ESCÂNDALO DO LIXO

Saiba o que embasou prisão preventiva de Renato Purini em Bauru

Redação
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João Tardivo
Renato Purini, ao chegar à CPJ, da Polícia Civil
Renato Purini, ao chegar à CPJ, da Polícia Civil

O Ministério Público de São Paulo (MP-SP), por meio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), aponta indícios de que o ex-secretário municipal de Governo de Bauru Renato Purini (exonerado pela prefeita Suéllen Rosim, sua esposa) teria recebido vantagens indevidas relacionadas à concessão dos serviços de gestão de resíduos sólidos urbanos (lixo). Segundo a representação encaminhada à Justiça, com pedido de prisão preventiva, os pagamentos teriam sido intermediados por um advogado e formalizados por meio de documentos de prestação de serviços jurídicos. Purini foi preso em sua casa, onde houve também busca e apreensão de documentos, nesta sexta-feira (16), em novo Procedimento Investigatório Criminal (PIC) derivado da Operação Cavalo de Troia.

Entre os valores identificados pelos investigadores estão uma nota fiscal de R$ 750 mil, que teria sido emitida e paga, e uma cobrança adicional de R$ 90 mil. O próprio Ministério Público ressalva que ainda é necessário esclarecer o montante total envolvido, o caminho percorrido pelo dinheiro e a identidade de todos os destinatários finais.

As informações constam de uma representação cautelar apresentada pelo Gaeco à Justiça em 14 de outubro de 2026, no âmbito da segunda frente de investigação derivada da Operação Cavalo de Troia. O documento pediu a prisão preventiva de Purini, que ocorreu na sexta-feira, e medidas cautelares contra outros dois investigados, além de buscas pessoais e domiciliares. A peça descreve suspeitas que ainda precisam ser apuradas judicialmente. As imputações apresentadas pelo Ministério Público não equivalem a uma condenação.

Mensagens indicam pressão sobre vereadores

Um dos principais eixos da representação e prisão é a atuação atribuída a Purini durante a tramitação do Projeto de Lei que autorizou a concessão dos serviços de resíduos sólidos (lixo). O projeto foi aprovado em primeiro turno na madrugada de 9 de dezembro de 2025, por 11 votos a 9, após uma sessão que se estendeu por mais de 16 horas. A aprovação definitiva ocorreu no dia seguinte. De acordo com o Gaeco, mensagens extraídas de celulares apreendidos na primeira fase da operação indicariam que o secretário acompanhou a votação e trabalhou para garantir a presença de vereadores e a formação da maioria favorável à proposta.

Em uma conversa com Cilene Bordezan, então secretária municipal do Meio Ambiente e Bem-Estar Animal e atualmente presa preventivamente, Purini teria relatado que manteve reuniões com vereadores e telefonemas ao longo do dia. Em uma das mensagens, afirmou que estava "na pressão em cima deles desde a tarde", conforme a transcrição reproduzida na representação.

O documento também destaca diálogos nos quais o secretário teria relatado que impediu dois vereadores de deixar o estacionamento da Câmara e que mantinha uma pessoa na porta para acompanhar a movimentação. Para os investigadores, as conversas indicariam que a articulação ultrapassou o relacionamento institucional esperado de um secretário de Governo e teria sido utilizada para assegurar a aprovação de um projeto que, segundo a investigação, já apresentava sinais de direcionamento em favor de interesses empresariais.

Advogado teria sido indicado para intermediar pagamentos

Outro ponto central da investigação é a relação entre Purini, dois advogados e integrantes da Estre Ambiental. Segundo o Gaeco, em 26 de novembro de 2025 Purini encaminhou a Cilene o contato do advogado e pediu que o núcleo empresarial entrasse em contato com ele. Dois dias depois, teria cobrado novamente o encaminhamento da solicitação.

A investigação sustenta que o advogado não teria sido contratado a partir de uma escolha independente da empresa, mas por indicação do secretário. O advogado teria figurado formalmente como prestador de serviços jurídicos, recebido valores da companhia e, conforme a hipótese investigativa, repassado as quantias segundo as orientações recebidas.

A análise das mensagens teria permitido aos investigadores relacionar a contratação à emissão e ao pagamento de uma nota fiscal de R$ 750 mil.

Posteriormente, surgiu uma cobrança adicional de R$ 90 mil, além de referências a pagamentos anteriores e a uma obrigação recorrente. O Ministério Público aponta que os documentos fiscais e contratuais poderiam ter sido utilizados para conferir aparência de legalidade às transferências. A confirmação da natureza dos serviços, do fluxo financeiro e da eventual distribuição dos recursos entre os envolvidos depende, segundo a própria representação, do aprofundamento das diligências.

O Gaeco também descreve conversas em que Purini cobrava providências relacionadas aos pagamentos e acompanhava a formalização de documentos. Para os investigadores, esse comportamento seria incompatível com o de alguém que tivesse apenas recomendado um profissional para uma contratação jurídica ordinária.

Concessão estimada em R$ 5,2 bilhões

A investigação tem como pano de fundo a concessão do Sistema de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos Urbanos (lixo) de Bauru, empreendimento projetado para vigorar por 30 anos. O valor estimado das contraprestações ao longo do contrato é de aproximadamente R$ 5,26 bilhões, o que tornaria a contratação a maior já projetada pelo município.

Na primeira fase da Operação Cavalo de Troia, o Gaeco investigou suspeitas de que agentes públicos e privados teriam atuado para influenciar previamente a modelagem técnica, jurídica e econômica da concessão, criando condições favoráveis à Estre Ambiental.

A representação descreve possíveis interferências na elaboração dos estudos, do edital e de seus anexos, além da inserção de cláusulas restritivas e da definição de critérios de julgamento que poderiam beneficiar a empresa.

Também são relatadas suspeitas envolvendo a contratação da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE), que teria sido utilizada para conferir respaldo técnico a documentos produzidos ou orientados por integrantes do grupo investigado.

Ao fim da primeira etapa, o Ministério Público ofereceu denúncia contra seis pessoas: Hamilton Libório Agle, Cilene Chabuh Bordezan, Talita de Andrade Soares Chieregatti, Sara Moura de Jesus, Mário Luiz Silvério e Vitor João de Freitas Costa. Entre os crimes atribuídos aos denunciados estão organização criminosa, frustração do caráter competitivo de licitação, contratação direta ilegal e corrupção ativa e passiva, conforme a participação que o órgão atribui a cada um. A Justiça aceitou a denúncia e todos são réus.

A nova frente de investigação surgiu após a análise dos dispositivos eletrônicos apreendidos naquela etapa. De acordo com a representação, as mensagens examinadas posteriormente teriam revelado elementos que levaram os investigadores a aprofundar a apuração sobre Purini e outros envolvidos.

Papel de outros dois investigados

Além do secretário, o pedido apresentado à Justiça envolve dois advogados, um deles apontado como responsável, no âmbito da Estre Ambiental, pela execução material dos pagamentos investigados.

Conforme o documento, ele teria recebido formalmente os valores, participado da emissão de documentos fiscais e promovido repasses. Outro advogado, por sua vez, teria atuado na operacionalização dos pagamentos autorizados dentro da estrutura empresarial.

O Gaeco, porém, ressalva que ainda é necessário esclarecer o grau de conhecimento de cada um sobre a finalidade dos recursos. No caso do segundo advogado, a representação afirma que ainda precisa ser apurado se ele tinha conhecimento da suposta finalidade criminosa dos pagamentos ou se apenas cumpria determinações recebidas no âmbito da empresa.

Para os dois, o Ministério Público pediu medidas cautelares alternativas à prisão, incluindo proibição de contato com os demais investigados, restrição de saída da comarca sem autorização judicial, obrigação de manter os endereços atualizados, monitoração eletrônica e comparecimento aos atos para os quais fossem convocados.

Nota da prefeitura

"A Prefeitura de Bauru informa que, desde o início das investigações conduzidas pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), tem colaborado integralmente com as autoridades, fornecendo documentos, informações e os esclarecimentos solicitados, e seguirá contribuindo com tudo o que for necessário para o avanço das apurações. O Município respeita integralmente a atuação do Ministério Público do Estado de São Paulo e permanece à disposição das autoridades competentes. Diante das informações tornadas públicas e das medidas em curso, o secretário municipal de Governo, Renato Purini, foi exonerado do cargo. A Prefeitura seguirá atuando com transparência e responsabilidade, adotando as medidas necessárias para preservar o interesse público, a regularidade administrativa e a confiança da população."

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