OPINIÃO

"Isso não é problema meu"


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A distância até nem existe. Aqui vale lembrar da fábula da ratoeira na fazenda. “Um ratinho,  espiando a movimentação na casa, descobriu que os proprietários haviam comprado uma ratoeira. Desesperado, saiu correndo e, ao encontrar a galinha, expôs seu medo. A galinha respondeu: “isso não é problema meu”. Na sequência falou com o porco, ele também disse: “isso não é problema meu”; ainda com muito medo, contou para a vaca sua preocupação. A vaca respondeu “isso não é problema meu”.

Desolado voltou para a toca. Naquela noite ouviu-se um barulho na sala. Ao verificar do que se tratava, a dona da casa, por estar escuro, não percebeu que a ratoeira prendera o rabo de uma cobra venenosa que a picou.  O marido a levou ao hospital. Ao receber visitas o fazendeiro preparou uma canja, abatendo galinha; a mulher estava se recuperando o marido, preparou uma feijoada aos visitantes e escolheu o porco. Com a melhora da mulher, preparou um churrasco e abateu a vaca. 

Reparem que, até então, quem sobreviveu foi o rato!

Isso leva a refletir no sentido de que, quando alguém disser que está com problema, tentemos ocupar o lugar pois, como vimos, com a ratoeira na casa todos correm risco.

Assim o problema que pode não nos dizer respeito, noutro pode trazer consequências de vulto e nos atingir diretamente. O nome disso é “empatia”, que é a capacidade de compreender que a dor, a injustiça e a exclusão atingem o outro também dizem respeito à sociedade da qual fazemos parte.

A reflexão ganha importância em períodos eleitorais. É justamente quando aumentam as promessas, os discursos inflamados, informações desencontradas e, também, a circulação de conteúdos falsos. Nesse cenário, cada pessoa tem o dever de buscar informações, conferir fontes e avaliar as propostas e os antecedentes das pessoas candidatas.

Não se trata apenas de escolher um nome. As decisões políticas produzem consequências concretas na vida coletiva: na educação, na saúde, na segurança, no trabalho, na cultura, nos direitos e na forma como diferentes grupos são tratados pelo Estado e pela sociedade.

Por isso, também merece reflexão quando determinadas manifestações públicas envolvem racismo, homofobia, intolerância religiosa, misoginia ou desprezo por pessoas pobres e vulneráveis, infeliz e imperdoavelmente o feminicídio; os ataques a religião afro; aos católicos contra Padroeira do Brasil; maior concentração de violência contra lgbt, entre outras merecedoras de atenção e medidas inibidoras exemplares e urgentes.

Essas falas e atitudes não deveriam ser analisadas apenas pela ótica de quem é diretamente atingido. Elas revelam concepções sobre a sociedade e sobre quem merece respeito, proteção e dignidade.

Nessa linha, diante da dor, da injustiça, da exclusão ou da intolerância, talvez seja hora de substituir o conhecido “isso não é problema meu” por uma pergunta muito mais humana:

“E se amanhã for comigo?”

 

 

 

Eginaldo Honório é advogado, comendador e atual presidente da Comissão da Igualdade Racial OAB/Jundiaí

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