OPINIÃO

O país que escolhemos


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Em todo período eleitoral, o Brasil volta a falar em mudança. Queremos serviços públicos melhores, segurança, empregos, educação de qualidade, atendimento digno nos hospitais e uma política conduzida com honestidade. As reclamações se acumulam nas conversas, nas redes sociais, nas filas e nos ambientes de trabalho. 

Apesar dessa insatisfação permanente, as eleições frequentemente reconduzem ao poder personagens conhecidos por seu envolvimento em escândalos, investigações e práticas que deveriam despertar uma profunda preocupação coletiva. Algumas lideranças atravessam acusações gravíssimas, denúncias de desvios milionários e sucessivos episódios de corrupção, preservando influência, prestígio e uma impressionante capacidade de reunir votos. 

Diante dessa realidade, precisamos formular uma pergunta incômoda e necessária: o que nós, brasileiros, realmente queremos para o nosso país?

A resposta exige um exame de consciência coletivo. O voto revela valores, prioridades, interesses e tolerâncias. Quando um candidato cercado por denúncias continua recebendo apoio maciço, existe uma parcela da sociedade disposta a relativizar sua conduta em troca de alguma vantagem, identificação partidária, benefício imediato ou promessa conveniente. 

A corrupção política encontra sustentação numa cultura que admite pequenos privilégios, favores pessoais, espertezas cotidianas e justificativas moldadas conforme a conveniência. Quem condena o desvio de milhões também precisa examinar sua relação com a verdade, com as regras comuns, com o dinheiro público e com os direitos dos demais cidadãos. 

A transformação política começa no modo como cada pessoa compreende sua responsabilidade diante da comunidade. Seria injusto, porém, transformar a desonestidade em retrato definitivo do povo brasileiro. 

Milhões de pessoas trabalham honestamente, sustentam suas famílias com sacrifício, cumprem suas obrigações, respeitam o patrimônio público e desejam representantes dignos. Eu me recuso a aceitar que a corrupção expresse aquilo que somos, porque não vivo dessa maneira e conheço muitos brasileiros que também orientam suas vidas pela honestidade. 

Essa parcela da sociedade precisa abandonar o conformismo, conhecer melhor os candidatos, investigar suas trajetórias, acompanhar os mandatos e recusar a ideia de que todos merecem igual desconfiança. Existem diferenças de caráter, preparo, compromisso e responsabilidade, e reconhecê-las faz parte do dever de cada eleitor.

A democracia coloca em nossas mãos uma responsabilidade que continua depois da votação. Reclamar da política possui sentido quando a indignação se transforma em critério, participação e vigilância. Cada voto ajuda a definir o padrão moral que aceitamos na vida pública. Um país melhor nasce de escolhas mais conscientes e de uma sociedade disposta a cobrar dos governantes a mesma integridade que procura viver em sua rotina. 

Antes de perguntarmos quando o Brasil mudará, convém perguntar quais escolhas estamos fazendo para produzir essa mudança. 

O futuro político do país será construído pelos nomes que elegermos, pelas nossas  condutas e aquelas que tolerarmos e pelos princípios dos quais nos recusarmos a abrir mão.

 

Samuel Vidilli é cientista social

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