OPINIÃO

Flávio prometeu mudar o País e se mudou

Por Zarcillo Barbosa | O autor é jornalista e articulista do JC
| Tempo de leitura: 3 min

Flávio Bolsonaro conseguiu pôr fora de jogo todos os seus apoiadores e o patrimônio político de 60 milhões de eleitores com uma sucessão de erros praticados em poucas horas. Strike! Primeiro, não reconheceu a derrota e em seguida fugiu. Nem bem chegou à Flórida proclamou-se "presidente eleito do Brasil", depois corrigido para "líder do Brasil". Comparou-se a Ruy Barbosa e utilizou-se, para o seu manifesto, de um papel timbrado onde se lia "Estados Unidos do Brazil". Essa denominação deixou de existir em 1967, quando o nome oficial passou a ser República Federativa do Brasil. Parece até que a carta foi redigida por Inteligência Artificial.

Flavio prometia mudança e se mudou. Com sua versão caipira de extremismo de direita, deixa famílias divididas, amizades acabadas e namoros terminados. O que era uma questão política virou problema policial. Dois inquéritos estão em curso na Policia Federal, o primeiro deles sobre a prestação de contas dos R$ 134 milhões do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, e o segundo, sobre suas relações com o amigo Willer Thomaz, envolvido em fraudes do INSS e lavagem de dinheiro com casas de apostas. Este advogado está na Flórida desde agosto e não pretende voltar. Sob o guarda-chuva de Trump também se autoexilaram nos EUA o irmão Eduardo Bolsonaro e o foragido Alexandre Ramagem, condenado pelo STF a 16 anos de prisão. Nenhum deles têm problemas de sobrevivência e não trabalham. O voo de fuga de Flávio e família, segundo especialistas, custou pelo menos R$ 800 mil. Milei e Trump não compareceram, nem em pesos e nem em dólares. O erro maior da direita foi o de ter aceito, sem resistência, que Jair Bolsonaro lançasse o próprio filho à presidência. Os únicos que demonstraram desagrado foram Michele e Silas Malafaia - "candidatura não é negócio de família". A melhor opção seria Tarcísio de Freitas. Fez um governo com aceitação popular em São Paulo. Tem um discurso afinado com as massas, além do estilo bem-comportado.

Lula cumpre um terceiro mandato medíocre, mal avaliado e que quase lhe custa a perda da eleição para um inexpressivo senador que só tem o sobrenome como capital. Tarcísio teria mais chances de sucesso, mesmo com o Lula fazendo uso descarado da máquina pública. O "Centrão" de Gilberto Kassab quis apoiar o govenador de São Paulo, ideia não acolhida. Lançou candidato próprio - Ronaldo Caiado (PSD).

O PT precisa se renovar com urgência. Atrair lideranças jovens para não perder a relevância diante de um Congresso com maioria conservadora. Lula disse que "vai mudar o jeito de governar", mas não explicou nem agora e nem durante a campanha quais são os seus planos para um país à beira da recessão, com juros altos e crescente endividamento público. Seu único projeto é o de se aproximar mais do povo mediante a comunicação digital - "ganhei até um celular do governador do Piauí". Seria bom se Lula descesse dos saltos. A Bolsa de Valores derrete em forte volatilidade. As empresas brasileiras com ações na B3 perderam R$ 873 bilhões em valor de mercado após o segundo turno. A reprecificação de expectativa é a responsável pela sangria, após o resultado eleitoral e as incertezas da política fiscal.

Lula, aos 81 anos, passou da hora de ter juízo. Deve anunciar logo o ministro da Fazenda e dizer o que vai fazer diante da economia fragilizada; a "herança maldita" de si mesmo. Campanha eleitoral é feita de emoções e narrativas, mas quando se trata de governança manda mais o preço do tomate. Saber ganhar é mais difícil do que saber ganhar. Maquiavel aconselhava o príncipe a tomar as medidas impopulares de uma vez, logo no início, e depois liberar as bondades, aos poucos.

Os economistas falam da necessidade de um corte urgente de R$ 290 bilhões em despesas e subsídios tributários. Lula tem que aproveitar enquanto o desemprego é baixo, o agro está em expansão e o petróleo em alta.

O bolsonarismo ainda respira.

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