OPINIÃO

Independência: a procura da coragem


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Qual é a herança que os portugueses, em sua grandiosa aventura pelos mares desconhecidos, nos trazem hoje e está incrustada na memória do nosso DNA, imperceptível aos incautos imediatistas, protagonistas de “estórias” rasas para um grande público, com memória histórica de um grão de feijão? 

Em “Os Lusíadas”, publicado em 1572, Luís de Camões transforma a viagem de Vasco da Gama à Índia em uma epopeia nacional. Os portugueses enfrentam o desconhecido, tempestades, perigos e obstáculos para alcançar novos territórios:

“As armas e os barões assinalados

Que, da ocidental praia Lusitana,

Por mares nunca de antes navegados,

Passaram ainda além da Taprobana…”

Séculos depois, Fernando Pessoa, em “O Infante”, resgata a odisseia das navegações e transforma a história em símbolo

“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.”

...

“Deus quis que a terra fosse toda uma,

Que o mar unisse, já não separasse.”

Noutro fragmento, que se eternizou diz:

“Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Valeu a pena?

Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.”

Por que trazer poesia justamente na data da Independência do Brasil?

Para resgatar o legado ancestral português que lentamente tem sido enviado às sombras do esquecimento. Um povo é forte quando suas raízes ancestrais são valorizadas, enaltecidas e atualizadas. A história é referência para o presente. É patrimônio e identidade, muito além de um depósito de fatos antigos.

Foi às margens do Ipiranga que D. Pedro de Alcântara, rompeu com Portugal.  “Independência ou Morte” foi a corajosa decisão que mudou o destino do Brasil. 

Nossa independência começa com a quebra de um vínculo político, que deve ser renovada todos os dias na capacidade de seus cidadãos defenderem a liberdade, instituições e valores. 

Hoje, quase dois séculos depois pergunto: o que fizemos com essa coragem?

Independência é seguir princípios éticos e valores mesmo diante da conveniência. As pessoas são essenciais para fazer valer a democracia, as leis, eleições e instituições. É preciso ter hombridade para reconhecer erros, maturidade para ouvir o contraditório, firmeza para discordar sem desrespeitar e valores suficientemente fortes para não negociar seus princípios em troca de vantagens imediatas. Vivemos tempos em que opiniões se transformam rapidamente em certezas, divergências em hostilidades e benefícios pessoais em princípios.

Ser independente é enfrentar o medo, a manipulação e a conveniência.

Somos verdadeiramente independentes?

A herança que recebemos está nos livros, monumentos, discursos e na coragem de escolher. Na dignidade de sustentar essa escolha. E na responsabilidade de compreender que liberdade sem valores pode se transformar em servidão. 

Uma nação torna-se grande quando seus cidadãos têm a coragem de manter a independência conquistada e fazer jus para merecê-la todos os dias.

 

 

 

Rosângela Portela é jornalista, consultora e mentora em comunicação

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