Há momentos em que uma partida de futebol deixa de ser apenas um evento esportivo para se transformar em um espelho cultural. Não porque o placar explique uma sociedade, mas pequenos gestos, repetidos diante de milhões de pessoas, revelam valores sedimentados ao longo de séculos.
A recente celebração da seleção da Noruega é um desses casos.
Depois dos gols, os jogadores se alinham e simulam uma remada sincronizada. Não é uma coreografia criada por uma agência de marketing. É um símbolo. Uma homenagem aos ancestrais que cruzaram mares gelados em embarcações estreitas, enfrentando tempestades, desconhecidos e o próprio medo. A remada viking representa disciplina coletiva. Nenhum barco atravessaria o Atlântico Norte se cada homem remasse em um ritmo diferente. A sobrevivência dependia da coordenação, da confiança mútua e da consciência de que o indivíduo só prospera quando o grupo avança junto.
Há algo profundamente civilizatório nessa imagem. Ela remete aos antigos navegadores nórdicos que, entre os séculos VIII e XI, expandiram fronteiras, fundaram assentamentos, estabeleceram rotas comerciais e ajudaram a moldar parte da Europa moderna. Mais do que guerreiros, eram exploradores, construtores, comerciantes e homens acostumados a enfrentar riscos coletivamente.
Entretanto, do outro lado do campo, o contraste chamou atenção. Em diversos momentos, jogadores brasileiros protagonizaram discussões, reclamações e demonstrações de descontrole emocional incompatíveis com uma equipe que carrega cinco títulos mundiais.
Mais preocupante ainda foi parte da reação nas redes sociais. Enquanto os noruegueses homenageavam sua própria história, milhares de brasileiros reduziram o gesto à vulgaridade. A remada foi transformada em piadas associadas ao "creu", expressão popularizada pela dança de conotação sexual.
O humor é um dos patrimônios culturais do Brasil. O problema surge quando a primeira reação diante de um símbolo histórico é esvaziá-lo de significado. Toda sociedade escolhe aquilo que transforma em motivo de orgulho. Enquanto uma equipe celebra remando na mesma direção, outra frequentemente desperdiça energia discutindo entre si. Uma resgata séculos de história, já o outro lado prefere transformá-lo em meme de poucos segundos.
Os nórdicos preservam uma memória coletiva construída em torno da resistência, da navegação e da capacidade de enfrentar ambientes hostis. São símbolos que ajudam a formar identidade, que por sua vez geram pertencimento.
Não é coincidência que os países escandinavos estão, há décadas, entre os mais desenvolvidos do planeta. A prosperidade econômica não decorre diretamente de sua cultura esportiva. Mas também é ingênuo ignorar que valores como cooperação, confiança institucional, planejamento de longo prazo e respeito às tradições atravessem diferentes esferas da vida social — da escola ao trabalho, da política ao esporte. A economia não nasce no mercado financeiro. Ela nasce na cultura. Para onde caminhamos com a nossa
Rosângela Portela é jornalista, consultora e mentora em comunicação