PAIXÃO NA TERRA

Dia do Café: produção quase foi extinta em Jundiaí, mas sobrevive

Sem o café, Jundiaí não receberia a ferrovia São Paulo Railway e, sem a ferrovia, a cidade não seria o que é hoje

Por Nathália Sousa | 24/05/2024 | Tempo de leitura: 4 min

Maria Luisa Borin

O café produzido em Jundiaí fica perto da Serra do Japi, em região mais gelada e alta
O café produzido em Jundiaí fica perto da Serra do Japi, em região mais gelada e alta

No pé da Serra do Japi, coração de Jundiaí, a neta de Benedito Storani e filha de Paulo Storani mantém viva a cultura da cafeicultura na cidade. Mariangela Storani decidiu voltar às origens da família, com a produção dos grãos, que eram o carro-chefe da agricultura nacional na época de seu avô. Na Fazenda Bonifácio, ela tem 150 mil pés de café e, em plena colheita, celebra o Dia Nacional do Café, que coincide justamente com o início da colheita no país.

Com aroma e sabor especiais, o café de Mariangela, do tipo Catucaí 2SL, tem dulçor natural e se adapta bem à região da Serra, pois resiste bem ao vento. "Eu decidi voltar com café, porque aqui não daria qualquer coisa, tem muito vento. E, com café, eu também sigo a tradição da minha família. Meu avô chegou a ter 500 alqueires de café aqui, escoava para Santos pela ferrovia. Na época que meu pai faleceu, cortaram os pés de café e ficou só gado na fazenda. Mas eu resolvi voltar ao café, porque é uma bênção. Nós fizemos o que fizemos pelo café, e Jundiaí tinha muito café antigamente."

TRADIÇÃO

Mariangela Storani lembra que tudo começou com o avô, imigrante italiano. "Meu avô veio da Itália para o Brasil e foi trabalhar em Campinas, mas foi expulso da fazenda onde trabalhava e veio para Jundiaí, porque tinha alguns parentes aqui. Ele voltou para Campinas só para se casar com a minha avó, que ele tinha conhecido lá. Aqui em Jundiaí, ele montou uma venda, minha avó fazia massas, pães, e vendia também. Ele também começou a alugar algumas terras para plantar e aí soube desta fazenda, que estava à venda porque era de dívida de jogo. Na época, ele disse que assumiria a fazenda, só com a palavra, com "o fio do bigode", e veio para cá", conta Mariangela.

Ela diz que na época do governo de Getúlio Vargas, com a crise do café, na década de 1930, a maioria dos produtores pararam de plantar café e poucas pessoas continuaram com o cultivo do grão no Brasil. Uma dessas pessoas foi Benedito Storani. "Depois disso, ele pegou outra fazenda, de uma dívida de jogo também, e plantou café. Ele manteve o café aqui e plantou na outra. E aí, poucos produtores tinham café no Brasil", explica.

PRODUÇÃO

Hoje Mariangela colhe a safra deste ano, mas o plantio do café começou há oito anos. "Eu recebi um dinheiro de família e decidi investir em café. Me indicaram um grupo de Bragança Paulista e é lá que faço o beneficiamento do meu café. Também veio um agrônomo aqui e me indicou um senhor que trabalhou no IAC de Campinas e montou um viveiro de mudas de café. Comprei as mudas do Catucaí 2SL e fui plantando. Moro em Vinhedo e lá também planto, tenho 40 mil pés lá, aqui em Jundiaí eu tenho 150 mil pés. Pelo tipo de solo, as pragas, o vento, eu precisava de uma planta que fosse resistente e fácil de colher, porque essa espécie não é muito alta."

Na safra do ano passado, Mariangela colheu 990 sacas de café, e vem investindo em valor agregado. "Minha produção é cara por causa da mão de obra, não tem como pôr máquina na minha plantação, então é todo colhido na mão. Eu decidi fazer um café orgânico e com valor agregado. Por sorte, eu conheci um senhor, o Antonio, que conhece muito de café e montou uma pequena empresa em Jundiaí. Ele torra e moi o meu café, faz cápsulas, e também compra a minha produção para fazer o café dele, que ele vende no Sul. Com a torra dele, o café fica muito bom e estou muito feliz, porque eu gosto do meu trabalho."

TÉCNICA

Antonio Maltez, que faz a torra e moagem do café da Mariangela, reforça que o Brasil é protagonista na produção do grão. "O Brasil é o maior produtor e exportador de café no mundo. Nesta safra, deve ter recorde, produzir mais de 55 milhões de sacas e exportar 45 milhões de sacas. A produção maior é em Minas Gerais, mais de 50% do café brasileiro é produzido lá. A nossa região, que é a Mogiana Baixa e vai até o Sul de Minas, produziu muito no passado, mas hoje colhe-se pouco aqui."

"A qualidade do café depende do clima, da região, da altitude. O café em altitude maior, acima de 800m, 900m, tem uma qualidade melhor. Mas tem que ter um acompanhamento técnico na lavoura, tratar bem o pé de café, toda a cadeia produtiva conta, até a torra. O café vendido em mercado, produzido por multinacionais, que representa 80% do mercado, costuma ter mais torra, porque são cafés de baixa qualidade, então a torra neutraliza coisas ruins. Cada café tem uma torra e você consegue fazer café bom ou ruim nesse processo. Geralmente, cafés com mais qualidade têm torra baixa ou média", explica Antonio.

*Mariangela vende cafés apenas sob encomenda. Contato pelo telefone (19) 99628-5319.

O café produzido em Jundiaí precisa de área mais fria e com altitude maior
O café produzido em Jundiaí precisa de área mais fria e com altitude maior
Mariangela produz café em grão, moído e também em cápsulas
Mariangela produz café em grão, moído e também em cápsulas
Mariangela Storani colhe a safra deste ano
Mariangela Storani colhe a safra deste ano
O tipo de grão produzido pro Mariangela é o Catucaí 2SL
O tipo de grão produzido pro Mariangela é o Catucaí 2SL

1 COMENTÁRIOS

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  • Lelia Samara Tuma Giaretta
    24/05/2024
    Mariangela, parabéns pela sua história e pelo café de excelente qualidade, do qual eu e minha família não abrimos mão, pois sabemos da excelência do plantio artesanal e do sabor maravilhoso que ele tem.