OPINIÃO

Heranças culturais da Gripe Espanhola


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Acabamos de atravessar uma pandemia cujos efeitos ainda estão longe de ser plenamente compreendidos. A covid-19 deixou marcas profundas na vida de milhões de pessoas. Para muitos, foi a primeira experiência de uma grande crise sanitária. Mas a humanidade já passou por outras.

Há pouco mais de um século, entre 1918 e 1920, a Gripe Espanhola percorreu o mundo de forma devastadora. Infectou cerca de um terço da população mundial e causou milhões de mortes, quando o planeta tentava se recuperar da 1ª. Guerra Mundial. Seus primeiros registros ocorreram nos Estados Unidos e chegou rapidamente ao Brasil.

Sem vacinas ou antivirais, os médicos recomendavam repouso, alimentação leve, chás e caldo de galinha. Muitos atribuem a esse período o ditado: "prudência e caldo de galinha não fazem mal a ninguém".

Como em quase toda epidemia, a medicina dividiu espaço com os remédios caseiros. Um dos mais conhecidos misturava limão, alho, mel e água. Com o tempo, a água foi substituída pela cachaça, para aliviar os sintomas, o mel deu lugar ao açúcar e o alho desapareceu da receita. Restou a mistura de limão, açúcar e cachaça e, segundo a tradição, nasceu a caipirinha.

A religiosidade também ocupou lugar importante. Multiplicaram-se orações e promessas, especialmente dirigidas a São Sebastião, protetor contra as pestes. Muitos atribuíam a epidemia a um castigo divino que, em diferentes formas, também reapareceu durante a pandemia recente

Entre os medicamentos prescritos pelos médicos, destacou-se o quinino. Seu uso contribuiu para popularizar a água tônica, inicialmente consumida como veículo para tornar a substância menos amarga e que anos, mais tarde, se transformaria em uma das bebidas mais conhecidas do mundo.

Mais de cem anos separam a Gripe Espanhola da covid-19. A medicina evoluiu de forma extraordinária. Hoje desenvolvemos vacinas e contamos com recursos que eram inimagináveis em 1918.

Entretanto, talvez a maior semelhança entre as duas pandemias esteja menos nos vírus do que nas pessoas. O medo, a circulação de informações contraditórias, a busca por curas milagrosas, a resistência às medidas sanitárias e a dificuldade de conciliar liberdade individual com responsabilidade coletiva atravessaram um século praticamente inalterados.

Talvez essa seja a principal lição deixada pelas pandemias: a ciência evolui, os medicamentos mudam, as tecnologias se transformam. Mas, diante do desconhecido, continuamos reagindo com as mesmas esperanças, os mesmos receios e, muitas vezes, as mesmas ilusões. Conhecer a história talvez não impeça uma nova pandemia, mas certamente nos ajuda a enfrentá-la com um pouco mais de prudência — e, quem sabe, ainda com um caldo de galinha.

Francisco Carbonari é ex-secretário de Educação 

Comentários

1 Comentários

  • MARIA INÊS e CLÁUDIO A.TAFARELLO 21/07/2026
    Texto bem escrito por um Filósofo. Gostamos da caipirinha. Embora atrasados, desejamos feliz 75 !