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A falta que ela me faz


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Bauru é casal separado. Uma coisa endêmica. Parece Brasília. Acho que uma das causas de contaminação é o pessimismo que se abateu sobre a cidade depois de anos de notícias ruins. O amor é eterno enquanto dura, dizia o saudoso Vinicius. Pena que poucos se lembram disso. Quando encontro uma amiga já nem pergunto sobre o marido, e vice-versa. É gafe na certa: Há três anos nos deixamos. Não lembra?

Como vou me lembrar se nem sequer fui avisado? Também não freqüento rodinhas de fofocas. É até bom ignorar. A gente corre o risco de viver ansiedade parecida com a de quem enfiou o pé na jaca, só de ver a cara de sofredor do próximo. Meu amigo Toninho, quando descasou, vivia na minha sala contando os lances da pós-separação. Divorciada, ela partiu pra outra. Ele morria de ciúme. Telefonava, espionava a casa, metia minhoca na cabeça dos meninos. Perdeu o sono e peso. A cada dia ganhava mais intimidade com a cerveja. Dizia que iria matar os filhos “para que não sofressem”. Uma falsa Medeia de calças compridas e cara desenxabida, esse meu amigo.

Enterre a falecida, Toninho. Cadáver cheira mal... procurava aconselhar. Cadáver não é só corpo sem vida. É tudo o que deve ser deixado para trás: o emprego que se perdeu, o prestígio que se foi, o amigo que traiu, o filho que decepcionou, a beleza que feneceu. Tudo foi bom. Ou não. Mas passou. O casamento também. É a oportunidade de se abrir espaços internos e externos. Também fui descasado mas dei a volta por cima com outro casamento que já dura 25 anos. Se não fossem felizes não chegaria a tanto.

Um jornalista gaúcho conta a história do Lupicínio Rodrigues que conheceu uma mulata “cheia de requebros e maneiras” no Rio de Janeiro e a levou para Porto Alegre. Viveu uma paixão violenta. Caiu nos dengues da “Carioca”, como ficou conhecida na roda freqüentada pelo genial compositor. Um dia o velho Lupi se ausentou para fazer shows no interior e a cabrocha o traiu com seu melhor amigo. Tão amigo que vivia na edícula da sua casa, de favor. O mui amigo ainda teve a pachorra de confessar. Vertida a última lágrima, sentado na sarjeta e ainda na presença do traidor-confesso puxou a caixa-de-fósforo Fiat Lux e começou a tirar um som no compasso dois por dois de um dolente samba-canção. A dor do amor vilipendiado o inspirava nos versos que iam brotando em soluços: “Nunca/ Nem que o mundo/ Caia sobre mim/ Nem se Deus mandar/ Nem mesmo assim/As pazes contigo eu farei”. Meses depois vieram lhe contar que tinham visto a Carioca de porre na mesa de um boteco na beira do cais. O compositor puxou logo do bolsinho de dentro do paletó sua Fiat Lux e, já anunciando o tom (lá maior), improvisou: “Eu gostei tanto/Tanto quando me contaram/ Que lhe encontraram/ Bebendo e chorando/ Na mesa de um bar, / E que quando os amigos do peito/ Por mim perguntaram/ Um soluço cortou sua voz, /Não lhe deixou falar”.

“Você há de rolar como as pedras que rolam na estrada” - foi a sentença final. As letras de Lupicínio Rodrigues ajudaram a curtir muita dor-de-cotovelo por estes brasis. É preciso dar tempo ao tempo, infalível julgador e a mais sábia solução para todos os males. Raivas, mágoas e ódios são cadáveres que pedem sepultura. Administrá-los custa caro. A moeda é a saúde, o bem-estar. Nenhum inimigo vale tanto.

Lembro-me da Dina Sfat. Ela sofreu muito quando se divorciou do Paulo José. Chorou. Curtiu luto. Um belo dia acordou feliz. Adorou a vida nova. Havia descoberto que agora tinha o dobro do espaço no armário. Outra constatação maravilhosa: podia ir ao banheiro sem ao menos precisar fechar a porta.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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