HISTÓRIA

Aeroclube de Bauru: 87 anos de histórias que cruzam os céus

Por Priscila Medeiros | da Redação
| Tempo de leitura: 4 min
Museu Ferroviário Regional de Bauru
Vista aérea do Aeroclube de Bauru, na década de 1940
Vista aérea do Aeroclube de Bauru, na década de 1940

Pouco tempo após sua emancipação em 1896, Bauru já iniciava a trajetória que a transformaria na Capital do voo à vela. Foi entre pistas, hangares e oficinas que gerações de pessoas aprenderam a voar e ajudaram a escrever capítulos importantes da aviação brasileira. É nesse contexto que nasceu o Aeroclube de Bauru, instituição que atravessou décadas, formou pilotos, construiu aeronaves e transformou a cidade em referência nacional do voo à vela.

A história começa alguns anos antes da fundação do Aeroclube, em 1939. Em 1932, Bauru possuía um campo de aviação, localizado nos altos da Vila Cardia, que não atendia às exigências das grandes empresas que operavam na rota da cidade, como Sindicato Condor, Panair do Brasil e Correio Aéreo Nacional.

Por isso, em 8 de abril de 1939, foi fundado o Aeroclube de Bauru, em meio à Campanha Nacional de Aviação, iniciativa do governo federal que incentivava a construção de aeroportos, escolas de pilotos e aeroclubes. Por meio dessa iniciativa, a Prefeitura adquiriu cerca de 16 hectares na atual alameda Doutor Octávio Pinheiro Brisolla, para a nova estrutura e com apoio federal. A inauguração contou com a presença do Ministro da Aeronáutica Salgado Filho (primeiro Ministro da Aeronáutica do Brasil) e do general Gutierrez da Bolívia, o que demostra a importância do local.

A Estrada de Ferro Noroeste do Brasil teve participação decisiva na concretização do Aeroclube. Ferroviários ajudaram nas horas de folga, no projeto do prédio no estilo art-déco e na construção dos hangares, na manutenção e até na fabricação de aeronaves. O principal articulador foi o general Américo Marinho Lutz, então diretor da NOB e primeiro presidente do Aeroclube. Também se destacaram o professor Luiz de Gonzaga Bevilacqua, que permaneceu ligado à instituição por décadas, e o piloto e construtor Matheus Avallone Sobrinho. Bevilacqua e Lutz também estão entre as várias pessoas não mediram esforços para conseguir recursos para a construção da atual pista.

PLANADORES QUE ATRAVESSARAM GERAÇÕES

Nos primeiros anos, entre 1940 e 1941, o Aeroclube passou a oferecer cursos de pilotagem, voo a vela e aeromodelismo. Um dos personagens fundamentais foi Hendrich Kurt, de origem alemã, mas naturalizado brasileiro. Durante a Segunda Guerra Mundial, ele chegou a Bauru e trouxe conhecimentos de mecânica e construção aeronáutica, além da paixão pela aviação. Em 1942, iniciou nas oficinas do Aeroclube, a construção de planadores, sendo o primeiro, o planador Zoegling, batizado de Arildo Soares e conhecido como Canguru. O primeiro voo ocorreu em 5 de setembro daquele ano.

A iniciativa transformou Bauru em centro de formação de pilotos de planador. Uma das primeiras turmas reuniu 48 alunos. Entre 1945 e 1946, inclusive, cadetes bolivianos estiveram na cidade para aprender voo a vela e chegaram a construir um planador para a Bolívia, sob orientação de Kurt.

Em 87 anos de existência o Aeroclube formou mais de 5 mil alunos nos cursos de piloto de avião, piloto de planador, instrutor de voo, comissário de bordo e mecânico de aeronaves. Entre esses alunos, estão pessoas que tiveram importância nacional e internacional na área da aviação, como o engenheiro Ozires Silva (fundador da Embraer), tenente coronel astronauta Marcos César Pontes e o brigadeiro Sócrates Monteiro (ex-ministro da Aeronáutica).

A partir de 1949, o Aeroclube passou a se destacar nas competições nacionais e conquistou 28 primeiros lugares em 32 anos de campeonato. O desempenho consolidou Bauru como a Capital Nacional do Voo a Vela. Por conta desse título, o primeiro curso de Direito Aeroespacial do Brasil foi criado na Faculdade de Direito de Bauru, mantida pela Instituição Toledo de Ensino (ITE). Atualmente a ITE mantém o curso de Ciências Aeronáuticas.

A partir da construção do primeiro planador, Bauru passou a desenvolver uma tradição na fabricação dessas aeronaves e na formação de pilotos especializados em voo sem motor. Entre os projetos de destaque está o Flamingo, desenvolvido pelo engenheiro aeronáutico Hans Widmer, é o Spalinger S-25A, construído em Bauru a partir de 1951.

O Spalinger é considerado uma raridade. Segundo a instituição, existem apenas dois exemplares preservados no mundo: um em um museu na Suíça e outro em Bauru e que está em condições de voo. Mais de oito décadas depois, o Aeroclube permanece como um dos símbolos da cidade e como o aeroclube há mais tempo em atividade do país.

CURIOSIDADES

O Aeroclube teve o primeiro serviço de meteorologia de Bauru e região, muito antes mesmo do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (Ipmet) da UNESP de Bauru, que era mantido pelo Ministério da Agricultura.

A atuação da instituição também alcançou a astronomia. Em 1956, suas oficinas produziram cerca de 20 telescópios para observações científicas. Uma foto feita com um dos telescópios do satélite soviético Sputnik está exposta até hoje no Museu de Ciências de Moscou. O professor Luiz Bevilacqua foi um dos primeiros membros da Sociedade Interplanetária Brasileira que se se chama Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Em 2004, o Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Bauru (Codepac) tombou o conjunto constituído pelos três hangares, a fachada frontal da sede administrativa, incluindo a torre de observação e o telhado.

 

 

Um dos hangares tombados pelo Codepac, madeiramento  foi feito por ferroviários que utilizaram técnicas usadas  nas construções da ferrovias. Foto: Priscila Medeiros
Um dos hangares tombados pelo Codepac, madeiramento foi feito por ferroviários que utilizaram técnicas usadas nas construções da ferrovias. Foto: Priscila Medeiros
Vista aérea do Aeroclube com a pista já  pavimentada, na década de 1960. Foto: Museu Ferroviário Regional de Bauru
Vista aérea do Aeroclube com a pista já pavimentada, na década de 1960. Foto: Museu Ferroviário Regional de Bauru

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