A passagem dos anos e o cálculo de que não há muito mais a permanecer nesta esfera, nos faz saudosistas. Quando leio o livro “Um homem chamado Opinião”, que é a biografia de Fernando Gasparian, recordo-me de meu início nas redações jundiaienses.
Fui levar a “O Jundiaiense” a notícia de que meu tio padre, Monsenhor Venerando Nalini, havia sido homenageado pela Santa Sé com esse título de “Camareiro Secreto do Sumo Pontífice”. Isso foi em 1961, quando ele completava Jubileu Áureo Sacerdotal e era o capelão da “Vila Dom José”, em Barueri.
O redator-chefe, Waldemar Gonçalves, me pediu que eu redigisse a notícia. Eu fora aluno da Escola Remington, de D. Amélia Lima Lopes, tia do amigo que viria a se tornar meu consogro, Antonio Latorre de Oliveira Lima. Era bom datilógrafo, portanto. Recordei as aulas na Rangel Pestana, quando li que seu filho Artur, o Dudu, havia falecido.
Redigi a notícia. Ela foi publicada. Waldemar Gonçalves me convidou a escrever semanalmente. Apaixonei-me pela redação. Fiz um pouco de tudo. Noticiário geral, policial, até assumir a crônica social.
Fiquei sabendo que “O Jundiaiense” era o Jornal dos 3 Fernandos: Fernando Pedreira, Fernando Gasparian e Fernando Henrique Cardoso, o FHC. Nunca mais deixei de escrever para jornais. Passei pela “Folha de Jundiaí”, pelo “Diário de Jundiaí”, pela “Tribuna de Jundiaí” e, finalmente, pelo nosso JJ, onde ingressei a convite do saudoso Tobias Muzaiel, cujos filhos hoje mantêm a tradição jornalística da família.
Gasparian era formado em Engenharia pelo Mackenzie, líder empresarial no setor de fiação e tecelagem. Foi para o Rio e comandou a América Fabril, empresa líder no Brasil. No período autoritário, foi hostilizado pelo sistema. Mudou-se para Londres e ali dava aulas. Só voltou ao Brasil em 1972 e fundou o “Opinião”.
Afrontou a ditadura de maneira séria e incisiva, sem fazer deboches ou ironias, escreve o autor de sua biografia, Marcio Pinheiro. Chegou ainda a publicar “Argumento”, revista de qualidade. Antonio Cândido e FHC faziam parte da equipe de redatores. Mas a censura apreendeu os exemplares e a revista só teve quatro edições.
Em seguida, sempre com intenção de fornecer bom senso aos brasileiros e incutir neles a vontade de progredir mediante estudo, crítica séria, participação efetiva na condução da coisa pública, fundou a editora “Paz e Terra”, que publicou autores como Paulo Freire e Eric Hobsbawn. O bestseller foi o livro de Eduardo Galeano, “As veias abertas da América Latina”. Depois, ainda abriu a Livraria Argumento, em São Paulo e também no Rio, onde subsiste até hoje.
Envolveu-se na campanha pelas “Diretas Já”, foi eleito deputado constituinte pelo PMDB, apoiou a candidatura do companheiro e parceiro FHC. Morreu em 2006, há vinte anos.
Vale a pena ler a biografia de um jornalista que se relacionou com a nossa Jundiaí. Muito bom texto, muita informação interessante e prefácio de Marcelo Rubens Paiva, filho do legendário Rubens Paiva. Para Marcelo, o legado de Fernando Gasparian “é imenso. Sua obra não tem preço”.
Quem se dedicar a escrever a memória da Imprensa em Jundiaí, não pode se esquecer desses nomes, os “3 Fernandos”, mais Tibúrcio Estevam Siqueira, Paulo Marques, Padre Adalberto de Paula Nunes, Waldemar Gonçalves, Tobias Muzaiel e Antonio Carlos Avallone.
*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.