OPINIÃO

O risco de governar sem horizonte


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Há cerca de quarenta anos, quando planejamento e gestão eram disciplinas associadas à construção de futuro, aprendia-se que o desenvolvimento exigia horizonte. Não se pensava apenas no próximo trimestre, mandato ou eleição. Falava-se em planejamento para cinquenta anos, com revisões decenais e ajustes regionais quinquenais. O futuro era tratado como um projeto coletivo.

Hoje, vivemos em uma época marcada pela velocidade, incerteza e constante necessidade de adaptação. Empresas mudam de estratégia em poucos meses. Profissões surgem e desaparecem rapidamente. Governos alteram prioridades a cada ciclo eleitoral. O planejamento de longo prazo passou a ser visto como algo rígido demais para um mundo em permanente transformação.
Relações, instituições, carreiras, valores e até identidades passaram a apresentar um caráter temporário. Na modernidade líquida, que o sociólogo Zygmunt Bauman desenvolveu, tudo é provisório. A modernidade pode ser líquida e a economia dinâmica. A tecnologia transforma mercados da noite para o dia. Porém, as necessidades humanas fundamentais permanecem sólidas.

É nesse ponto que Bauman encontra a teoria de Abraham Maslow. A base da pirâmide das necessidades humanas continua sendo formada por segurança, estabilidade e previsibilidade mínima. Antes de buscar inovação, realização pessoal ou criatividade, as pessoas precisam sentir que possuem condições básicas para viver.

Uma família precisa confiar que terá acesso à educação para seus filhos; o trabalhador, que encontrará oportunidades para sustentar sua casa. O empreendedor necessita de regras estáveis para investir. E o cidadão espera que os serviços públicos funcionem de maneira razoável.

Ninguém constrói projetos de vida duradouros sobre terreno instável. A sociedade contemporânea estimula a flexibilidade, mas o ser humano continua necessitando de referências sólidas.

No Brasil, o planejamento de longo prazo frequentemente é substituído por agendas de curto alcance. A cada mudança de governo, - seja ele municipal, estadual ou federal -, programas são interrompidos, prioridades alteradas e projetos estruturantes revistos ou abandonados. O resultado é a dificuldade de construir políticas públicas consistentes em áreas estratégicas como educação, infraestrutura, segurança hídrica, preservação ambiental, mobilidade urbana e desenvolvimento científico.

Embora as estruturas sociais tenham se tornado líquidas, os valores que sustentam a convivência humana não podem seguir o mesmo caminho. Honestidade, respeito à vida, responsabilidade, justiça, integridade, compromisso com a verdade e dignidade humana constituem pilares indispensáveis para qualquer sociedade civilizada, nos quais ela constrói seu futuro. Sem eles, a própria confiança social se dissolve.

Até porque, mesmo em tempos líquidos, as pessoas ainda precisam de algo sólido onde possam apoiar os pés.

Rosângela Portela é jornalista, consultora e mentora em comunicação

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