Os números mais recentes da violência em Campinas deveriam provocar muito mais do que preocupação. Deveriam obrigar autoridades de todas as esferas a rever prioridades e, principalmente, a abandonar soluções simplistas para um problema que desafia o país há décadas. Entre janeiro e setembro deste ano, Campinas registrou 76 vítimas de homicídio doloso, um aumento de 33,3% em relação ao mesmo período de 2025, quando foram contabilizadas 57 mortes. As tentativas de assassinato cresceram 10,5%, enquanto os registros de estupro avançaram 12,1%, chegando a 277 ocorrências, das quais 202 foram classificadas como estupro de vulnerável. São indicadores preocupantes, sobretudo porque representam vidas interrompidas, famílias destruídas e vítimas que carregarão consequências por muitos anos. E mostram que, apesar dos avanços em determinados indicadores, ainda estamos longe de oferecer a segurança que a população merece.
- Clique aqui para fazer parte da comunidade da Sampi Campinas no WhatsApp e receber notícias em primeira mão.
É verdade que os crimes contra o patrimônio apresentaram uma trajetória diferente. Os roubos de veículos caíram quase 35%, os furtos em geral recuaram aproximadamente 14% e os furtos de veículos diminuíram 18,3%. São resultados que precisam ser reconhecidos. Mas a melhora de determinados índices não pode servir para minimizar o agravamento dos crimes contra a vida e a dignidade sexual. A segurança pública não cabe numa estatística isolada, muito menos numa disputa para selecionar os números mais convenientes ao discurso de cada governo. O desafio é compreender por que determinadas modalidades criminosas recuam enquanto outras avançam, identificar suas causas e construir respostas específicas.
O dado mais revelador, entretanto, talvez esteja no mapa da violência. Das 76 vítimas de homicídio registradas nos nove primeiros meses do ano, 38 estavam nas áreas atendidas pelos distritos policiais do Ouro Verde e do Campo Grande. Exatamente metade dos assassinatos de Campinas. Somente a região do 9º Distrito Policial, no Ouro Verde, concentrou 23 mortes, enquanto a área do 11º DP, no Campo Grande, contabilizou outras 15. No extremo oposto, a área atendida pelo 13º DP, no Cambuí, não registrou vítimas de homicídio doloso no período. É importante lembrar que essas estatísticas abrangem os territórios de atuação das delegacias, não apenas os bairros onde estão instaladas. Ainda assim, o contraste é contundente e evidencia uma distribuição profundamente desigual da violência letal na cidade.
Essa concentração territorial deveria ocupar o centro das discussões sobre segurança pública. Ouro Verde e Campo Grande são regiões populosas, com histórias próprias de expansão urbana e desafios sociais que exigem políticas permanentes. Não significa que a pobreza produza criminosos, tampouco que seus moradores sejam responsáveis pela violência que enfrentam. Significa reconhecer que a vulnerabilidade social, a desigualdade de oportunidades, a precariedade de determinados serviços e a presença de organizações criminosas podem criar condições que tornam alguns territórios mais expostos à violência. Os números apresentados não permitem determinar isoladamente as causas dos homicídios, mas oferecem um ponto de partida incontornável para investigar essas diferenças e orientar a atuação do poder público.
É justamente nesse ponto que considero insuficiente qualquer política de segurança baseada exclusivamente no aumento do policiamento ou no endurecimento das penas. Essas medidas podem ter importância, especialmente diante de crimes graves e da atuação de organizações criminosas. Mas combater a violência sem investir em educação, qualificação profissional, urbanização, oportunidades econômicas, proteção social e perspectivas reais de ascensão é correr o risco de enxugar gelo. Uma criança que cresce num território dominado pelo medo precisa da presença do Estado muito antes de conhecer uma viatura policial. Precisa de escola, equipamentos públicos, espaços de convivência, atendimento de saúde e caminhos concretos para construir uma vida distante da criminalidade. Segurança pública também se faz com desenvolvimento humano.
A discussão ganhou dimensão nacional durante a última eleição presidencial, quando a violência ocupou posição central no debate entre os candidatos. O governo Lula conseguiu aprovar no Congresso a PEC da Segurança Pública, que amplia a capacidade de coordenação federal, fortalece mecanismos de integração entre as forças policiais e estabelece novas regras de financiamento. A proposta também preserva competências estaduais e municipais, mas considero legítima a preocupação com uma eventual concentração excessiva de decisões em Brasília. O crime organizado ultrapassa fronteiras e exige inteligência nacional, mas a violência cotidiana possui características que só podem ser compreendidas plenamente por quem conhece os territórios. A União precisa coordenar, financiar e integrar. Os estados precisam exercer suas responsabilidades constitucionais de policiamento e investigação. E os municípios, embora não comandem as polícias estaduais, precisam participar ativamente da prevenção, da organização urbana e da construção de políticas locais. A solução não está em escolher uma esfera de governo, mas em impedir que a centralização enfraqueça a capacidade de resposta de quem está mais próximo do problema.
Também não podemos ignorar o outro lado dessa equação: a responsabilização de quem comete crimes graves. O Brasil precisa discutir com seriedade a rigidez da execução das penas, os critérios de progressão de regime, a fiscalização de condenados e os mecanismos de avaliação de risco. Não basta prender se o sistema não consegue acompanhar adequadamente quem retorna ao convívio social, especialmente quando há histórico de violência grave. Isso não significa defender o encarceramento indiscriminado ou negar direitos previstos em lei. Significa reconhecer que a proteção da sociedade também precisa ser considerada nas decisões sobre a execução penal, com critérios objetivos, fiscalização eficiente e avaliações fundamentadas.
O episódio ocorrido em Osasco, na Grande São Paulo, nesta semana, ajuda a compreender a gravidade dessa discussão. Um homem de 79 anos, que caminhava com muletas, foi violentamente agredido após um desentendimento no trânsito. O suspeito, Denis Young Kim, de 43 anos, já havia sido condenado a 14 anos de prisão pelo assassinato de um catador de materiais recicláveis, cometido em 2016, também depois de uma discussão envolvendo um veículo. Após cumprir quase nove anos de pena, passou ao regime aberto em setembro de 2025. Agora, é investigado por tentativa de homicídio contra o idoso e foi preso nesta quarta-feira (4). O caso não prova, isoladamente, que a progressão de regime seja equivocada, mas impõe uma pergunta fundamental: quais mecanismos de acompanhamento e avaliação estavam disponíveis para identificar e administrar o risco de uma nova violência? A resposta precisa considerar o processo de execução penal e os critérios efetivamente utilizados, sem substituir a apuração por conclusões antecipadas.
A discussão sobre reincidência não pode ser aprisionada numa guerra ideológica entre quem defende punições mais severas e quem prioriza a ressocialização. Uma política penal responsável deve buscar as duas coisas: responsabilização proporcional à gravidade do delito e redução efetiva do risco de novos crimes. A ressocialização não pode ser apenas uma palavra bonita em decisões judiciais, assim como o endurecimento penal não pode ser vendido como solução automática para todos os problemas. O Estado precisa de capacidade para investigar, julgar, punir, fiscalizar e oferecer caminhos de reintegração, sem perder de vista o mais importante: a segurança das possíveis vítimas. Quando qualquer dessas etapas falha, toda a sociedade fica exposta às consequências.
Campinas oferece um retrato bastante claro dessa complexidade. Os números mostram avanços no enfrentamento de roubos e furtos, mas também um crescimento preocupante de homicídios, tentativas de assassinato e estupros. Revelam ainda que a violência não atinge todas as regiões da cidade com a mesma intensidade. É impossível construir uma política pública eficiente sem olhar para essas diferenças e reconhecer que a prevenção social, a presença policial, a investigação criminal e a execução das penas fazem parte de uma mesma responsabilidade. A atuação precisa ser coordenada, mas também territorializada, porque as necessidades de uma comunidade não são necessariamente iguais às de outra.
O país precisa abandonar a tentação de transformar a segurança pública em mais uma disputa de slogans. Não existe solução séria que dispense o combate firme ao crime, assim como não existe repressão capaz de substituir investimentos sociais permanentes. O desafio é construir um Estado que consiga impedir que crianças e adolescentes sejam atraídos pela criminalidade, proteger quem vive em regiões vulneráveis, responsabilizar os autores de crimes e evitar que pessoas perigosas voltem a produzir vítimas por falhas de acompanhamento.
A segurança pública não pode ser medida apenas pelo número de prisões realizadas, nem pelas verbas anunciadas ou pelas leis aprovadas. Seu verdadeiro resultado está na quantidade de vidas que conseguimos preservar.
Vereador que pediu demissão de eleitores de Lula enfrenta CP

Reprodução
A defesa da demissão de trabalhadores por causa de suas escolhas políticas colocou o vereador Josuel da Conceição (PSD), de Monte Mor, na mira de uma Comissão Processante (CP). A Câmara Municipal decidiu, por unanimidade, na sessão de terça-feira (3), abrir uma investigação para apurar se o parlamentar cometeu quebra de decoro ao incentivar empresários a dispensarem funcionários que votaram no presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O procedimento foi motivado por uma denúncia apresentada por um eleitor, que questiona a conduta do vereador após a circulação de um vídeo nas redes sociais. Na gravação, publicada depois do segundo turno das eleições presidenciais, Josuel defendeu que empregadores demitissem trabalhadores identificados com o PT. A abertura da comissão representa o início da apuração parlamentar, e não uma decisão sobre a responsabilidade do vereador.
Além do vídeo, a representação encaminhada ao Legislativo reúne capturas de tela de mensagens atribuídas ao parlamentar em um grupo chamado “Direita Monte Mor Unidos”. Segundo o denunciante, o conteúdo levanta dúvidas sobre o cumprimento dos deveres institucionais e de respeito exigidos de quem exerce mandato eletivo.
A controvérsia começou em 27 de outubro, quando Josuel publicou uma gravação incentivando a dispensa de empregados que haviam votado em Lula. A manifestação ganhou repercussão e provocou críticas à postura do parlamentar.
Na sequência, o vereador retirou a publicação e divulgou um novo vídeo, desta vez para reconhecer o erro e pedir desculpas às pessoas atingidas por suas declarações.
“Eu errei, reconheço a minha falha, reconheço o meu erro, não deveria ter falado aquilo”, afirmou Josuel na retratação.
O pedido de desculpas, no entanto, não impediu o encaminhamento da representação à Câmara Municipal. A denúncia sustenta que as manifestações devem ser examinadas à luz das responsabilidades e dos limites de conduta impostos aos integrantes do Legislativo.
Antes da aprovação da Comissão Processante, a própria Câmara de Monte Mor já havia se manifestado publicamente sobre a polêmica.
Em nota oficial, o Legislativo afirmou que não concorda com o conteúdo divulgado por Josuel e ressaltou que a manifestação individual do parlamentar não representa a posição institucional da Casa.
A Câmara também declarou que eventuais questionamentos sobre a conduta do vereador deveriam seguir os procedimentos legais e regimentais previstos para esse tipo de apuração.
Com a aprovação da denúncia na sessão de 3 de novembro, o caso passou à etapa de investigação por uma Comissão Processante, responsável por examinar os fatos e assegurar ao parlamentar a oportunidade de apresentar sua defesa.
A repercussão das declarações ultrapassou o Legislativo municipal. O caso também foi levado ao Ministério Público de São Paulo (MPSP) e ao Ministério Público do Trabalho (MPT), diante de questionamentos sobre possível discriminação de trabalhadores por preferência política.
O Ministério Público paulista instaurou procedimento para analisar a manifestação e encaminhou informações aos órgãos competentes. Já o possível enquadramento das declarações como incentivo ao assédio eleitoral é uma questão que depende da avaliação das autoridades responsáveis.
A escolha política de um trabalhador não deve ser utilizada como critério discriminatório nas relações de emprego. A eventual responsabilização do vereador, entretanto, depende da apuração dos fatos e das regras aplicáveis a cada procedimento.
Na Câmara de Monte Mor, a investigação agora se concentra na possível quebra de decoro parlamentar. A abertura da CP não significa perda automática do mandato nem antecipa o resultado do processo.
- Flávio Paradella é jornalista, radialista e podcaster. Sua coluna é publicada no Portal Sampi Campinas aos sábados pela manhã, com atualizações às terças e quintas-feiras. E-mail para contato com o colunista: paradella@sampi.net.br