ENSINO SUPERIOR

Sem retorno esperado, faculdade deixa de ser sonho de muitos

Por Nathália Sousa | Jornal de Jundiaí
| Tempo de leitura: 4 min
ARQUIVO PESSOAL
Gabriela de Lima é técnica de laboratório e não se arrepende de não ter feito faculdade
Gabriela de Lima é técnica de laboratório e não se arrepende de não ter feito faculdade

Mesmo que haja muitas vezes um estímulo para a continuidade dos estudos, muitas pessoas que se formam no ensino médio optam por não cursar uma faculdade. Algumas entram no mercado de trabalho direto, outras fazem curso técnico, outras empreendem e há também os "nem-nem", que nem estudam e nem trabalham. Sem a certeza de um emprego bem remunerado, o desânimo em relação ao ensino superior vem de algum tempo.

Em Jundiaí, a quantidade de pessoas no ensino superior em instituições da cidade, públicas e privadas, atingiu o auge em 2015, com 32.720 estudantes matriculados. Em 2019, último ano disponível no Observatório Jundiaí, eram 20.617. A nível nacional, a oferta de vagas aumentou, por causa do EAD. De acordo com o Censo da Educação Superior, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), as vagas em cursos de graduação EAD tiveram aumento de 23,8%, mas as presenciais caíram 2,8%.

ESCOLHA

Gabriela Fernanda de Lima, de 23 anos, é técnica de laboratório. "Fiz um curso técnico de meio ambiente com 17 anos, que durou um ano e meio, depois fiz outro de um ano, de saneamento. Acredito que se eu fizesse faculdade não teria sido tão bom. Consegui emprego mais rápido e trabalho na mesma função que engenheiras. A longo prazo pode ser diferente, mas para mim compensou, porque já consegui emprego."

Gabriela passou pela pressão para fazer faculdade, mas até o momento não pretende e acha que há oportunidades suficientes no mercado de trabalho para quem não tem o diploma universitário. "Senti bastante pressão para fazer Enem, entrar na faculdade, só que a gente nunca tem certeza do que quer quando termina o ensino médio. Prestei o Enem três vezes e não sabia o que fazer, então fiz o técnico que eu tinha mais afinidade. Minha mãe queria que eu fizesse faculdade, mas escolhi o melhor para mim e não me arrependo."

GERAÇÃO

Evelise Carvalho, de 36 anos, é autônoma, produz e vende doces atualmente. "Quando saí do ensino médio, saí com dúvidas do que fazer, porque gostava de muita coisa, então, não fiz faculdade pelas dúvidas e também pela questão financeira. Meu pai faleceu quando eu tinha 13 anos e minha mãe já tinha alguns problemas de saúde. Evitei sair de casa porque não podia deixá-la sozinha."

Para ela, não houve pressão familiar e a faculdade não fez falta, já que, devido às dúvidas de carreira, poderia estar atuando em algo completamente diferente da formação. "Quando estava no ensino médio, fiz teatro e queria ser atriz, depois pensei em fazer jornalismo, mas desisti das duas áreas. Fiz um técnico em administração, depois também fiz técnico em design de interiores, mas comecei a fazer doces para ajudar uma amiga. Fiz por um tempo e parei, mas depois fiquei desempregada e voltei a fazer doces. Produzo desde 2019."

Leonardo Santos, também de 36 anos, é empresário e escolheu começar a trabalhar logo após o ensino médio. "Meus pais sempre trabalharam desde cedo. Quando terminei o ensino médio, eu também já estava trabalhando com vendas e quis continuar para abrir o meu negócio. Me especializei no martelinho de ouro e, junto com isso, estava reformando uma casa para alugar. Para essa casa, eu fiz o plano de corte dos móveis e comecei a montá-los. A partir disso, comecei a me interessar e fabrico móveis há dez anos. Hoje tenho as duas empresas, o martelinho e a marcenaria."

Para ele, a faculdade também não faz falta, pois vê dificuldades no mercado. "Fiz só um curso técnico e fui aperfeiçoando o meu trabalho no dia a dia. Isso me ensinou muito. Na época que terminei a escola, comecei a estudar mecatrônica, mas fiquei só uns três meses e abandonei. Hoje eu faço faculdade de psicologia. Comecei no ano passado, mas só porque tenho vontade, não para trabalhar com isso."

TENDÊNCIA

Ex-Secretário da Educação do Estado de São Paulo, diretor-geral de universidade, docente de pós-graduação e Secretário-Geral da Academia Paulista de Letras, José Renato Nalini enxerga uma mudança mundial. "Não precisa de tantos advogados, por exemplo. Precisa de pedreiros, de silvicultores, de jardineiros, de eletricistas, de ecólogos, de marceneiros, daquilo que uma cultura colonialista e ultrapassada considerava inferior."

"O excesso de doutores não tornou o Brasil a República mais justa do planeta. O que o Brasil precisa hoje é de gente que cuide da natureza, que reduza a fome, a desigualdade social, que ajude a alfabetizar a legião de analfabetos em sentido estrito e os analfabetos funcionais que, infelizmente, chegam à Universidade e continuam iletrados", afirma.

Nalini avalia que a educação precisa ser reavaliada. "Um dos efeitos da reclusão forçada pela pandemia foi repensar a educação brasileira como um todo. Além de priorizar a memorização, fazendo com que o educando seja obrigado a decorar informações que ele obtém facilmente num clique de qualquer instrumento eletrônico vinculado ao mundo web, a educação formal há muito não vem cumprindo com sua missão de propiciar ao diplomado uma automática ascensão social. A explosão de cursos universitários baseados nas mesmas premissas, ou seja, a verdadeira venda de diplomas que depois para pouco servirão, desestimula aqueles que conseguem enxergar que o mundo precisa hoje de outras profissões. Na verdade, os próximos anos verão o desaparecimento de inúmeras profissões. E aquelas que surgirão ainda não têm sequer denominação", completa lembrando da revolução digital.

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