OPINIÃO

História forte


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Todas as vezes que me encontro com a moça, ela me conta uma história forte. E são acontecimentos de sua vida. Penso que Deus me privilegiou em conhecê-la há algum tempo, sendo-me apresentada pelo Carmelo São José. A moça chegou lá em desespero por uma série de desencontros que, na época, a fizeram perder a vontade de viver. Ou seja, percebo, todas as vezes em que a angústia se torna maior que sua respiração, busca algum lugar ou alguma pessoa em que Deus habita, assim como habita nela, talvez encoberto por suas dificuldades.

Levada iludida para a Europa aos 18 anos, lá ficou explorada por muito tempo, com o passaporte retido.

Semana passada, leu “Os Miseráveis”, romance clássico de Victor Hugo publicado em 1862, que narra a jornada de redenção do ex-presidiário Jean Valjean na França do século XIX. Um livro que sempre me chamou a atenção, pois estava dentre os preferidos de nosso pai. Ficou impactada e quis partilhar sua impressão comigo, dizendo-me que era Cosette.

Jean Valjean, condenado a 19 anos na prisão por furtar um pedação de pão para alimentar a família da irmã. Ao sair da prisão, foi acolhido pelo bondoso Bispo Myriel, cujo perdão transformou sua vida e o inspirou a se tornar um homem honesto e benfeitor. O inspetor de polícia Javert, porém, passou a persegui-lo, pois não acreditava na regeneração de um ex-condenado.

Valjean cumpre a promessa de cuidar de Cosette, filha da operária e prostituta Fantine, criando-a como sua própria filha. Anos mais tarde, Cosette se apaixona pelo revolucionário Marius Pontmercy durante as revoltas de Paris em 1832. Valjean salva Marius nas barricadas, ganha o perdão moral de Javert (que depois se suicida). Antes de se suicidar, Javert revela ter nascido dentro de uma prisão, sendo filho de uma cartomante e de um prisioneiro que trabalhava nas galés. Esse passado é o que alimenta sua obsessão implacável pela lei e a incapacidade de aceitar que um criminoso possa se regenerar.

No livro está a certeza de que o amor e a compaixão podem transformar qualquer ser humano.

Voltando à moça. Na Europa, um freguês da boate a engravidou e a levou para casa. Após alguns meses, passou a maltratá-la. Feridas internas começaram a sangrar. Sem possuir algo de valor material, parentes ou amigos, pensou em ser pior do que ele. Mataria o filho e se suicidaria. Alimentava esse plano, quando foi chamada a participar de uma festa para idosos abandonados. Comoveu-se no contato com eles e concluiu que somente o bem salva. Na impossibilidade de criar o filho, entregou-o ao pai, passou a morar na rua e, mais tarde, conseguiu voltar ao Brasil, onde continua a insistência em equilibrar-se na no cordão umbilical bambo, que lhe foi oferecido desde a concepção.

O nosso amado Papa Leão XIV dedicou sua intenção de oração para o mês de outubro ao ministério da saúde mental, chamando a atenção para o sofrimento silencioso enfrentado por milhões de pessoas. Abordou a questão da melancolia, do caráter, dores profundas que muitas pessoas enfrentam em silêncio. Convidou-nos a rezar por aqueles que passam por esses transtornos, por seus familiares e pelos profissionais que atuam nesse setor, sendo a Igreja um lugar de acolhimento, esperança e encontro com Cristo. Desejou que a Pastoral da Saúde Mental seja integrada em toda a igreja, ajudando a superar o estigma e a discriminação contra as pessoas com doenças mentais.

Mas quem é o portador de doenças mentais? É o meu próximo. E, como diz o Padre Márcio Felipe de Souza Alves, o próximo é aquele que necessita de minha proximidade.

 

 

 

Maria Cristina Castilho de Andrade é professora e cronista

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