OPINIÃO

Tudo começa pela palavra


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A palavra tem poder. Ou melhor, ter o domínio sobre as palavras é ter o poder. Falar com acuidade e precisão o idioma de seu país ou aprender outro vai muito além de regras gramaticais e vocabulário. 

“Pela palavra podemos contar um acontecimento, levantar hipóteses e examiná-las, planejar um trabalho (ou a própria vida), inventar uma história, representar no teatro, criar ou resolver enigmas, traduzir, cumprimentar, orar, imaginar metáforas, poetar, comandar, implorar, comunicar-se com outros, escrever, persuadir, ensinar, prometer, orientar a ação, avaliar comportamentos e pessoas e muito mais”, diz o livro Lições de texto: leitura e redação, de Platão et Fiorin.

“A linguagem carrega a identidade, a história e os valores de um povo, funcionando como uma chave para decodificar nuances culturais, piadas, expressões idiomáticas e costumes locais que se perdem na tradução. Ao dominar a língua nativa, quebram-se as barreiras do isolamento, permitindo a construção de laços afetivos profundos com os locais, o pleno exercício da cidadania e o desenvolvimento de uma empatia intercultural que expande a própria visão de mundo”, ainda segundo o livro de Platão et Fiorin.

A apropriação da palavra pelas pessoas transcende a sua morfologia quando ganha sentido e é contextualizada. Segundo Paulo Freire “a leitura do mundo precede a leitura da palavra. Antes de aprender a decifrar palavras, o ser humano interpreta o mundo.”

Portanto, com um vocabulário pobre, as pessoas diminuem as possibilidades de compreender, organizar e expressar o mundo a partir do próprio ponto de vista. O uso e a aprendizagem de novas palavras mobilizam redes neurais relacionadas à linguagem, à memória, à atenção e à associação de conceitos, ampliando as possibilidades de estabelecer conexões entre informações e experiências. Quanto maior e mais diversificado o repertório linguístico, maiores podem ser as possibilidades de construir relações, formular ideias e atribuir significado ao que vivemos. 

Por que precisamos ler? 

Porque ler é uma das ferramentas para exercitar o cérebro. Ele precisa de estímulos e desafios para manter e desenvolver suas capacidades. Ler, conversar, escrever, questionar e aprender são formas de exercitar esse complexo sistema. Ampliar o vocabulário está além de conhecer mais palavras, é um recurso para pensar, interpretar e comunicar o mundo.

O que temos assistido é declínio cognitivo das novas gerações e a crescente “Fábrica de Cretinos Digitais”, livro do neurocientista francês Michel Desmurget, que atua como diretor de pesquisa no Instituto Nacional de Saúde da França.

O filósofo Guilherme Freire observa que se você ler dez páginas por dia, no final de uma semana você leu 70 páginas; se você ler 20 é 140 – um pequeno livro. E se você tiver a disciplina para isso, estará à frente de muitas pessoas. 

O pensamento é traduzido por palavras. Se a delegamos a terceiros, para quem estamos entregando o nosso poder?

 

 Rosângela Portela é jornalista, consultora e mentora em comunicação

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