OPINIÃO

O recado das urnas e a reação do mercado

Por Reinaldo Cafeo | O autor é diretor regional da Ordem dos Economistas do Brasil
| Tempo de leitura: 3 min

O primeiro turno das eleições gerais brasileiras produziu um movimento que vai além da simples definição dos candidatos que seguem na disputa pela Presidência da República. A nova composição desenhada para o Congresso Nacional, especialmente para o Senado Federal, reforçou a presença de forças políticas conservadoras e passou a influenciar imediatamente as expectativas dos agentes econômicos.

A reação positiva observada no mercado pode ser interpretada, nesse contexto, menos como uma manifestação de preferência partidária e mais como uma *reprecificação das expectativas para os próximos anos*.

Mercados financeiros trabalham essencialmente com antecipações. O preço das ações, a cotação do dólar e as taxas de juros incorporam permanentemente projeções sobre inflação, crescimento, situação fiscal, segurança jurídica e condução da política econômica. Quando eleições alteram a probabilidade atribuída pelos investidores a diferentes cenários, os preços dos ativos também se ajustam.

Um dos aspectos mais importantes do primeiro turno foi, segundo a premissa desta análise, o avanço das forças conservadoras no Congresso Nacional, com destaque para o Senado Federal.

No Brasil, quem ocupa a Presidência da República não governa sozinho. Reformas constitucionais, mudanças tributárias, alterações relevantes na legislação econômica e boa parte da agenda fiscal dependem do Congresso.

O Senado, por sua vez, possui atribuições institucionais particularmente relevantes. Por isso, mudanças expressivas em sua composição podem interferir nas expectativas sobre a relação entre Executivo e Legislativo e sobre os limites que o Congresso colocará às políticas do próximo governo.

Para o mercado, portanto, a composição parlamentar pode ser tão importante quanto o resultado presidencial.

Um Congresso percebido como mais comprometido com disciplina fiscal, segurança jurídica, propriedade privada, economia de mercado e controle da expansão dos gastos públicos tende, caso essa percepção efetivamente prevaleça entre os investidores, a reduzir alguns dos riscos atribuídos aos ativos brasileiros.

Existe ainda um segundo componente nessa leitura: a disputa pela Presidência. A expectativa de uma eventual vitória de *Flávio Bolsonaro*, mencionada no cenário proposto, estaria sendo interpretada por parte dos agentes econômicos como possibilidade de encerramento do ciclo petista no governo federal e abertura de espaço para uma mudança na orientação da política econômica.

Para o investidor, a pergunta central não deveria ser simplesmente quem governa, mas qual política econômica será implementada. Uma eventual alternância de poder passará a produzir efeitos econômicos sustentáveis somente se vier acompanhada de propostas concretas. Entre elas estão o equilíbrio das contas públicas, estabilização da dívida, controle da expansão das despesas, simplificação tributária, aumento dos investimentos, melhoria do ambiente de negócios e elevação da produtividade brasileira.
A mudança somente estará caracterizada se houver alteração consistente na maneira como o Estado brasileiro arrecada, gasta, investe, regula e se relaciona com o setor privado.

Uma valorização inicial dos ativos após uma eleição representa uma fotografia das expectativas naquele momento. Não é um cheque em branco para o futuro governo.

Se o cenário político apontar para uma administração considerada pelo mercado mais comprometida com equilíbrio fiscal e reformas, os investidores podem antecipar essa expectativa comprando ações brasileiras, reduzindo posições defensivas e revendo suas projeções para câmbio e juros.

O mercado costuma antecipar mudanças positivas e também desfazê-las rapidamente quando percebe que as promessas não serão transformadas em medidas concretas. Por isso, uma eventual administração de Flávio Bolsonaro teria o desafio de demonstrar desde a transição qual será sua equipe econômica e, principalmente, quais serão as regras que orientarão a administração das contas públicas. Mais importante do que nomes será a apresentação de uma estratégia econômica coerente.

O fortalecimento dos conservadores no Congresso, principalmente no Senado, combinado com a possibilidade de alternância de poder na Presidência, ajuda a explicar por que investidores poderiam revisar suas expectativas para o Brasil.

Agora é aguardar os resultados das urnas em 25 de outubro, bem como o aprofundamento das ações na economia e com isso, observar na prática se o modelo econômico se sustenta. 

De qualquer maneira uma coisa é certa: o modelo econômico atual não nos levará a um porto seguro, pelo contrário, insistir nele é nos levar a recessão.

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