OPINIÃO

A natureza não trabalha em departamentos


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“O todo sem a parte não é todo,
A parte sem o todo não é parte,
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga que é parte, sendo todo.”

O poeta Gregório de Matos Guerra escreveu esses versos há mais de três séculos. Nos idos dos anos 1600, quando seria impossível imaginar inteligência artificial, crise climática, colapso da biodiversidade ou a capacidade humana de alterar o planeta em escala global. Ainda assim, seu raciocínio parece ter chegado ao século XXI antes de nós.
Justamente porque a humanidade se comporta como se fosse uma parte independente de um sistema no qual somos inseparáveis.

Exploramos a natureza como ativo inesgotável. Produzimos, acumulamos e descartamos. Consumimos como se os recursos fossem infinitos. Poluímos rios. Derrubamos florestas. A humanidade age como se o planeta fosse um cenário e não a condição da própria existência.

Criamos departamentos, fronteiras, especialidades, mercados e interesses particulares. Tornamo-nos excelentes em analisar as partes e, muitas vezes, somos incapazes de compreender o todo, sem imaginar a linha tênue que conecta tudo e todos.

A hipótese da ressonância mórfica, formulada pelo biólogo Rupert Sheldrake nos anos 80, propõe que a natureza possui uma espécie de memória coletiva baseada em hábitos. Segundo ele, sistemas semelhantes podem compartilhar padrões por meio dos chamados campos mórficos, sem depender necessariamente de contato físico direto, através do espaço e do tempo sem perder intensidade.

Bert Hellinger, ao desenvolver a abordagem sistêmica das relações humanas, chamou atenção para os vínculos, o pertencimento e as consequências que determinados acontecimentos produzem sobre o sistema. Sua abordagem dialoga com a ideia dos campos mórficos proposta por Sheldrake e foi associada ao funcionamento das Constelações Familiares.

A hipótese é controversa e não é consensual no mundo científico. Mas vale a pena ampliar a lente. O planeta Terra é um grande sistema vivo, inserido em outro sistema ainda maior, o Solar, que por sua vez integra a galáxia Via Láctea.

A Terra opera como um único sistema integrado, onde a vida e o planeta evoluem juntos. Se uma “parte” desse sistema é gravemente danificada, “todo” o equilíbrio global é afetado. A natureza não trabalha departamentalizada. A divisão é uma invenção humana.

Preservar o planeta é uma questão de inteligência, responsabilidade e sobrevivência. É simplesmente compreender que não haverá humanidade preservada em um planeta destruído. Gregório de Matos nos deixou o paradoxo. Rupert Sheldrake e Bert Hellinger trouxeram diferentes leituras sistêmicas das relações. Se observarmos a realidade contemporânea, encontramos evidências concretas da interdependência.

É preciso transcender a pequenez da parte isolada e ter a maturidade de compreender a grandeza que compõem o todo – nós! E quando uma parte adoece, cedo ou tarde, o todo sente. 

Rosângela Portela é jornalista, consultora e mentora em comunicação

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