Nem sempre foi simples para uma mulher pedir uma taça de vinho sem receber um olhar de desconfiança ou uma sugestão “mais suave” vinda de quem presume saber o paladar alheio. Na verdade, o senso comum era de assumir que as mulheres não se interessavam pelo hábito de degustar uma boa taça, principalmente se estivessem entre amigas.
Marli do Amaral Negrão (60), professora aposentada, entende bem como é isso. Em 2018, ela se reuniu com um grupo de amigas em um restaurante, como fazem até hoje, para colocar o assunto em dia e beber algumas taças de vinho, já que é um interesse da maioria. “Quando chegamos, a mesa estava arrumada com pratos, talheres, copos e taças de vinho, mas logo um garçom se aproximou e retirou as taças. Acredito que ele tenha pensado: ‘Um grupo de mulheres não vai tomar vinho. Mulheres não saem para tomar vinho’”.

Da esquerda para a direita: Samanta Palmieri, Valéria Dias, Marcia Simone Pinto, Marli Negrão e Silvia Perez
Marli conta que, depois de se acomodarem, pediu a carta de vinho a um dos garçons e, ao notar que outro havia retirado as taças, solicitou que as recolocasse na mesa. Hoje, Marli e as amigas lembram da história com humor, mas não deixa de ser um recorte da relação turva entre mulheres e vinho. Felizmente, o cenário parece estar começando a mudar — e, junto com ele, cresce o número de mulheres que consomem, estudam, experimentam e transformam o interesse em uma busca ativa por conhecimento e experiências.
Segundo o relatório IWSR Brazil Wine Landscapes 2025, as mulheres representam 53% do mercado consumidor de vinho no Brasil. Paola Nogueira (41), arquiteta, sommelière e especialista em vinhos brasileiros, enxerga que, apesar da maioria masculina no campo profissional, as mulheres estão se fazendo presentes. “Acho que tem mais homens atuando como sommelier, porém no interesse casual e no consumo, as mulheres estão crescendo cada vez mais”, explica a profissional.
Paola é uma dessas mulheres que transformou o gosto pela bebida em especialização e, atualmente, em sua profissão. “O interesse por vinhos surgiu da necessidade de entender o que eu estava consumindo. Quando comecei a degustar, tinha dificuldade na hora de comprar novos vinhos, pois existe muita variedade”, ressalta. Depois de participar de workshops gratuitos em São Paulo, cidade onde morava, decidiu comprar livros especializados e, posteriormente, realizou o Curso Básico em Vinhos e o Curso Básico em Cerveja, ambos pelo Senac Jundiaí, além do WSET nível 2 na Enocultura, em São Paulo.
Depois de participar de um concurso da ABE (Associação Brasileira de Enologia) e ganhar um ano de vinhos brasileiros, totalizando 72 garrafas de produtores diferentes, Paola também se aprofundou no conhecimento e na degustação desses rótulos. Atualmente, é referência em vinhos brasileiros, não apenas em Jundiaí, mas em todo o país.
Além disso, Paola concilia o trabalho de arquiteta com lives, workshops e encontros voltados ao público feminino, com foco em degustação de vinhos, experiências de harmonização, oficinas e conversas. Para ela, os encontros são uma forma de cuidar do momento da mulher. “Um dos feedbacks que mais ouvi foi que eu ajudei no processo de pertencimento da pessoa com a cidade de Jundiaí. As mulheres dizem que se sentem acolhidas no grupo, é lindo demais”.

Os encontros são uma forma de conexão com si mesma e outras mulheres
Já Marli, que aperfeiçoou o paladar para sabores mais elaborados através dos amigos, realizou um curso gratuito e online sobre vinhos, no qual estudou sobre terroir e vinícolas. “Fazer um curso para ter conhecimento sobre o mundo do vinho sempre me atraiu, pois me permite associar a degustação ao conhecimento. Isso aprofunda muito a experiência e enriquece o momento”.
Para além dos cursos, o que mais atrai Marli são as experiências. “Sempre que visito um lugar com tradição na produção de vinhos, procuro conhecer e participar de eventos de degustação e harmonização. O conhecimento enobrece a degustação de um vinho, tornando a experiência ainda mais inesquecível”, destaca. Paola completa que, para ela, as atividades enoturísticas e enogastronômicas para o público feminino estão crescendo. “Percebo que é a mulher quem quer desbravar mais, conhecer coisas novas, fazer coisas diferentes. E isso ela faz com a família ou com amigas”.

Marli valoriza as experiências e o conhecimento