OPINIÃO

Lula errou, mas não mentiu

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"O que está acontecendo na Faixa de Gaza e com o povo palestino não existe em nenhum outro momento histórico. Aliás, existiu: quando o Hitler resolveu matar os judeus." Essa foi a fala dita pelo presidente Luis Inácio Lula da Silva no último final de semana sobre as ações de guerra promovidas por Israel contra a Palestina. Lula errou feio ao comparar o conflito com o Holocausto, sobretudo quando esse conflito envolve os judeus, porem a sua fala está dentro de um contexto tão sólido que não nos permite dizer que o presidente mentiu.

O conflito entre Israel e Palestina se arrasta por décadas e tem origem milenar. Pelo espaço que temos aqui, pouparei a você que lê este texto de grandes explicações históricas e divagações filosóficas sobre essa guerra. O que não pode ser ignorado é que as duas nações reivindicam o mesmo território, sendo que uma se apoia na religião para justificar sua permanência (Israel), enquanto a outra se baseia na história para afirmar propriedade sobre o local (Palestina).

Desde a subdivisão geopolítica do Oriente Médio otomano feito por França e Inglaterra na década de 1920, passando pelo plano de partilha da Palestina, em 1947, que resultou na criação futura do Estado de Israel, a região vive em um conflito que flerta com a eternidade. Mas nenhum momento foi tão nevrálgico como o iniciado em 7 de outubro de 2023, quando o grupo terrorista Hamas lançou um ataque no sul de Israel matando civis e fazendo reféns.

A partir disso, Israel iniciou uma série de ofensivas em resposta contra os palestinos. A primeira delas foi o corte do fornecimento de serviços essenciais da população de Gaza - sede do Hamas -, incluindo água e eletricidade, e o bloqueio da entrada de praticamente tudo, com exceção de uma pequena quantidade de combustível e de ajuda humanitária essencial.

Segundo relatório do Human Rights Watch, "esses atos de punição coletiva equivalem a crimes de guerra". Além disso, "ataques aéreos israelenses bombardearam Gaza, atingindo escolas e hospitais e reduzindo grande parte dos bairros a escombros, incluindo em ataques que foram aparentemente ilegais", diz o relatório que ainda afirma que mais de 18.700 palestinos, a maioria civis, incluindo mais de 7.800 crianças, foram mortos entre 7 de outubro e 12 de dezembro de 2023.

As pessoas que conseguiram escapar só o fizeram porque foram forçadas a evacuar o norte de Gaza. Cerca de 85% da população, ou 1,9 milhões de pessoas, saiu de suas casas para procurar abrigo e ajuda humanitária em outras regiões da Palestina.

Uma dessas regiões é a cidade de Rafah, que fica ao sul da Palestina e que faz fronteira com o Egito. Cerca de 1,3 milhões de refugiados se estabeleceram na cidade que, nos ultimo dias, está sendo sistematicamente atacada por Israel. O último refúgio dos palestinos enfrenta outro problema além dos ataques aéreos, a falta de ajuda humanitária.

A Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Próximo Oriente, também conhecida pela sigla UNRWA, foi acusada pelas autoridades de Israel de ter funcionários ligados ao Hamas. Isso fez com que alguns países como Estados Unidos, Alemanha, Canadá e a União Europeia suspendessem doações para a principal agência de serviços humanitários para a Palestina.

E essa foi a gota d'água para Lula. "E qual é o tamanho do coração solidário dessa gente que não está vendo que na Faixa de Gaza não está acontecendo uma guerra, mas um genocídio?", disse o presidente no mesmo discurso que gerou a fala tão polemica. E aqui dá para ver que Lula não mentiu.

Nada se compara ao holocausto provocado pelos nazistas, como também nada se compara aos mais de 300 anos de escravidão vividos no Brasil. Para a história, comparar conflitos sempre é um equívoco, pois o contexto de cada um é muito particular. Lula cometeu um grave erro cutucando a ferida sempre aberta dos judeus ao colocar Israel na mesma prateleira dos nazistas de Hitler.

Mas acertou em cheio ao se indignar com o claro genocídio causado pelo exército israelense. E acertou mais ainda quando disse que: "Se teve algum erro nessa instituição que recolhe o dinheiro, apura-se quem errou. Mas não suspenda a ajuda humanitária para o povo", e reiterou: "O Brasil condena o Hamas, mas o Brasil não pode deixar de condenar o que Israel está fazendo na Faixa de Gaza".

Conhecendo o histórico de Lula na presidência - e do próprio Brasil - em se manter neutro em conflitos, em intermediá-los quando possível e, sobretudo, em se preocupar com as vitimas, ele falou o que só poderia ter falado.

Conhecimento é conquista.

P.s.: penso que mais importante do que apontarmos o dedo para os vilões ou encontrarmos os mocinhos, é darmos nossa atenção máxima para as vítimas inocentes. E tem muita gente inocente morrendo porque os vilões e os mocinhos estão brigando entre si.

Felipe Schadt é jornalista, professor e cientista da comunicação (felipeschadt@gmail.com)

Comentários

1 Comentários

  • Hygor 21/02/2024
    LULANÁTICO SÓ SUSTENTA MENTIRAS ENTÃO,ELE COM SUA IGNORÂNCIA,SE METE ONDE NÃO DEVERIA,COM TODO RESPEITO AO POVO PALESTINO E TODA DESONRA AOS TERRORISTAS DO HAMAS.