OPINIÃO

O crescimento tem prazo de validade quando falta confiança

Por Reinaldo Cafeo | O autor é diretor regional da Ordem dos Economistas do Brasil
| Tempo de leitura: 4 min

Neste domingo (25), os brasileiros irão às urnas para escolher o próximo presidente da República. Mais do que uma disputa de nomes, a eleição coloca em discussão diferentes visões sobre o papel do Estado, a condução das contas públicas e os caminhos para o crescimento econômico. A escolha terá consequências que ultrapassam o próximo mandato, porque o modelo adotado hoje influencia os juros, os investimentos, o emprego e a renda de amanhã.
Uma economia pode crescer impulsionada pelo consumo. Quando as famílias recebem mais renda, ampliam suas compras e movimentam o comércio, os serviços e a indústria. Esse mecanismo tem sua importância, sobretudo em um país marcado por desigualdades sociais. O problema começa quando o consumo se transforma no principal sustentáculo da expansão econômica, sem que a capacidade produtiva e os investimentos avancem na mesma proporção.
O crescimento da demanda, por si só, não produz novas fábricas, infraestrutura, tecnologia ou ganhos de produtividade. Se o dinheiro disponível na economia aumenta sem uma correspondente expansão da oferta de bens e serviços, podem surgir pressões inflacionárias. E, quando o estímulo à atividade depende também da expansão do endividamento público, aparece outra preocupação: a capacidade do governo de honrar seus compromissos sem comprometer a confiança dos investidores, além da pressão inflacionária.
É nesse ponto que o modelo econômico encontra seus limites. Se o mercado passa a questionar a trajetória da dívida pública, exige uma remuneração maior para financiar o governo e os juros futuros sobem. O custo elevado do dinheiro se espalha pela economia, encarecendo o crédito para empresas e consumidores. O Banco Central, diante de expectativas de inflação resistentes e de riscos fiscais, pode precisar manter a taxa básica de juros em patamares elevados por mais tempo.
Forma-se, assim, um círculo que merece atenção: o governo estimula a demanda para sustentar o crescimento, mas a deterioração das expectativas fiscais pode encarecer o financiamento, desestimular o investimento privado e reduzir a capacidade de expansão da economia. Se esse processo persistir, o crescimento perde força. Em condições adversas, a combinação de crédito caro, investimento fraco e consumo em desaceleração pode contribuir para uma recessão. Não é um desfecho inevitável, mas um risco que não deve ser ignorado.
A alternativa em discussão é uma mudança de orientação baseada na responsabilidade fiscal, na previsibilidade das regras e na valorização do investimento privado. Um programa consistente de controle das despesas públicas, acompanhado de reformas que aumentem a eficiência do Estado e melhorem o ambiente de negócios, pode produzir um choque de confiança. Se os agentes econômicos acreditarem que a dívida seguirá uma trajetória sustentável, os prêmios de risco poderão diminuir e os juros futuros poderão recuar.
Essa mudança de expectativas tem efeitos concretos. Empresas que adiaram projetos por causa da incerteza podem voltar a avaliar investimentos em expansão, modernização e contratação. Recursos que permanecem à espera de condições mais seguras podem ser direcionados à produção. Mais investimento significa potencial para ampliar a oferta, elevar a produtividade, criar empregos e aumentar a renda sem depender exclusivamente de estímulos ao consumo.
É importante, porém, não confundir possibilidade com garantia. A queda dos juros futuros não determina automaticamente uma redução imediata da Selic, cuja condução cabe ao Banco Central. Tampouco a simples promessa de austeridade convence os investidores. A confiança depende de metas verificáveis, medidas executáveis, estabilidade institucional e capacidade política de realizar os ajustes anunciados. Um ajuste mal desenhado também pode enfraquecer a atividade econômica no curto prazo.
Por isso, a diferença entre as propostas apresentadas pelas campanhas precisa ser examinada além dos slogans. De um lado, a continuidade de uma estratégia que atribui papel relevante à renda, aos programas sociais e aos investimentos públicos. De outro, a sinalização de um modelo que enfatiza a contenção das despesas, a responsabilidade fiscal e a recuperação da confiança para mobilizar o capital privado. A questão decisiva é saber como cada estratégia pretende financiar suas iniciativas e compatibilizá-las com a sustentabilidade da dívida.
O Brasil não precisa escolher entre crescimento e responsabilidade fiscal, como se fossem objetivos incompatíveis. Precisa construir uma política econômica capaz de conciliá-los. A proteção aos mais vulneráveis e a expansão das oportunidades dependem de uma economia que gere riqueza de forma contínua, e não apenas de impulsos temporários de demanda. Da mesma maneira, a disciplina fiscal deve ser instrumento para criar condições de desenvolvimento, e não um objetivo desconectado da realidade social.
A eleição deste domingo não resolverá, por si só, esses desafios. O resultado poderá alterar as expectativas, mas será a execução do programa econômico que determinará se elas se transformarão em investimentos, empregos e renda. A economia não se move apenas por discursos: responde à credibilidade das decisões e à consistência dos resultados.
O crescimento sustentado exige mais do que colocar dinheiro em circulação. Exige produzir mais, investir melhor e oferecer segurança para quem empreende e trabalha. Um modelo baseado predominantemente no consumo e apoiado em endividamento crescente pode encontrar limites quando os juros e a desconfiança se impõem. Uma estratégia ancorada em responsabilidade fiscal e confiança poderá abrir espaço para um ciclo de investimentos, desde que saia do papel.
No fim, a pergunta que o eleitor deveria levar para a urna é simples: qual caminho oferece condições mais consistentes para que o Brasil cresça não apenas agora, mas também nos próximos anos? A resposta dependerá das propostas, dos números e, sobretudo, da capacidade de transformar compromissos de campanha em uma política econômica crível e sustentável.

Comentários

Comentários