OPINIÃO

Como recriar? Quando será a hora de reinventar?

Por Roberto Pallu | O autor é produtor audiovisual
| Tempo de leitura: 3 min

O que é renovar?
Como recriar?
Quando será a hora de reinventar?
Por quê?
O tempo passa.
E Passa ainda mais rápido o tempo que passou.
O presente ainda está presente. Está aqui, no compasso da nossa vida, no nosso dia a dia, acontecendo enquanto tentamos entendê-lo.
O futuro, ah, esse cara que não chega nunca…
Talvez porque, quando chega, já não seja mais futuro. Vira presente. E, num piscar de olhos, começa a virar passado.
É uma armadilha interessante do tempo.
Passamos boa parte da vida esperando aquilo que ainda não chegou e outra parte considerável lembrando daquilo que já foi. E, espremido entre os dois, está o presente — talvez o único tempo sobre o qual realmente podemos fazer alguma coisa.
Enquanto o futuro não chega, o passado nos presenteia com aquilo que não está mais presente.
Parece apenas um jogo de palavras.
Não é.
O passado nos entrega referências, experiências, afetos, erros, acertos, cicatrizes e aprendizados. É uma espécie de arquivo vivo daquilo que fomos.
Mas existe uma diferença enorme entre carregar o passado e ser carregado por ele.
Talvez seja aí que comece a discussão sobre renovação.
Renovar não significa necessariamente abandonar aquilo que veio antes. Muito menos negar a própria história.
Uma árvore não precisa arrancar suas raízes para produzir folhas novas.
Ao contrário.
É justamente porque possui raízes que consegue crescer.
O problema começa quando confundimos raiz com âncora.
A raiz alimenta.
A âncora imobiliza.
E talvez pessoas, instituições, empresas, cidades e até sociedades inteiras precisem, de tempos em tempos, fazer esta pergunta:
Aquilo que estamos preservando ainda nos alimenta ou simplesmente nos impede de caminhar?
Não existe uma placa avisando:
“Chegou a hora de renovar.”
Também não existe um relógio marcando o momento exato da mudança.
Porque renovar não é simplesmente trocar o velho pelo novo.
O novo também envelhece.
E o velho também pode continuar absolutamente necessário.
Renovação talvez tenha muito menos relação com idade e muito mais com a capacidade de compreender o tempo em que estamos vivendo.
É perceber quando uma ideia cumpriu seu papel.
Quando uma linguagem deixou de conversar.
Quando uma estrutura deixou de responder.
E aí chegamos à política.
Em períodos de campanha eleitoral, a renovação costuma entrar em cena com a precisão de uma campanha publicitária: troca-se a paleta, atualiza-se o slogan, ensaia-se um gesto de espontaneidade e reapresenta-se o mesmo repertório de promessas. O problema não é usar palavras novas para discutir problemas antigos. É chamar de mudança a simples troca de embalagem — sobretudo quando permanecem intactos os métodos, os interesses e a disposição de ocupar o poder a qualquer custo.
Alguns candidatos anunciam, em tom de descoberta histórica, que representam a “nova política”.
Quá… quá… quá…
Nova política com velhos temas, velhas alianças e velhas práticas — agora acompanhadas de uma identidade visual mais limpa.
Novos discursos repetindo antigas fórmulas, como se a novidade estivesse no microfone e não na maneira de decidir, prestar contas e dividir espaço.
E candidatos que falam em romper com tudo, desde que ninguém lhes peça para largar o osso, os privilégios ou o controle da máquina.
Renovação?
Talvez seja justamente aí que uma certeza precise novamente virar pergunta.
Porque renovar não é declarar-se novidade!
Não é uma questão de certidão de nascimento, slogan, fotografia, legenda ou embalagem.
Renovação é movimento.
É permitir que novas ideias encontrem espaço. É compreender que a experiência pode ser fundamental sem se transformar em monopólio. Que preservar a memória não significa impedir a mudança. E que construir o futuro exige, algumas vezes, abrir espaço para aquilo que ainda não conhecemos.
Talvez a verdadeira renovação aconteça exatamente nesse instante: quando temos coragem suficiente para olhar aquilo que construímos, reconhecer seu valor e, ainda assim, admitir que podemos fazer diferente.
O futuro não chega pronto.
Não traz respostas, garantias nem novidade por conta própria.
Somos nós que o construímos — com as escolhas, os espaços que abrimos e as mudanças que aceitamos fazer agora.
O passado pode nos orientar, mas só o presente pode nos mover.
Por isso, a pergunta não é quando será a hora de renovar.
É esta: Quanto do futuro estamos dispostos a construir enquanto ele ainda se chama presente?

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