OPINIÃO

Senhoras e Senhores... vamos ao show


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Grandioso público... o espetáculo começou. E, ao que parece, sem grandes novidades. O palco foi dominado por alarmismo, acusações de todos os lados, instigação ao medo e uma sucessão de acontecimentos capazes de manter a plateia em permanente estado de tensão.

Mas será que estamos preparados para um debate político verdadeiramente crítico quando três em cada dez brasileiros são analfabetos funcionais? 

Segundo o Inaf — Indicador de Alfabetismo Funcional —, em 2024, 29% dos brasileiros de 15 a 64 anos eram analfabetos funcionais. São pessoas que não sabem ler e escrever ou que, embora consigam ler palavras e frases simples, têm dificuldade para compreender textos mais complexos, interpretar informações e realizar operações numéricas.

Os outros 71% são considerados alfabetizados funcionalmente, mas isso não significa que todos tenham o mesmo nível de compreensão. O dado mais preocupante é que 17% das pessoas que chegaram ou concluíram o ensino médio ainda são analfabetas funcionais. Entre aquelas que chegaram ao ensino superior, o índice é de 12%. 

Números, números, números… Por que é importante olhar para eles?

Porque alfabetização funcional não é apenas saber decifrar palavras. É também compreender informações, estabelecer relações, interpretar argumentos e tomar decisões a partir daquilo que se lê e se ouve. Como construir um debate público qualificado quando uma parcela significativa da população tem dificuldade para compreender informações mais complexas?

Quando a vida cotidiana é dominada pela insegurança, pelo medo de perder o emprego, a renda, a casa ou a própria estabilidade, quanto espaço sobra para a reflexão, a análise crítica e a compreensão dos problemas que ultrapassam a urgência do dia a dia?

E o que podemos esperar da classe política diante desse cenário?

Como sair do estado permanente de medo e avançar da sobrevivência para a análise crítica, sem devaneios e sem a torcida Fla x Flu?

Em um momento de extraordinário desenvolvimento tecnológico, poderíamos imaginar que o acesso à informação favorecesse também a educação, a economia, os valores humanos e a aproximação entre os povos. Mas a tecnologia não produz, por si só, consciência.

Estamos permanentemente conectados e, paradoxalmente, cada vez mais distantes da capacidade de ouvir, ponderar e construir um pensamento próprio, um terreno fértil para a manipulação. O favoritismo, a polarização e o imediatismo vão ocupando espaços que poderiam ser destinados ao diálogo e à construção coletiva.

E o ser humano, pouco a pouco, corre o risco de transformar-se em um autômato egoico, impulsionado pela reação imediata e pela necessidade de pertencer a um lado. Então, me lembrei de um antigo ditado, que continua assustadoramente atual:

 “Para os amigos do rei, tudo. Para os inimigos, a lei.”

E nós, espectadores, seguiremos acompanhando as cenas pitorescas que nos aguardam até o dia das eleições.

 

Rosângela Portela é jornalista, consultora e mentora em comunicação

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