OPINIÃO

Progresso, essa promessa que talvez não caiba em nós


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Vivemos uma mutação: uma passagem para algo que ainda não tem nome. E, quando o mundo não nomeia, multiplicam-se as tentativas de lê-lo.

A mais óbvia é a geopolítica: um império chinês que já é presença; um império estadunidense em declínio; uma Europa envelhecida, obrigada a rever posições; uma Índia que cresce sem ainda se impor; um mundo islâmico que reacende a velha oposição entre Oriente e Ocidente.

Outra, a mais repetida, é a do eixo esquerda/direita, que me parece cada vez menos útil. Explica pouco do que as pessoas realmente pedem: participar mais, ganhar mais, desenvolver-se mais. Não é capricho, é o que lhes foi prometido. Há cerca de 250 anos a modernidade se apoia sobre uma palavra de ordem, progresso, e na promessa de que o desenvolvimento chegaria, cedo ou tarde, a todos.

Aqui vai a primeira suspeita: talvez a grande crise do nosso tempo esteja na própria promessa moderna, na ideia de que seria possível organizar o mundo para o crescimento contínuo e que isso levaria à felicidade.

Não se trata de negar avanços. Basta lembrar quantos milhões de pobres a China tirou da miséria. Mas a pergunta incomoda: o ser humano é capaz de construir uma sociedade com repartição justa de talentos, igualdade real e convivência pacífica na diversidade? Talvez esse combo seja incompatível com uma espécie tão frágil como a nossa. Somos seres que adoecem, envelhecem e morrem. Há algo de desmedido em prometer a criaturas assim um paraíso administrado.

Sei que soa negativo. Mas talvez nosso discurso sobre a sociedade não esteja à altura do humano, nem de sua grandeza, nem de seus limites. Se for assim, o conflito vai continuar, porque não há solução nos termos em que foi formulado.

A segunda suspeita é mais crua: as grandes disputas do nosso tempo não são ideológicas. Trata-se, como sempre, de riqueza: conquistar territórios, controlar recursos. Assim se ergueram as fortunas da Holanda e dos impérios britânico e francês; assim se fazem e desfazem alianças entre Rússia, Alemanha, Polônia e Estados Unidos.

A novidade é a transparência. As redes e, cada vez mais, a inteligência artificial tornam visível o que antes se escondia atrás de bandeiras. A ideologia virou verniz: encobre a disputa, mas já não a explica. Perdeu a força utópica que teve entre os anos 1960 e 1980. 

O Brasil acaba de oferecer um exemplo. No primeiro turno, Flávio Bolsonaro chegou à frente de Lula, com 47% contra 45% dos votos válidos, e a direita saiu das urnas com a maior bancada do Senado e da Câmara. 

A leitura apressada fala em guinada ideológica. Prefiro desconfiar. A maior parte do eleitorado diz com o voto o mesmo independente de quem é eleito: quer participar, ganhar, desenvolver suas ideias (boas ou muito ruins). Muda o endereço da cobrança, mas não o conteúdo. E, por baixo dos slogans, a disputa segue a de sempre: quem controla o orçamento, as indicações, o Senado. O dinheiro.

O verniz muda de cor; mas o que está em jogo é poder sobre a riqueza.

Se minhas suspeitas estiverem certas, o cenário é desconfortável: uma promessa grande demais para a medida humana e uma disputa antiga demais para ser resolvida com slogans. Mas há nisso uma oportunidade. Reconhecer os limites do humano não é desistir dele; talvez seja o primeiro passo para pensar a vida em comum com mais realismo e menos ilusão. 

E perceber que o verniz está rachando pode ser o começo de uma conversa mais honesta sobre o que, de fato, nos divide e sobre o que ainda pode nos unir.

 

Samuel Vidilli é cientista social


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