Opinião

Figura ou filha?

06/04/2023 | Tempo de leitura: 3 min

Esta Quaresma foi tão intensa que me perdi do número dos dias. Falando em números, lembrei-me do livro "Testemunhas da Esperança" do Cardeal François X. N. Van Thuan (1928-2002), em que ele diz ser um "defeito" de Jesus não saber matemática, com o risco de ser reprovado nessa matéria em um exame. Escreve no aspecto da compaixão de Deus, que ignora os cálculos humanos, como no caso do pastor que possuía cem ovelhas, uma delas se perde e ele sai à sua procura, deixando as outras noventa e nove no deserto. Refiro-me no sentido da oração. Rezei tanto por uma situação de doença, que pouco senti a virada dos dias. Não me perdi, no entanto, de dores de meu entorno, que precisava acudir.

Padre Márcio Felipe de Souza Alves, Reitor e Pároco do Santuário Diocesano Santa Rita de Cássia, meu amigo, diretor espiritual e confessor, me enviou nesse período a música "Chagas Abertas", que diz do coração ferido e que "Deus pode cuidar de tudo", se seu permitir.

A palavra que mais me perturbou nesta Quaresma foi "obediência", que provém do latim, ob-audire; de onde vem audiência, audição. Ob é um prefixo verbal indicando uma inclinação para; ob-audire, estar voltado para.

Questionou-me a palavra "obediência" nas pequeninas coisas em relação a Deus, pois tenho um lado bem "deusinha", ouvindo menos e agindo mais de acordo com meus impulsos. Padre Márcio Felipe me ajudou a ver bem isso. Nada com subserviência, mas sim com a obediência que me liberta de mim mesma.

Ele me ofereceu, bem como a todos que ouviram suas homilias dominicais, a humanidade de Jesus: é tentado, tem sede, possui amigos muito queridos como Lázaro, Marta e Maria. Destacou que Eva, ao acatar a serpente, fechou os olhos para Deus e os abriu para o mal. Maria, ao dizer seu "sim" ao Senhor, ofereceu-nos a árvore da vida: a Cruz. É aí que me enrosco, procurando um caminho ilusório para evitar as estações até o Calvário. Diante do Evangelho da ressurreição de Lázaro, enfatizou que aquele que está em comunhão com Deus, mesmo no túmulo ou atado de mãos e pés com os lençóis mortuários, move-se em direção à Luz. Forte, não é? E o Senhor sempre me convida a sair para fora dos sepulcros de meus atalhos.

Viver a obediência é um experimento concreto de fé. Com o Padre Márcio Felipe, fomos com Jesus ao deserto e vimos a maneira com que superou as tentações. No Monte Tabor, ouvimos ser Ele o Filho amado do Pai e "Levantai-vos e não tenham medo". No poço de Jacó, anunciou-nos, através da Samaritana, a água viva. Após Jesus cuspir no chão, fazer lama com a saliva e colocá-la sobre os olhos do cego, disse-lhe que fosse se lavar na piscina de Siloé. O cego obedeceu e voltou enxergando.

Em minha última confissão, acrescentou sobre a diferença entre ser figura e ser de verdade; ser figura ou ser filha. Citou como exemplo a mulher da Samaria. Antes de se encontrar com Jesus, teve cinco maridos e o que possuía agora não era seu marido, que podem ser interpretados como ídolos. Era uma figura apenas, contudo, a partir de Jesus, se tornou pessoa na verdade.

Ser figura e/ou caricatura é coroar-me com minhas atitudes em busca de mim mesma. Ser filha é permitir que Deus guie a minha vida.

A decisão, na obediência, para assumir a filiação divina, de cada um.

Maria Cristina Castilho de Andrade é professora e cronista (criscast@terra.com.br)

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