Desde 1933, quando ocorreu a mutação natural que deu origem à Niagara Rosada, a viticultura de Jundiaí atravessou décadas praticamente sem impactos tecnológicos relevantes. Até os anos 1980, os produtores mantinham nas videiras jundiaienses as mesmas técnicas herdadas de seus antepassados. A uva era um produto sazonal: os cachos, cultivados ao longo de todo o ano, chegavam à mesa basicamente no Natal.
Embora, ao longo do tempo, tenham sido introduzidas práticas que permitiram a oferta de uva em outros períodos, o cenário atual aponta para um novo caminho de sobrevivência da Niagara: a produção de vinhos e espumantes, que já começa a se consolidar na região.
A primeira grande inflexão tecnológica ocorreu apenas em 1984, com a introdução oficial da segunda poda. Segundo o biólogo e técnico agrícola do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), José Luiz Hernandes, essa inovação foi decisiva para a manutenção do sistema produtivo baseado na mão de obra meeira, ao viabilizar uma segunda colheita anual.
“Era complicado para o meeiro trabalhar o ano inteiro e receber apenas no final do ano. A segunda poda ajudou a prolongar e equilibrar essa parceria”, explica.
O avanço, no entanto, trouxe também novos desafios, sobretudo de ordem biológica. “Antigamente, utilizávamos dois produtos químicos no manejo da uva; hoje, são mais de 18, principalmente por causa dos fungos”, afirma Hernandes. Com apenas uma safra anual, o intervalo entre colheitas criava um vazio sanitário, favorecendo condições climáticas e biológicas para a morte natural dos patógenos. “Com a segunda poda, passamos a ter folha verde o ano todo, o que mantém os fungos ativos e exige o uso de defensivos sistêmicos”, completa.
Essa mudança produtiva impactou diretamente o mercado consumidor, que passou a se habituar à oferta de Niagara durante quase todo o ano. O fenômeno foi intensificado pela expansão da produção em outras regiões paulistas, como Jales e São Miguel Arcanjo. Atualmente, há uva disponível de setembro a julho, o que impõe riscos à sustentabilidade do cultivo em Jundiaí, diante do aumento dos custos de produção, da escassez de mão de obra, da concorrência com outras frutas — especialmente as uvas sem sementes — e da crescente pressão imobiliária sobre as áreas rurais.

A segunda grande evolução tecnológica veio na década de 1990, novamente com protagonismo do IAC, com a introdução do sistema de condução em Y, trazido de Santa Catarina. A técnica elevou significativamente a produtividade, alcançando entre 24 e 30 toneladas por hectare, praticamente dobrando os índices obtidos no sistema de espaldeira. Associada ao uso de cobertura plástica ou telas, a condução em Y também contribuiu para a redução do uso de defensivos agrícolas.
Paralelamente ao desenvolvimento do agroturismo, a evolução da viticultura local passou a dialogar de forma mais consistente com a produção de vinhos. Se, no início, os pioneiros utilizavam principalmente as variedades Corbina, Niagara e Bordô — esta última muitas vezes misturada à Isabel e à própria Niagara —, hoje os produtores investem em uvas finas, buscando elevar o padrão de qualidade, inclusive com a possibilidade de duas safras anuais.
O IAC também apoia a introdução de novas cultivares, atualmente em fase experimental no laboratório do Corrupira, com variedades italianas e uvas PIWI — híbridos desenvolvidos para apresentar resistência natural às principais doenças fúngicas da videira e maior adaptação às mudanças climáticas. “Os resultados confiáveis levam anos, e é preciso cautela na introdução dessas novas uvas”, ressalta José Luiz Hernandes.
A manutenção da Niagara para além de sua tradicional venda durante a Festa da Uva, entretanto, passa por uma transformação ainda pouco percebida: a consolidação de vinhos e espumantes elaborados a partir da própria Niagara. “Se alguém me dissesse, há 20 anos, que o vinho de Niagara ajudaria a manter a produção, eu diria que era loucura. Mas essa é a nossa realidade hoje”, admite o especialista.
Para que Jundiaí continue sendo reconhecida como a Terra da Uva, muito ainda precisa ser construído. Nas mãos dos enólogos e produtores locais está não apenas a inovação, mas a sobrevivência de uma tradição que atravessa gerações.