COLUNISTA

Quem decidiu que estamos em 2026?


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Quase ninguém se pergunta, mas o número 2026 tem uma história. Contamos os anos a partir do nascimento de Jesus, só que nem sempre foi assim. Essa contagem foi proposta por um monge no século VI, ajustada por um papa no século XVI e adotada aos poucos, por quase todo o mundo. Antes dela cada povo marcava o tempo do seu jeito. Na Bíblia a história de Israel começa com Abraão, e o tempo era medido pela vida das pessoas: o Gênesis conta que ele tinha 75 anos quando deixou Harã. Depois, os fatos passaram a ser datados pelos reinados como faz o profeta Isaías ao situar uma visão "no ano da morte do rei Uzias". Bem mais tarde, a tradição judaica passou a contar os anos desde a criação do mundo, e por isso o calendário judaico está hoje no ano 5787.

Os cristãos herdaram essa memória. O Evangelho de Mateus apresenta os antepassados de Jesus a partir de Abraão, divididos em três etapas de catorze gerações - embora os personagens bíblicos jamais imaginassem que viviam no primeiro século da era atual. Séculos depois, o historiador cristão Eusébio de Cesareia elaborou uma ampla cronologia mundial contada a partir de Abraão. Ainda assim, não havia uma contagem unificada. As tabelas que calculavam a data da Páscoa, por exemplo, numeravam os anos a partir do reinado do imperador romano Diocleciano, que perseguiu duramente os cristãos. Foi então que entrou em cena Dionísio, apelidado de "o Exíguo", isto é, "o Pequeno", um monge residente em Roma. Em 525, encarregado de preparar novas tabelas pascais, ele decidiu mudar a numeração. Numa carta, explicou que não queria perpetuar a memória de um perseguidor, preferindo contar os anos a partir da encarnação de Jesus para exaltar o marco da esperança cristã. Nascia assim o anno Domini, expressão latina que significa "ano do Senhor" e originou a sigla A.D., equivalente ao nosso d.C.

A novidade porém demorou a pegar porque ao que parece, Dionísio só pensava nas datas da Páscoa. Foi o monge inglês Beda quem em 731 usou essa contagem num livro sobre a história da Igreja na Inglaterra. A partir daí ela se espalhou pela Europa e se tornou comum no século IX. A expressão "antes de Cristo", usada para os anos anteriores só se popularizou no século XVII. Essa contagem guarda duas curiosidades. A primeira é que não existe ano zero, pois do ano 1 antes de Cristo passa-se direto ao ano 1 depois de Cristo. A segunda é que Jesus provavelmente nasceu alguns anos antes do marco escolhido por Dionísio. Mateus diz que ele nasceu no tempo do rei Herodes, e a maioria dos historiadores calcula que Herodes morreu em 4 a.C. Por isso, o nascimento de Jesus costuma ser situado entre 6 e 4 a.C. Isso não invalida o calendário, pois o que importa é que todos usem o mesmo ponto de partida.

Se Dionísio definiu como contar os anos, foi o papa Gregório XIII quem acertou a contagem dos dias, mais de mil anos depois. O calendário criado por Júlio César considerava que o ano tinha 365 dias e seis horas. No entanto, o ano solar, que marca as estações, é cerca de onze minutos mais curto. Parece pouco, mas essa sobra somava um dia inteiro a cada 128 anos. Com o tempo, ela atrapalhou o cálculo da Páscoa, que depende do início da primavera no hemisfério norte. Para corrigir o problema, o papa determinou que, em 1582, o dia seguinte a 4 de outubro seria 15 de outubro. Ele também mudou a regra dos anos bissextos: os anos terminados em 00 só têm 29 de fevereiro quando são divisíveis por 400. Por isso, 1900 não teve esse dia, e 2000 teve. A mudança não foi aceita de uma vez. Portugal e Espanha adotaram o novo calendário no mesmo dia que Roma. Já a Grã-Bretanha, que era protestante, só aderiu em 1752; a Rússia mudou em 1918, e a Grécia esperou até 1923. Ainda hoje, Irã, Afeganistão, Etiópia e Nepal usam oficialmente outros calendários, e judeus e muçulmanos mantêm os seus na vida religiosa.

O calendário atual foi construído ao longo dos séculos. Mas considere esta grandeza: enquanto Israel conta seus anos a partir de Abraão, servo de Deus, o mundo contemporâneo numera os próprios anos a partir de Jesus, o Filho de Deus — tomando o seu nascimento como o marco central para organizar a história de toda a humanidade.

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