Quando era criança sentia sensações apavorantes na Semana Santa. Santos envoltos em panos roxos nas igrejas. Minha mãe e suas intermináveis novenas as quais tinha que acompanhar. Na Sexta-Feira Santa, ao cair da tarde, a procissão do Senhor Morto me dava arrepios. O desfile dos fiéis a passos lentos, velas com corta-ventos à mão, a reza das Filhas de Maria entoadas em contraponto com a dos Marianos. Chocante a visão do Senhor Morto no andor. A imagem de Cristo ensangüentado, coroa de espinhos cravados na cabeça. Eu me perguntava como foram capazes de tanta maldade os ancestrais do Benjamin, o judeuzinho da escola. O alívio vinha com a bandinha cerra-fila e sua música fúnebre onde o bombardino marcava o compasso. Depois do terror da Sexta-Feira e a alegria da malhação do Judas, chegava a frustração do domingo de Páscoa. O ovo era de galinha, cozido com cascas de cebola para ganhar coloração vermelha. O do Benjamin era de chocolate, e dos grandes. Logo ele, parente dos que mataram Jesus. Com que direito? Era praticamente obrigatório assistir ao filme “A Paixão de Cristo” ou “Rei dos Reis”, do Cecil B.de Mille. Versões toscas se comparadas com as mais modernas como a de Pasolini, belíssima. Estilizadas, mas respeitadoras dos Evangelhos.
Outro dia consegui um DVD pirata do filme de Mel Gibson e já me senti um pecador por ajudar a burlar direitos autorais. Ao assistir ao filme perdi o remorso. Pecado muito maior é o de quem faz marketing a ponto de reabrir feridas no relacionamento judaico-cristão para ganhar dinheiro e chocar o público. O filme de Gibson transforma todos os judeus nos maiores culpados pelo sofrimento e morte de Jesus. Pôncio Pilatos não passa de um débil manipulado por Caifás, o sacerdote do Templo. Esse marketeiro do cinema sequer pensou nos ressentimentos que podem ser reacesos contra o povo que já sofreu dois mil anos, perseguido, massacrado e vilipendiado por ter protagonizado o Grande Crime. O próprio Jesus era judeu. Se a história se desse no Brasil, nos Estados Unidos ou no Japão, o fim seria o mesmo. Na verdade, pelo menos para um leitor esporádico como eu, os Evangelhos também são anti-semitas.
Sem dúvida é um filme bem produzido. Mas é preciso ter estômago. Tire as crianças da sala. Cristo é reduzido a picadinho. Mel Gibson quer mostrar cada prego entrando na carne. As vergastas rasgam os músculos. O sangue espirra no centurião que lanceta o coração do Homem na cruz e o converte imediatamente. Li que Gibson nem quis saber do evangelho de São Marcos, o mais antigo, para elaborar o seu roteiro. Preferiu textos como o da visionária alemã Catarina Emmerich, que, em transe, descreveu a visão mais minuciosa da Paixão. “Quando Jesus se afastou dos discípulos, vi em redor dele um largo círculo de imagens horríveis, o qual se apertava mais e mais. Cresceu-lhe a tristeza e a tribulação, e retirou-se tremendo para dentro da gruta, semelhante ao homem que, fugindo de uma tempestade, procura abrigo para rezar; vi, porém, que as imagens assustadoras o perseguiram lá dentro da gruta. A estreita caverna parecia encerrar o horrível espetáculo de todos os pecados cometidos desde a queda do homem até o fim dos séculos.” Prestem atenção nas imagens iniciais do Horto das Oliveiras. É tudo parte das visões de Emmerich. O espectador fica sabendo o que sente um homem que chega a suar sangue, como consta dos Evangelhos. O que se segue é uma massacre sem fim. Uma via-sacra ao vivo, em cores e sangue.
É evidente que cada artista tem a sua visão de Cristo: Michelangelo, Fra Angélico, El Grego o pintaram cheios de luz. Yeronimus Bosch preferiu-o esbofeteado. Dali pintou a crucifixação vista de cima, onde está o olho de Deus. Há o Cristo gargalhante da Catedral de Arles. E o de mini-saia na Catedral de Burgos. Mel Gibson preferiu fatiá-lo em pedacinhos. Assim como ficaram muitas das vítimas das explosões de Atocha, na Espanha, também por causa do fundamentalismo religioso, como tudo leva a crer. O que acontece hoje no mundo supera em muito a violência dessa “Paixão de Cristo”. É sobre isso que temos que refletir. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)