação e sono, este é o principal sintoma da coqueluche, doença respiratória causada por bactéria e que também é conhecida como “tosse comprida”. A coqueluche tem vacina, mas a imunização, que existe há algumas décadas, não abrangeu toda a população. Por conta disso, de tempos em tempos, há aumento de casos. Isso acontece agora.

Na cidade de São Paulo, até abril, havia 17 casos de coqueluche registrados. Já nesta terça-feira (11), o número havia subido para 105. Em Jundiaí, de acordo com a Unidade de Gestão de Promoção da Saúde (UGPS), neste ano, há dois casos suspeitos de coqueluche. O município aguarda confirmação do diagnóstico. Em 2023 e em 2022, um caso foi registrado em cada ano.

NÃO PASSA

Caso confirmado de coqueluche em Jundiaí neste ano, Marina, de 15 anos, filha do professor Rafael Porcari, teve dificuldade para ser diagnosticada com a doença. “Ninguém pensa em diagnosticar como coqueluche, porque ‘não existe mais’. A doença começa como um resfriado, você vai tratando como uma gripezinha, mas é uma bactéria, que vai aumentando, e tem uma tosse que aumenta, inclusive o pessoal chama de tosse comprida. Eu até cheguei a brincar, falar que parecia coqueluche, e era isso mesmo”, conta Rafael.

Para ele, houve uma saga até que a doença fosse identificada. “Eu levei ela a dois pneumologistas. A primeira médica não considerou que fosse, porque nunca tinha tratado coqueluche, e o diagnóstico leva de 10 a 15 dias. Depois, ela foi a outro pneumologista e trocou o antibiótico, mas a bactéria já tinha certa resistência, então ela precisou ser internada. Ela já vai para 10 dias tossindo e tosse muito, chega a vomitar, porque engasga, pode perder a respiração. Ela não consegue nem beber água, é tudo pela veia agora e não tem como tirar do hospital. Ela tem 15 anos e está com a vida travada”, lamenta.

PREVENÇÃO

Porcari alerta sobre a importância da vacinação. “Nosso pneumologista disse que a eficácia da vacina da coqueluche é em torno de 85%. A pessoa é vacinada e, se está nos 85% pode  pegar a doença, mas os sintomas são minimizados. Por outro lado, se for entre os 15%, passa por isso que a minha filha está passando. Ela é vacinada, tomou a vacina quando era criança, mas com certeza pegou de alguém que não se vacinou”, diz ele, reiterando que há volta de doenças por causa da baixa cobertura vacinal.

O professor diz que o acesso ao imunizante, no entanto, também não é tão fácil para adultos e idosos. “Fui saber da vacina porque meus pais são idosos, mas o pessoal do posto de saúde está perdido ainda, não tem vacina fácil. Acho importante conscientizar as pessoas sobre a vacinação. A irmã mais nova da Marina tem sete anos, elas dividem quarto e ela não teve nada, porque a vacina dela funcionou. Também é importante, ao perceber os sintomas, já pedir o diagnóstico, porque o tratamento fica mais difícil conforme o tempo passa, a bactéria fica mais forte”, conta.

A DOENÇA

Pediatra, Saulo Duarte Passos diz que a coqueluche geralmente é transmitida por pessoas mais velhas. “É uma bactéria transmitida pelo ar, mas pode ser prevenida, com vacina. É uma doença que tem sazonalidade, a cada cinco ou dez anos, tem picos. Com a vacinação, deixaram de surgir casos diretamente pela bactéria. Só que pessoas com mais de 50 anos não foram imunizadas e, com a imunização, a bactéria deixou de circular, então quem não foi vacinado tem falta de estímulo para a imunidade. Hoje a transmissão acontece por um adulto mais velho tossidor”, comenta.

O médico explica que não há uma medicação específica. “É uma tosse prolongada crônica, sempre muito grave para bebês, porque pode faltar oxigênio e o bebê chegar a ter convulsão. Por isso, bebê com coqueluche sempre tem que ser internado, porque precisa de oxigênio. Os chineses têm até um ideograma para coqueluche que significa ‘tosse dos 100 dias’. E não tem tratamento específico, o antibiótico ajuda a diminuir a carga de bactéria no organismo, mas contribui mais para que não haja transmissão. A pessoa vai melhorando com o tempo. É desolador, mas é verdade.”

Saulo também reforça a importância da vacinação, não só para crianças. “Não é doença só de criança e não fica imune se pegar uma vez, então tem que ter vacinação sempre. A proteção é de 85% se a pessoa tiver três doses e o reforço, porque a vacina é antiga, feita com a bactéria, por isso tem que manter a vacina sempre em ordem. A cobertura vacinal está horrível no Brasil nos últimos anos, então a tendência é voltar todas as doenças. É importante que não só crianças, mas adultos e idosos também busquem a imunização”, orienta.

VACINA

A Unidade de Gestão de Saúde informa que coqueluche é uma doença de notificação compulsória. Todos os serviços de saúde públicos e privados notificam os casos suspeitos à Vigilância Epidemiológica e coletam o exame para confirmação ou descarte. Além da oferta do tratamento em tempo oportuno ao paciente, é efetuada a busca de comunicantes íntimos (moradores da mesma residência) para quimioprofilaxia e reforço vacinal (caso estejam com a vacinação atrasada).

A vacina contra coqueluche faz parte do Calendário Nacional de Imunização. Aos dois, quatro e seis meses, é aplicada a Pentavalente, que protege contra tétano, difteria, coqueluche, hemófilos e hepatite B. Ainda são aplicados dois reforços aos 15 meses e quatro anos com a vacina DTP, que protege contra tétano, difteria e coqueluche. No Município, as doses estão disponíveis em todas as unidades básicas de saúde (UBSs), novas UBSs e clínicas da família, no horário de atendimento das salas de vacinas.

Não há informação sobre a disponibilização da vacina dTpa (versão acelular da DTP) em Jundiaí. De acordo com o Instituto Butantan, a dTpa é indicada para maiores de sete anos que não tomaram a DTP, para profissionais de saúde e para grávidas até o terceiro trimestre de gestação. Levando em conta que a doença não traz imunidade a quem contraiu, ou seja, quem foi infectado pode voltar a tê-la, a recomendação é que adultos recebam doses de reforços da dTpa a cada cinco a 10 anos. Ela é disponibilizada pelo SUS para gestantes, puérperas e profissionais da área da saúde, mas também pode ser encontrada em clínicas particulares.

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