Em seu novo vídeo no YouTube, o influenciador digital Felca, capaz de alcançar uma multidão impressionante nas redes sociais, relata o bullying que sofreu na escola e as marcas que permaneceram na vida adulta, associando aquela experiência à fobia social e ao uso do álcool.
O relato expõe o longo alcance temporal da violência: o agressor pode esquecer em um mês aquilo de que a vítima, mesmo após décadas, dolorosamente ainda se lembra.
É impossível acompanhar Felca narrando as surras que levou no banheiro da escola, as "brincadeiras" em que era arrastado pelos corredores e as provocações sofridas até dentro da sala de aula sem fazer uma pergunta angustiante: como ninguém viu?
Onde estavam os olhos da direção, da coordenação, dos professores, dos inspetores? O bullying não ocorre apenas porque existe quem agride. Ele também encontra espaço onde os adultos não conseguem enxergar e interromper a violência.
Certa vez escrevi, em um antigo artigo de jornal, que as escolas brasileiras deveriam ter mais câmeras para ajudar a proteger professores e alunos. Poucos ao meu redor apoiaram a minha ideia naquela ocasião. Mas ao ouvir o relato de Felca, volto à questão: se salas, corredores e pátios contassem com monitoramento responsável, respeitados os limites de privacidade e definidos critérios rigorosos para acesso às imagens, não teríamos mais uma possibilidade de identificar agressões e intervir rapidamente?
Câmeras não precisam ser sinônimo de repressão totalitária; submetidas a regras democráticas, podem ser também instrumentos de proteção da liberdade.
Afinal, uma boa escola é também aquela da qual nenhum adolescente precisa carregar, décadas depois, as memórias da violência que os adultos não conseguiram ver.