Acuado por um grupo de jovens agressores, o comerciante Saulo Santo Boranelli, 28 anos, morador de Lençóis Paulista, quase provocou uma tragédia na avenida Getúlio Vargas, em Bauru, anteontem à noite. Na tentativa de livrar-se do bando e para garantir punição a seus integrantes, ele atravessou o canteiro central da via, feriu pedestre, colidiu contra um veículo onde estavam três rapazes e atingiu o portão de uma casa.
As reações explosivas deste caso não devem ser analisadas de forma isolada, na opinião do antropólogo Cláudio Bertolli. Ele acredita que as tensões provocadas pela sociedade tornam qualquer um capaz de explodir frente a eventuais problemas (leia texto ao lado).
Segundo Boranelli relatou à reportagem, ele utilizava um orelhão situado no início da avenida, próximo a um supermercado, quando três rapazes bateram com força no telefone público. A iniciativa resultou num forte eco. Por conta do desrespeito, Boranelli admite ter xingado o trio. Os rapazes, porém, integrariam um grupo situado do outro lado da calçada. Por conta do desentendimento, relata Boranelli, todos eles vieram em sua direção.
Para proteger-se, entrou no veículo (um Corsa Classic branco, placas DJC 0335), que tornou-se alvo dos agressores. Mesmo com o carro danificado especialmente por conta de pedradas, Boranelli afirma ter decidido acompanhar as pessoas que lhe provocaram prejuízo seguindo-as com o automóvel, sentido Centro-bairro. Disse ainda que, simultaneamente, ligava para a polícia e pedia às testemunhas que fizesse o mesmo. Num dado momento, voltou pela mesma via, no sentido contrário.
Na mira
Durante o trajeto, continuou na mira do bando. Para livrar-se dele, numa atitude de desespero, atravessou o canteiro central, explicou à reportagem. Segundo a versão do comerciante, os acidentes foram uma consequência. No entanto, duas testemunhas que procuraram a reportagem ontem alegam que eles foram provocados porque Boranelli intencionava atingir membros do grupo com o próprio veículo. Por pouco não teria alcançado seu objetivo.
Ao atravessar o canteiro da Getúlio Vargas, ele atropelou Luiz Henrique Rios de Almeida, 16 anos, que havia acabado de deixar o local onde trabalha. O adolescente sofreu uma luxação no pé. Coincidentemente, o Corsa branco conduzido pelo comerciante atingiu um outro Corsa branco, dirigido pelo técnico de informática Leandro Mendes. Ele não ficou ferido, assim como seus dois amigos que o acompanhavam no veículo. Os três presenciaram o arremesso de pedras contra o carro de Boranelli.
Decidiram, inclusive, deixar o Corsa que os conduzia já que as características eram as mesmas do ‘veículo-alvo’ do comerciante. A preocupação é que eles também entrassem na mira do grupo. Por fim, Boranelli atingiu o portão da residência de Joaquim de Oliveira, 83 anos. Ele e a esposa dormiam no momento da ocorrência e foram despertados pelo forte estrondo. Com o carro todo danificado, o comerciante conseguiu fugir do grupo e parou seu carro em frente a um bar, na rua Antônio Alves.
Segundo ele, o grupo o encontrou e continuou depredando seu carro, sem se intimidar com a presença de policiais. Escondido no interior do estabelecimento, Boranelli conseguiu preservar sua integridade física. O caso foi levado ao plantão da Polícia Civil, que investigará as circunstâncias da ocorrência. Ninguém foi preso. Antes, no entanto, o estudante Guilherme Augusto Perrenoud procurou a Polícia Militar para afirmar que também havia sido atingido pelo veículo de Boranelli, quando Luiz Henrique foi atropelado.
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‘Todos somos panelas de pressão’
A ocorrência registrada anteontem na avenida Getúlio Vargas não deve ser compreendida apenas como um ato fortuito de uma pessoa que enlouqueceu, na opinião do antropólogo Cláudio Bertolli. Professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), ele acredita que todos sejamos uma panela de pressão, capaz de estourar frente a um incidente.
“Apesar de falar muito em liberdade, a sociedade contemporânea cobra muito dos indivíduos. Nós somos pessoas extremamente tensas. Isso faz com que em certos momentos de contrariedade não saibamos mais agir racionalmente”, explica. De acordo com o antropólogo, por motivos de trabalho, família, religião etc, as pessoas se frustram e ‘explodem’. Situações de injustiça, ameaça (física ou do patrimônio), podem desencadear a reação.
“Todos nós estamos prestes a enlouquecer. É cada vez mais iminente. Esses pequenos atos de infração no cotidiano, de certa forma, nos descompressionam”, destaca. Ele acredita que a situação deva se agravar conforme o Brasil for se modernizando. Cita casos nos Estados Unidos de pessoas que saem matando aleatoriamente e os de suicídios, no Japão, como consequência de uma sociedade controladora.
“Em nome do politicamente correto, a sociedade está cada vez mais cobrando”, frisa. Para a psicóloga Maria Orlene Daré, a ocorrência de ontem também tem relação com a questão social. “Qualquer ser humano mediante uma alta pressão social, não sei o que ele (o comerciante) passou, se foi humilhação, por exemplo, é capaz de ter um descontrole emocional. Sempre o objeto disparador é a pressão social”, diz.
Ela pondera, no entanto, que a mesma situação pode acontecer com outra pessoa, sem provocar o mesmo efeito. Por essa razão, Maria Orlene também leva em conta o perfil e o histórico das pessoas envolvidas. “As coisas (pessoal e social) estão muito integradas. Neste caso, é difícil falar com poucos elementos. Vejo como um descontrole frente a uma pressão muito grande, uma agressão”, finaliza.